Leonardo Padura: "No dia 11 Cuba mudou"

Sem iogurtes para o pequeno-almoço, mas "independente para dizer o que penso e escrever o que quero". O escritor cubano, regressa a Portugal em Agosto, para retomar o fio das primeiras investigações do detective Mário Conde. A reedição do Quarteto de Havana, é o pretexto imediato para a conversa com Leonardo Padura.

As manifestações de 11 de Julho também se fazem ouvir:" Era inevitável. Foi um grito de desespero".

As filas avistam-se junto ao mercado, num dos quarteirões do bairro de Mantilla. São 10 da manhã em Cuba e Leonardo Padura já tomou o pequeno-almoço. É mais um dia sem poder comer os iogurtes de que gosta. Mas há cigarros e café. O escritor cubano prepara-se para retomar o enredo de uma nova investigação policial. Desta vez, o mítico inspector Mário Conde, já reformado, aceita o pedido de ajuda de um antigo colega da polícia. A certa altura pergunta-lhe : "eras capaz de reprimir o teu povo?". A pergunta não surge por acaso. As manifestações de 11 de Julho bailam nas palavras de Padura. O inspector sopra o vento das mudanças que se levantam na sociedade cubana, e o escritor acaba por nos desvendar um pouco da história do novo conto, a que vai chamar A ILHA E O DELÍRIO.

"Cuba era uma coisa no dia 10 e outra no dia 11, mas não se pode adivinhar o futuro." Depois do artigo escrito 4 dias depois das manifestações, Leonardo Padura reforça o "grito do desespero" perante a falta de bens no país: " Imagina que no país do tabaco, nos últimos 2 ou 3 meses, até o tabaco faltou".

A página virou, acredita o escritor, para quem os testemunhos gravados e filmados são a prova da inevitabilidade. Enquanto o povo volta, de novo, para as filas tentando suprir a falta de medicamentos e de comida, em casa do escritor " as carências materiais, e até espirituais " não fazem esmorecer a criatividade.

O autor explica que é ali, naquela casa onde viveu o seu pai, que habita todo o seu amor por Cuba "aqui tenho o espaço e o lugar onde me sinto mais criativo, cresci nestas ruas, aprendi a jogar baseball, esta é a minha língua".

Da janela da sala onde escreve, as paredes pintadas de azul celeste limpam o horizonte e fazem pensar nas próximas viagens. Esta foi a última entrevista, antes de retomar o enredo da nova investigação policial de Mário Conde. Daqui a uma mês, fará as malas para uma viagem pela Europa, com paragem em Portugal. Haverá tempo para os leitores, para encontrar velhos amigos e para comer uma boa pasta de bacalhau. Com arroz branco.

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