Liderança de Guterres na ONU foi afetada pela "desglobalização"

Português foi eleito há cinco anos para ser chefe da Organização das Nações Unidas.

A liderança de António Guterres como secretário-geral da ONU teve menos força nos primeiros anos, mas foi visível nos entendimentos multilaterais que continuaram a existir num período de "desglobalização", sustentam especialistas em relações internacionais à agência Lusa.

O português António Guterres foi eleito há cinco anos para ser chefe da Organização das Nações Unidas, e recentemente reeleito, uma organização com 193 Estados-membros que trabalha para defender a paz e segurança no mundo.

A 05 de outubro de 2016, o Conselho de Segurança chegou a acordo sobre o nome a recomendar à Assembleia Geral da ONU para secretário-geral, com 13 votos a favor de António Guterres e duas abstenções.

No dia seguinte, a recomendação do Conselho de Segurança seguiu para a Assembleia dos 193 Estados-membros, que a 13 de outubro anunciou António Guterres como secretário-geral por aclamação.

A liderança de António Guterres é "notável", segundo Kelly-Kate Pease, uma especialista focada em análise da gestão de crises pelas Nações Unidas e professora na Webster University, em St. Louis, Missouri.

Para Kelly-Kate Pease, as crises globais estão em aceleração e têm-se tornado cada vez mais complicadas, devido a um processo de "desglobalização" - cada país a tentar proteger-se de forma interna e separada do exterior, "que é exatamente a coisa errada a fazer" e bem contrário ao multilateralismo que é defendido pela organização.

"A força de António Guterres é ser capaz de negociar entre os diversos constituintes" da ONU e de fazer as conversações avançarem "sem alienar" os principais intervenientes, numa "diplomacia silenciosa", acrescenta Pease, autora de vários livros sobre relações internacionais e co-autora de um livro sobre as Nações Unidas.

"Ele é muito bom a manter a ONU no centro, mesmo quando os Estados se afastam", sublinha a docente universitária.

Maria Ivanova, diretora do Centro de Governação e Sustentabilidade da University of Massachusetts, em Boston, declara-se "inspirada" com o relatório do secretário-geral intitulado "Our Common Agenda" ("A Nossa Agenda Comum"), apresentado em 10 de setembro último, onde se vê "um secretário-geral muito diferente" dos últimos cinco anos.

Segundo a diretora do programa de pós-graduação em Governação Global e Segurança Humana na Universidade de Massachusetts, ao contrário do que se viu no primeiro mandato, António Guterres está agora a "articular uma grande visão, de ciência e solidariedade".

"Eu não tinha visto isso nos últimos anos ser expresso de forma tão eloquente, articulada e convincente", considera Maria Ivanova à agência Lusa, explicando que "o secretário-geral está na posição de ter o poder sobre a retórica".

"Esperamos sempre que o secretário-geral assuma uma posição moral, que seja o grande líder com grande visão e retórica que inspira as pessoas", descreve, Maria Ivanova acrescentando que Guterres estava "mais focado no aspeto técnico das Nações Unidas" para se incluir no bom funcionamento e na reforma da organização.

Para a especialista dedicada ao estudo da governação global e políticas ambientais, um dos pontos mais importantes da "Nossa Agenda Comum" é que Guterres "diz explicitamente que se vai comprometer em restabelecer um conselho científico consultivo" - um conselho da ONU que Maria Ivanova integrou durante o mandato do antigo secretário-geral, Ban Ki-moon.

A professora, que conduz um projeto da Universidade de Massachusetts para "reimaginar o multilateralismo", elogia o atual secretário-geral pelo compromisso com a igualdade de género e por continuar a defender a agenda ambiental e o desenvolvimento sustentável quando a pandemia de Covid-19 colocou o mundo em suspenso.

Thomas Weiss, que faz parte da campanha de sociedade civil "1 for 7 Billion" e entrevistou em Nova Iorque alguns dos candidatos a secretário-geral da ONU em 2016 em frente ao público, confessa à Lusa ter tido uma "enorme desilusão" com os primeiros anos de António Guterres à frente da ONU.

Na altura das eleições para secretário-geral, há cinco anos, Guterres, antigo Alto Comissário da ONU para os Refugiados, era "de longe, o melhor candidato" na visão de Thomas Weiss, autor de 10 livros e co-autor de outros 40 livros, especialista em intervenção humanitária e no estudo das Nações Unidas.

"Posteriormente, eu não fiquei muito impressionado", acrescenta Thomas Weiss, porque Guterres não tem feito um uso do "bully pulpit" (púlpito da intimidação), um conceito de governação global que confere a autoridade, o poder e a plataforma para expressar as verdadeiras opiniões e ser ouvido e respeitado.

Na opinião do professor da City University of New York, Guterres não tem usado o poder para chamar à atenção, "embaraçar" e afrontar publicamente os Estados-membros que agem contra a missão da ONU.

"Creio que desde 2017, o seu principal objetivo era a reeleição em 2021. Eu esperava que ele saísse do ponto de partida muito antes e que irritasse muito mais pessoas", declara Thomas Weiss, dizendo que António Guterres se devia expressar mais livremente contra "o comportamento dos países".

Autor do livro publicado em 2018 "Would the World Be Better without the UN?" ("Será que o mundo seria melhor sem a ONU?", em tradução livre), Thomas Weiss sublina, nas declarações à agência Lusa que "definitivamente, sem a ONU, o mundo não seria bom", sem a luta conjunta para combater a varíola [doença declarada erradicada em 1980] ou sem esforços de "recolha de dados" e investigação em países subdesenvolvidos ou sem a assistência humanitária para as pessoas em zonas de guerra ou de desastres.

Mas, ao mesmo tempo, "o mundo poderia ser muito melhor com um melhor secretariado da ONU, com pessoas mais corajosas e competentes, ao lado de Estados-membros que realmente respeitassem as leis internacionais", afirma Thomas Weiss.

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