Lítio, Sado e aeroporto do Montijo. Governo não tem política ambiental "coerente"

Viriato Soromenho Marques aponta incongruências ao Governo, que estabelece a transição energética como uma prioridade mas também toma decisões negativas para o ambiente. Jorge Moreira da Silva reforça que os países ricos têm de ajudar os mais pobres nesta luta.

"Se olharmos para a situação em 2015, quando o Acordo de Paris foi assinado, e a situação atual, o que nós vemos é que nestes quatro anos, em vez de reduzirmos as emissões de gases de efeito de estufa, essa concentração sofreu um aumento." As palavras são de Viriato Soromenho Marques, que interpreta a subida de mais de 11 ppm de volume de CO2 desde maio de 2015, para 415 ppm, como "uma imensidão", num momento em que o mundo se debate com a emergência climática.

A propósito da cimeira do clima, em Madrid, o ambientalista, ouvido por Manuel Acácio no Fórum TSF, diz ter muitas dúvidas sobre a forma como o mundo vai combater as alterações climáticas. "O Acordo de Paris apontava o objetivo de conseguir estabilizar o aumento da temperatura até ao final do século em 1,5 graus Celsius." Essa ambição, na perspetiva de Soromenho Marques, "não está a ser acompanhada por medidas adequadas", o que pode desencadear que, até ao final do século, haja já um aumento de 3,4 graus Celsius, "o que é uma calamidade com um impacto social gigantesco".

Nesta luta, defende o catedrático, quem está de facto a falhar "rotundamente" são os sistemas políticos internacional e nacional, bem como a União Europeia, "porque as políticas estão a ser desenhadas como se efetivamente os mercados fossem capazes de resolver o problema".

"As alterações climáticas, como tem vindo a ser dito por muitos economistas, são uma falha estrutural do mercado. O mercado não funciona na base do interesse geral da humanidade. O mercado funciona na base de reprodução do capital. É como a lei da gravidade", ressalva Viriato Soromenho Marques. O ambientalista é perentório em dizer que "quem espera que o mercado e as empresas funcionem de forma altruísta sabe muito pouco de economia e sabe muito pouco de História".

O Governo português, que tem consecutivamente afirmado o seu papel dianteiro na luta contra as alterações climáticas , seja por fixar a próxima década como a decisiva para resolver a emergência, seja por estabelecer para 2050 o limite para a neutralidade carbónica, também não escapa às críticas. "Se compararmos com o que o Governo Federal norte-americano tem feito, obviamente o Governo português não fica mal na fotografia."

Ainda assim, de acordo com o ambientalista, "se analisarmos as medidas que foram tomadas e que estão em processo, como o novo aeroporto do Montijo, como as dragagens que estão prometidas para o Sado, a forma como a exploração do lítio está a ser planeada em Trás-os-Montes, vemos que isto vai em contracorrente com aquilo que deveria ser uma política coerente e de proteção das condições biofísicas do nosso futuro".

Ciclo da pobreza e alterações climáticas

Também ouvido no Fórum da TSF, o antigo ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, considera que o mundo está hoje mais sensibilizado para a realidade das alterações climáticas, mas acredita ser ainda ineficiente o ritmo com que se está a tentar travá-las. "É necessário acelerar, é necessário reduzir drasticamente as emissões", refere o diretor-geral do desenvolvimento e cooperação da OCDE, que também aponta os objetivos falhados quanto à fixação dos limites do aquecimento global.

"Os relatórios que as Nações Unidas apresentaram na semana passada comprovam que entre aquilo que se prometeu realizar em Paris - que era limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius - e aquilo que se vai conseguir fazer com o Acordo de Paris, há uma diferença substancial. Se somarmos os compromissos que todos os países apresentaram em Paris, as emissões serão limitadas de uma forma em que a temperatura ainda aumentará em três graus."

Jorge Moreira da Silva admite que "estamos longe daquilo que é necessário realizar", e que o ciclo da pobreza ajuda a acentuar as dificuldades do combate à emergência climática. "Hoje há uma enorme injustiça à escala global. A OCDE vem demonstrar que infelizmente há um nexo de causalidade entre pobreza e consequências das alterações climáticas", explica.

O ex-ministro defende, por isso, que os os países do Norte, mais ricos, devem apoiar os Estados com dificuldades acrescidas para fazer face aos efeitos da mudança do clima. Como "85% dos povos do mundo se concentram hoje nos 20 países onde se esperam os maiores impactos das alterações climáticas", é possível que, nos próximos dez anos, haja "cem milhões de novos povos em situação de pobreza extrema à escala global, em consequência das alterações climáticas, e 140 milhões de refugiados".

Jorge Moreira da Silva deixa mesmo um apelo: "Os países do Norte, os países mais ricos, e Portugal está incluído nesse grupo, têm de fazer a sua parte. Reduzir drasticamente as emissões, mas também apoiar, com ajuda ao desenvolvimento, estes países mais pobres."

* com Manuel Acácio

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados