Macron janta com príncipe saudita debaixo de protestos dos defensores de direitos humanos

Mohammed bin Salman está a realizar a primeira visita à Europa desde o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, recebeu esta quinta-feira o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, convidado para um jantar de trabalho no Palácio do Eliseu, apesar da polémica sobre Jamal Khashoggi e os protestos de defensores dos direitos humanos.

Macron saudou calorosamente o seu anfitrião, vestido com trajes tradicionais sauditas, que se encontra a realizar a sua primeira visita à Europa desde o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi no consulado da Arábia Saudita na Turquia, há menos de quatro anos.

Os serviços de inteligência norte-americanos apontaram a responsabilidade do príncipe herdeiro, que nega ter ordenado o assassinato, mesmo admitindo ser responsável por este, enquanto líder.

O encontro marca mais um passo para a "melhoria da imagem" do líder de facto do reino da Arábia Saudita, que há menos de duas semanas recebeu a visita do Presidente norte-americano, Joe Biden.

O regresso ao cenário internacional do príncipe herdeiro saudita, conhecido como MBS, surge num contexto de guerra na Ucrânia e subida dos preços da energia.

Em resposta aos protestos dos defensores dos direitos humanos contra a presença do príncipe em Paris, a presidência francesa referiu esta quinta-feira à noite que Macron abordaria a "questão dos direitos humanos como sempre faz com Mohammed bin Salman".

"[Macron] Abordará [essa questão] de forma geral, mas aproveitará a oportunidade para falar sobre casos individuais", referiu o Palácio do Eliseu.

O gabinete do chefe de Estado francês realçou ainda que o jantar é necessário tendo em vista a subida dos preços da energia, a crise alimentar no Médio Oriente e as preocupações associadas ao programa nuclear iraniano.

"Se queremos por um lado enfrentar as consequências destas crises e ter peso na região para benefício de todos, a única forma é falar com todos os protagonistas", sublinhou a presidência francesa.

Na quinta-feira, duas organizações não-governamentais (ONG) apresentaram à justiça francesa uma denúncia por "cumplicidade de tortura" e por "desaparecimento forçado" ligada ao assassínio do jornalista Jamal Khashoggi contra Mohamed bin Salman.

Segundo a organização Democracia Já para o Mundo Árabe (DAWN, na sigla inglesa) e a associação Julgamento Internacional (TI, também no acrónimo inglês), a queixa, de 42 páginas, sustenta que bin Salman é "cúmplice da tortura e do desaparecimento forçado" do jornalista saudita encontrado morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul a 02 de outubro de 2018.

"A visita de Salman a França e de Joe Biden à Arábia Saudita não muda o facto de que [o príncipe herdeiro saudita] não passa de um assassino", lamentou à agência France-Presse (AFP) a secretária-geral da Amnistia Internacional (AI), Agnès Callamard, que liderou uma investigação sobre o assassínio, por agentes sauditas, de Khashoggi quando foi relatora especial da ONU sobre execuções extrajudiciais.

Além das críticas das organizações de defesa dos direitos humanos, a então noiva de Khashoggi, Hatice Cengiz, disse-se "escandalizada" por Macron receber Salman para jantar.

"Estou escandalizada e indignada por Emmanuel Macron receber com todas as honras o carrasco do meu noivo", afirmou Cengiz numa mensagem escrita em francês e endereçada à AFP.

Colunista do Washington Post e crítico do poder saudita, o jornalista foi morto e esquartejado em outubro de 2018 nas dependências do consulado saudita em Istambul quando lá se deslocou para obter os documentos necessários para se casar.

Várias figuras políticas de esquerda em França também criticaram esta visita.

"Não é no Palácio do Eliseu mas numa esquadra da polícia que MBS deve ser acolhido em França", atirou o deputado ecologista Aurélien Taché, considerando que esta visita envergonhou Emmanuel Macron.

Diante as reações condenatórias, a primeira-ministra Elisabeth Borne indicou que esta não serve para "desafiar o compromisso" de França com os direitos humanos".

"Acho que os franceses não entenderiam, num contexto em que sabemos que a Rússia está a cortar e a ameaçar cortar o fornecimento de gás (...)que não discutíssemos com os países que são precisamente produtores de energia", defendeu.

Na terça-feira, o príncipe herdeiro saudita visitou Atenas para reforçar a cooperação bilateral na que foi a primeira visita oficial a um país da União Europeia (UE) desde o assassínio de Khashoggi.

No dia seguinte, quarta-feira, os dois países assinaram acordos sobre transportes marítimos, energia, tecnologia de defesa, gestão de detritos e cultura.

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