Massacre na Síria. Uma década depois de Daraya, ainda há pessoas desaparecidas

Há dez anos, a Síria vivia o segundo ano dos protestos contra o regime de Bashar Al Assad. Uma investigação, hoje publicada, revela informações sobre um dos mais sangrentos massacres de todo o conflito.

Entre os dias 24 e 26 de agosto, pelo menos 700 civis foram executados de forma sumária em Daraya, uma cidade a situada a sudoeste de Damasco. Dez anos depois o Consórcio Sírio Britânico, criado para ajudar a estabelecer uma Síria livre e democrática, dá a conhecer resultados de uma investigação que durou dois anos.

O consórcio entrevistou 25 pessoas, a maioria testemunhas, mas também vitimas que sobreviveram ao massacre. Atualmente têm entre 29 e 75 anos. Dois outros entrevistados não estavam em Daraya, mas são responsáveis por terem documentado as informações que recebiam vindas da cidade.

Dos mais de 700 mortos só 514 foram identificados, entre eles há 36 mulheres e 63 crianças.

LEIA AQUI O RELATÓRIO SOBRE OS RESULTADOS DA INVESTIGAÇÃO

A operação militar em Daraya, desencadeada pelas forças armadas sírias, apoiadas pela Guarda republicana, pelo Hezbollah e por milícias iranianas começou com um cerco total à cidade e 5 dias de bombardeamentos indiscriminados que atingiram escolas, hospitais e edifícios residenciais. A força aérea usou a tática do duplo bombardeamento, ou seja, atacando um local e voltando a bombardear quando as equipas de emergência tentam tratar os feridos.

No dia 24 os ataques pararam, os militares entraram na cidade e foram porta a porta reunindo homens, mulheres e crianças. Saquearam as habitações e executaram centenas de pessoas, detiveram um número indeterminado de civis e uma década depois há muitos que nunca mais foram vistos. As testemunhas dizem que quando os bombardeamentos terminaram as pessoas tentaram fugir da cidade, mas famílias inteiras foram mortas a tiro pelos soldados colocados em postos de controlo.

Uma testemunha que falou com o sobrevivente Sami Murad, contou que "estava na fila, ouvia tiros ao longe, mas não sabia o que estava a acontecer. Depois vi o Sami Murad e outro homem a caminharem na minha direção e estavam cheios de sangue. Ele disse-me que estava a tentar fugir da cidade quando os soldados no posto de controlo lhe pediram para estacionar o carro ao pé de um beco. Enquanto lá estavam ouvia os militares a falarem com as pessoas e a levarem-nas para esse beco. Pensou que as estavam a revistar, mas elas não voltavam a aparecer. Começou a ouvir disparos e gritos e percebeu o que estava a acontecer. Foi quando se aproximou e viu corpos no chão que fugiu".

Só neste ponto, um cruzamento na estrada que dá acesso à capital, Damasco, foram executadas pelo menos 55 pessoas. No dia 25, as forças governamentais assassinaram cerca de 80 civis num prédio. Os homens foram levados para a cave do edifício e executados depois de um graduado ter repreendido os soldados por não estar a ouvir tiros. As mulheres e crianças foram mortas nos apartamentos.

Na noite de dia 25, os corpos de centenas de pessoas começaram a ser recolhidos e levados para a Mesquita de e Abu Suleiman Al-Darani. Cerca de 300 homens, mulheres e crianças, mortas naquela zona, foram enterrados numa vala comum. Uma testemunha repete as palavras que ouviu de madrugada e que diz que não esquecerá "esta vala está cheia, temos de escavar outra".

Com base nas entrevistas e na documentação existente, o consórcio diz que há motivos razoáveis para acreditar que o governo sírio e os aliados praticaram vários crimes contra a humanidade e crimes de guerra incluindo homicídio, desaparecimento forçado, tortura, pilhagem e ataques contra civis.

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