Médicos franceses acusam Governo de "mentiras de Estado" e vão fazer queixa à Justiça

O Presidente da Comissão de Saúde da região de Paris, Ludovic Toro, faz parte do coletivo de médicos franceses que acusa o Governo de mentir. Em entrevista à TSF explica porquê.

O coletivo C19, composto por 600 médicos, apresentou uma queixa contra o primeiro-ministro francês e a antiga ministra da Saúde por "mentiras de Estado". Os três médicos fundadores do coletivo - Philippe Naccache, Emmanuel Sarrazin et Ludovic Toro apresentaram a queixa junto do Tribunal de Justiça da República, a única jurisdição habilitada para julgar atos cometidos por membros do governo em exercício das suas funções.

Os autores da denúncia acusam Édouard Philippe e Agnès Buzyn, médica de profissão, de se terem abstido "voluntariamente de tomar ou implementar medidas que permitissem (...) combater um sinistro natural, o que criou um perigo para a segurança das pessoas", nomeadamente à propagação da epidemia de Covid-19, punida com dois anos de prisão e uma multa de 30 000 euros. A partir de dia 13 de Março, o governo francês tomou medidas, entre elas o confinamento generalizado da população.

Por que motivo apresentou uma queixa contra o primeiro-ministro, Edouard Philippe, e a antiga ministra da Saúde, Agnès Buzyn?

Porquê? Porque se trata de uma iniciativa de médicos que estão no terreno e que se apercebem que desde o início desta crise nada mudou e que sobretudo muitas promessas foram feitas, sem resultado no terreno. Anunciaram durante todas as semanas a chegada de máscaras e não nos chegou nada. Pensámos testar as pessoas, o que não foi feito em laboratório, portanto tínhamos a escolha entre esperar pelo fim desta pandemia para nos exprimirmos ou fazê-lo agora. Tomámos a decisão de o fazer agora porque esta situação vai durar dois meses, portanto as coisas têm de acelerar. As coisas têm de acelerar porque demorámos quinze dias, e sinceramente, bem mais do que isso... Temos dois meses de atraso. Medidas foram tomadas em todos os países: na China, em Itália, na Coreia do Sul. Essas medidas baseavam-se em três coisas: a quarentena, o teste rápido de todas as pessoas e a utilização de máscaras. Falhámos a fase de testes e as máscaras.

A França ainda vai a tempo de responder com essas medidas e fazer mais testes, distribuir mais máscaras?

Estamos na fase 3 da pandemia, momento que precede a descida dos números. Era preciso agir durante a fase 2, não agora. Entendemos na fase 3 que o vírus se instalou no território; na fase 2 deveríamos ter tomado todas as precauções no que diz respeito aos testes e máscaras para evitar a rapidez da propagação, porque o objetivo nisto tudo não é parar o vírus, porque não poderemos pará-lo e de qualquer das formas esta pandemia parará quando aproximadamente 70% da população estiver infetada.

Neste momento é possível travar a propagação?

Não. Dou-vos um exemplo muito concreto: estou no meu gabinete médico enquanto estou a falar consigo, há pessoas a tossir, que têm febre, vão sair do meu gabinete e não têm acesso a uma máscara. Mesmo se lhes prescreva uma máscara, não a encontrarão em farmácia e nós estamos em fase 3, e não no primeiro dia da fase 3. Isto é inadmissível. Enquanto médico recebi máscaras muito tarde, consultei durante dez dias pessoas que tossiam. Gostaria de poder saber se sou portador para não o transmitir a outras pessoas.

Mas quando o diretor-geral de Saúde francês, Jérôme Salomon, afirma que apenas os médicos precisam de usar máscara, isso é mentira?

Penso que todos os cidadãos têm a resposta: é mentira. Como imaginar um discurso como este da parte do Diretor-Geral da Saúde, que ousa dizer que as máscaras não servem para nada e que todos temos acesso a máscaras. Que ele desça da sua direção, que vá para a rua, que vá ver os médicos, os enfermeiros - tanto liberais como hospitalares - e verá então a realidade. É inadmissível que ele tenha dito que as máscaras não servem para nada: quer dizer que os chineses se enganaram, que os italianos se enganaram, que os coreanos se enganaram. Seríamos o único país no mundo no qual as máscaras não servem para nada. A medicina não muda de um país para o outro, o vírus é o mesmo em todos os países, razão pela qual devemos aplicar as mesmas medidas, porque o nosso objetivo comum é de salvar pessoas.

Até ao momento cinco médicos perderam a vida e é preciso que o Estado garanta mais proteção aos profissionais de saúde?

De qualquer das formas, como em todas as crises sanitárias, sobretudo no que diz respeito a vírus, os primeiros a cair são os que estiveram em contacto com os pacientes: o pessoal de saúde, os médicos e enfermeiros. Falamos somente dos médicos que morreram, mas devemos também falar dos quadros de saúde, dos enfermeiros que morreram, das pessoas que estiveram na linha da frente deste o início. (Dou-vos um exemplo: sou também presidente da câmara de um município e temos pessoas da administração que vão entregar refeições aos idosos, e não temos máscaras a dar a essas pessoas... Em quinze dias, a China construiu dois hospitais, o que é impossível em França... mas não poderíamos desde Janeiro ter investido em empresas que fazem máscaras e gel álcool? Uma máscara não custa nada, é papel e elástico. Isto chama-se medicina de prevenção, prevenir o que virá quando ainda para mais estamos informados da situação. Não prevenimos, não agimos e hoje lutamos para ultrapassar estes erros. No entanto esta epidemia avança tão rápido... O número de casos que temos é exatamente o mesmo que em Itália, durante a expansão. Reagimos realmente demasiado tarde e de maneira insuficiente.)

Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica em Marselha deu início, esta segunda-feira, a um ensaio clínico para lutar contra a Covid-19. Vivemos uma urgência iminente para encontrar uma resolução?

Sim, há urgência. Temos uma pessoa que nos diz que hidroxi e cloroquina podem funcionar. O problema de um ensaio clínico, é que leva tempo para ser validado pelas autoridades e penso que não temos tempo. Alguns países já passaram por cima das suas autoridades médicas e das autorizações necessárias, metem-no no mercado e distribuem-no. Hoje não há muitos tratamentos para pessoas que foram atingidas pelo Covid-19, a não ser a reanimação. Penso que este medicamento que conhecemos bem o anti-paludismo, o antibiótico também... Dizem-nos que há efeitos secundários, mas entre efeitos secundários ou uma morte programada, prefiro os efeitos secundários, sobretudo quando os conhecemos. Penso que devemos acelerar, não devemos esperar três ou seis semanas para chegar a conclusões porque haverá demasiadas mortes e alguns países já passaram por cima dessa autorização necessária pelas autoridades medicais.

Que recomendações deixa às pessoas, além de ficar em casa?

Sobretudo, não sair. Não é para não ser contaminado, porque o que quer que aconteça, enquanto alguns de nós não estivermos contaminados, o vírus não parará. Mas é preciso fazê-lo progressivamente. Estamos longe do início da contaminação, portanto agora ninguém deve de sair de casa. O problema de um vírus, é que não o vemos, não o sentimos. Este é particular, porque é muito, muito contagioso. Vai ser muito complicado, porque dois meses - porque dizem-nos duas semanas, mas serão dois meses, vimo-lo na China - fechados num alojamento familiar, não é fácil. Espero que possamos aguentar dois meses. As pessoas devem perceber que há uma necessidade vital por detrás deste confinamento e que é necessário proteger-se e proteger os outros, para juntos ganharmos esta batalha contra o vírus. E sobretudo, que sirva de lição: seremos confrontados a outras epidemias, vemo-lo no decorrer dos anos. Espero que esta derrota, repito, derrota, no que diz respeito à gestão desta crise sanitária nos ensine a gerir melhor as que virão depois. É a primeira lição a receber e sem dúvida a mais importante.

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