Mia Couto, o escritor que quer falar com o vírus numa história para o New York Times

Em entrevista à TSF, o autor moçambicano conta como tem vivido os tempos da pandemia e levanta o véu sobre a história com que brinda os leitores do New York Times.

O conto que Mia Couto leva até às páginas da revista do New York Times "baseia-se num equívoco". O escritor moçambicano, um dos 29 escolhidos em todo o mundo para escrever um conto inspirado nestes dias de pandemia para a publicação norte-americana, logo desvela de que engano se trata: é "uma história sobre estes tempos de solidão, é uma história sobre uma pessoa velha, isolada que recebe uma visita - coisa que não acontecia há muito tempo -, e percebe-se ao longo da história que ele toma esta pessoa como um assaltante, como um ladrão".

O autor prossegue na revelação da narrativa: "A pistola que ele traz serve para tirar a temperatura à distância. É um profissional de saúde, está de visita a alguém que vive num lugar remoto, e que toma com uma grande ternura a visita de um assaltante que afinal é tão gentil que quer saber dele."

Além do ofício da escrita, o moçambicano é biólogo e integra o grupo de apoio ao Governo do seu país para a mitigação do impacto da pandemia. À TSF, reconhece que viver este período em território moçambicano implica enfrentar tempos surpreendentes. "Moçambique é um país com muitos países dentro, com situações muito contrastantes. As reações das pessoas a algo que todos nós recebemos com surpresa, com uma mistura de medo e de insegurança, são por vezes muito curiosas."

Aprender a falar com o vírus para abandonar uma visão "muito centrada" no humano

Trabalhar no auxílio à comunidade significa comunicar com pessoas "que não falam português", pelo que a mensagem "tem de ser traduzida para as línguas locais". O exercício tropeça num empecilho linguístico: "Como se diz 'vírus' nas línguas locais? Como explicar que eles existem, quando há pessoas que não têm a perceção de que há organismos dessa dimensão invisível? Como se traduz 'assintomático'?" Mas a tradição africana não é atropelada por novos cenários catastrofistas. "Haver criaturas invisíveis não é visto como nada sobrenatural aqui, não é nada de extraordinário", analisa o escritor.

Mia Couto congratula-se, no entanto, com o trabalho que tem sido feito junto da população. "A mensagem foi bem transmitida, e os médicos tradicionais e os curandeiros apresentaram-se no Ministério da Saúde dizendo que queriam colaborar. Não sabiam o que era a doença, mas estavam ali para se subordinar, para se sujeitarem ao que fosse necessário." Foram os que se dedicam aos cuidados de medicina alternativa a transmitir uma lição que "parece quase da ordem da poesia", enuncia Mia Couto: "Aprendam a língua desse vírus porque nós precisamos de falar com ele."

"Isto resume de uma forma muito feliz a forma como lidar com o vírus. Temos uma visão militarista da medicina, de que precisamos de atacar e destruir o vírus, mas temos de saber conversar com o vírus porque o vírus também está muito assustado, como eles dizem." Afinal, não é apenas o ser humano que está entregue aos bichos, indefeso perante uma ameaça desconhecida. O também biólogo Mia Couto garante: "Este bicho não é mau. É evidente que não se pode classificar os vírus dessa maneira. Tem a vida dele..." Ri, mas lembra, como um alerta, que "nós desconhecemos profundamente os vírus, porque, mesmo ao nível da ciência, temos uma visão muito centrada na nossa escala humana".

"Vírus e bactérias são os maestros do mundo"

Para Mia Couto, o escritor e biólogo que compreende a complexidade e as camadas do organismo humano, "nós somos muito mais outros do que humanos", até porque "pensamos que as grandes operações da vida, que os grandes mecanismos se passam nessa escala, mas os vírus e as bactérias são os donos e maestros que comandam os processos mais essenciais da vida".

"Nós somos feitos de vírus e bactérias", atira o autor, que lembra a dimensão insignificante do ser humano no tubo de ensaio do mundo natural. No entanto, Mia Couto não acredita que o novo coronavírus venha ensinar ao homem uma nova ordem de valores. "Existe uma posição um pouco ingénua de que o mundo pós-Covid será completamente diferente e de que teremos virado uma página, mas eu não sou adepto dessa visão tão simplista. O mundo não irá mudar tanto."

Bolsonaro e Trump "deveriam ser julgados por crimes contra a Humanidade"

O mundo não mudará tanto, a julgar pelos poderes que o governam. Bolsonaro e Trump já não lhe inspiram compromisso de pudor nas palavras. Mia Couto acredita que os estadistas "deveriam ser julgados por crimes contra o próprio país e contra a Humanidade", embora se sinta forçado a admitir que "o problema não são eles, mas quem permite que essa capacidade de manipulação vingue no mundo".

A viver a quarentena na sua casa no território moçambicano, ainda não lhe ocorreu batizar este novo vírus, porque "não é o nome que interessa, temos de aprender a pensar de outra maneira a nossa própria identidade, as relações com o mundo". Repensar as relações com os seres invisíveis e com os que nos ladeiam é a palavra de ordem, frisa. "As instituições não estão muito preparadas para situações como esta, e virão mais..."

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