Milhares de vidas salvas. O balanço de um ano de vacinação na Europa que não afastou receios nem polémicas

A poucos dias do final de um "ano de vacinas", a doença Covid-19 soma mais de 5,36 milhões de mortes em todo o mundo e 275 milhões de infetados, mas milhares de vidas foram salvas e a economia foi retomada.

A Europa iniciou a vacinação anti-Covid-19 a 27 de dezembro de 2020 com a esperança de atingir uma normalidade pós-pandémica, porém, um ano depois, ainda persistem alguns receios e um intenso debate sobre direitos, liberdades e, ultimamente, sobre obrigatoriedade.

Doze meses depois, a campanha de vacinação dentro do espaço da União Europeia (UE) terá salvado a vida de milhares de pessoas, permitiu ter um verão sem confinamentos nem restrições apertadas e deu um novo vigor às economias.

Mas, nestes 365 dias, também houve vários contratempos e desafios, alguns dos quais se mantêm: o medo dos efeitos secundários, os problemas de falta de produção e de distribuição, a descoberta de novas estirpes mais contagiosas, a renovação das restrições, as divisões entre pessoas pró-vacinas e antivacinas e a necessidade de doses de reforço face ao surgimento de novas variantes do coronavírus que provoca a doença Covid-19.

Nos últimos meses, a campanha de vacinação anti-Covid 19 na Europa teve de enfrentar outros dois "pontos quentes" de discussão: a obrigatoriedade e a imunização das faixas etárias mais novas.

Na reta final de 2021, e face aos sobressaltos do surgimento de novas variantes do coronavírus (a mais recente designada como Ómicron), ao regresso de novos períodos de confinamento e de restrições mais apertadas e à resistência de certas populações à vacinação, a obrigatoriedade da vacina tornou-se uma questão e a ONU defendeu, a 19 de novembro, que essa imposição só podia ser adotada perante "motivos legítimos de saúde" e sob certos requisitos.

No início de dezembro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, admitia a necessidade de um debate sobre a vacinação obrigatória dentro da UE.

Vários meses antes, em março, a mesma Comissão Europeia admitia que os cidadãos dos 27 Estados-membros do bloco estariam todos vacinados até ao final do verão.

A Áustria antecipou-se e tornou-se o primeiro país na Europa a anunciar (em novembro) que ia decretar a obrigatoriedade da vacina para a Covid-19 a partir de fevereiro de 2022, apesar dos protestos de milhares de pessoas.

Na Grécia, a vacina já é obrigatória para pessoas com mais de 60 anos, enquanto na Alemanha o novo Governo liderado pelo social-democrata Olaf Scholz conseguiu aprovar, a 10 de dezembro, uma lei que obriga os profissionais de saúde a vacinarem-se contra a Covid-19, à semelhança do que acontece em outros países do espaço comunitário como França ou Itália.

Este poderá ter sido o primeiro passo antes do alargamento da vacinação obrigatória à restante população alemã, espectável para o início de 2022.

O Ministério da Saúde do Luxemburgo também já admitiu que está a estudar a possibilidade de obrigar a vacinar toda a população.

A obrigatoriedade da vacinação, ou a sua possibilidade, já levou milhares de pessoas a manifestarem-se nas ruas em protestos às vezes violentos, como em Itália, onde multidões criticaram também a entrada em vigor da obrigação de apresentar o certificado digital de vacinação para aceder aos locais de trabalho.

Em vários países europeus, incluindo em Portugal, o certificado digital Covid-19 é utilizado para entrar em determinados locais, como restaurantes, salas de espetáculos ou locais de diversão noturna.

Aprovada a 21 de dezembro pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e pela Comissão Europeia, a vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNTech - a primeira a ter "luz verde" na Europa - começou a ser distribuída ao mesmo tempo pelos Estados-membros da UE a partir do dia 27 de dezembro de 2020, embora nem todos tenham começado a administrá-la no mesmo dia.

O novo ano foi então olhado com muito otimismo, à medida que as campanhas de vacinação avançavam, mas, poucos dias depois de 2021 ter começado, vários países europeus decidiram prolongar os confinamentos: a Europa atingia na altura os 30 milhões de infetados e a distribuição de vacinas começou a sofrer problemas e a atrasar-se.

A entrada no mês de fevereiro deu como garantida a existência de uma terceira vaga de Covid-19, com a Espanha e a Itália a disputarem os números mais alarmantes.

No mês seguinte, surgem preocupações com os efeitos secundários das vacinas.

A Áustria anunciou a suspensão da utilização da vacina da AstraZeneca quando foi conhecida a morte de uma enfermeira, com sérios problemas de coagulação, após ter recebido o fármaco e, em poucos dias, a decisão foi imitada por dezenas de países.

Por outro lado, as viagens de e para os países onde novas variantes eram detetadas passaram a ser proibidas e os incentivos à vacinação foram reforçados.

A discussão da altura passou a ser a adoção de certificados de vacinação com o intuito de facilitar as viagens de pessoas imunizadas contra a Covid-19.

Os maiores defensores deste "passaporte de vacinação" foram os países onde o turismo tem maior peso, como Grécia, Espanha e Portugal, mas foram os países nórdicos, como a Islândia, a Suécia e a Dinamarca, que primeiro anunciaram a criação destes documentos também para ter acesso a eventos desportivos ou culturais.

Já a França e a Alemanha mostraram-se muito reticentes, porque grande parte das suas populações não estava vacinada.

O certificado digital da UE, comprovativo da vacinação ou recuperação da infeção pelo vírus SARS-CoV-2, entrou em vigor na União no início de julho.

Os movimentos antivacinas já constituíam uma preocupação para as autoridades sanitárias, mas foi nesta altura que as manifestações - em protesto contra os certificados de vacinação, vistos como forma de discriminar pessoas - se tornaram violentas.

Antes do verão, o dossiê das vacinas já tinha enfrentado outro problema: a necessidade de aumentar a produção para alcançar a vacinação global.

Esta situação levou a Comissão Europeia a afirmar em maio que estava disponível para "avaliar" a suspensão de patentes das vacinas contra a Covid-19, uma proposta dos Estados Unidos que não foi bem-sucedida.

Em novembro passado, a EMA aprovou a extensão do uso da vacina pediátrica da Pfizer/BioNTech (Comirnaty) para crianças com idades entre os cinco e os 11 anos, considerando essa opção segura e eficaz.

Outro assunto que desencadeou um intenso esgrimir de argumentos entre os mais diversos setores da sociedade europeia.

Vários países da UE, como Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Hungria, arrancaram já em meados de dezembro com a campanha de vacinação das crianças desta faixa etária.

Outros, como foi o caso da França, começaram a vacinar apenas as crianças que apresentavam comorbidades, mas depois decidiram generalizar o processo de vacinação voluntária a todas.

A poucos dias do final de um "ano de vacinas", a doença Covid-19 soma mais de 5,36 milhões de mortes em todo o mundo e 275 milhões de infetados.

No passado dia 20 de dezembro, a EMA aprovou a comercialização de emergência da vacina contra a Covid-19 da Novavax, para utilização em adultos.

Esta é a quinta vacina com autorização de emergência na UE, juntando-se às da Pfizer/BioNTech, da Moderna, da Janssen e da AstraZeneca, que fazem parte do plano de vacinação português que também arrancou a 27 de dezembro de 2020.

Dados comunitários divulgados este mês apontam que mais de 82% da população adulta do bloco recebeu pelo menos uma dose da vacina anti-Covid-19 e mais de 13% já recebeu uma dose de reforço.
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