Robert Swan Lawrence
entrevista com Robert Swan Lawrence

"Muitos passos mal dados." Após a pandemia, levaremos muito tempo "a reconquistar a confiança na política"

Robert Swan Lawrence, professor de Saúde Pública e Ambiental do hospital universitário de John Hopkins, lembra que ainda há muito por saber sobre a Covid-19. Os efeitos a médio e longo prazo são território desconhecido, mas o investigador fala também, nesta entrevista à TSF, de um gradiente social na saúde. O coronavírus foi um altifalante das diferenças sociais, garante.

Trabalhou de perto com a OMS nos anos 1960, para combater a malária. Agora Robert Swan Lawrence não tem dúvidas de que as pessoas têm todos os motivos para manter a fé na ciência. Já a política mundial durante a pandemia inspirou muita descrença.

Robert Swan Lawrence, investigador e antigo membro do Serviço de Inteligência Epidémica nos Estados Unidos, deixa ainda lições a tirar para o futuro: os métodos de produção de carne aumentam os riscos de novos surtos.

O que vem mostrar esta pandemia daquilo que não aprendemos no passado?

O mundo, em geral, parece ter tido uma amnésia coletiva acerca da pandemia devastadora de 1918 e 1919. Em termos de população, até matou muitas mais pessoas do que a Covid-19, até ao momento.

É difícil de compreender... Penso que tenho de remeter para os antropólogos, sociólogos e psicólogos a pergunta do porquê de este fenómeno ser tão abrangente. Porque isto não acontece apenas nos Estados Unidos, mas também no resto do mundo, penso eu. As pessoas, de alguma forma, não marcaram na sua memória a última pandemia, talvez porque foi na viragem da devastação da I Guerra Mundial, que causou muito sofrimento e muitas mortes. Esse é um aspeto.

O segundo aspeto é que, pelo menos nos Estados Unidos, tínhamos tido uma experiência de passar pelo H1N1. Tínhamos passado pela ameaça do primeiro SARS, que teve impacto nos nossos vizinhos a Norte, especialmente em Toronto, no Canadá.

No entanto, apesar de a administração Obama ter desenvolvido um guião para antecipar e preparar a resposta a uma nova epidemia ou pandemia, a administração Trump ignorou-o completamente e nunca implementou quaisquer recomendações. A diferença em quão seriamente sofremos em comparação com a Europa e outras partes do mundo pode ser atribuída, em larga escala, ao fracasso do Governo federal em seguir e realizar a preparação necessária.

Havia já quem soubesse, alguns epidemiologistas e biólogos previram a pandemia, mas o mundo pareceu ainda assim surpreso...

Toda a gente foi apanhada desprevenida pela natureza única deste vírus, que parece ter tido uma grande transmissão entre pessoas que não estavam a enfrentar muitos sintomas. Eu trabalhei no Serviço de Inteligência Epidémica no final dos anos 1960, e a maior parte dos problemas de natureza infecciosa com que lidávamos apresentava uma transmissão entre sintomáticos, ou os sintomas e a doença estavam ligados no tempo de uma forma que, com o rastreamento de contactos, conseguíamos chegar à fonte.

Aqui chegámos, sem preparação adequada para o rastreamento de contactos, sem preparação adequada para compreender a verdadeira dinâmica do vírus, devido às suas características tão únicas. E também tínhamos reservas muito baixas e planos para distribuição de equipamento de proteção pessoal apenas para os trabalhadores da linha da frente. Havia muito poucos recursos: 95 máscaras, por exemplo, nos primeiros dias da pandemia nos Estados Unidos. Os responsáveis de saúde pública aconselhavam mesmo que a população em geral não usasse máscara, porque queriam poupá-las para o pessoal da linha da frente.

Isso criou muita confusão em torno de mensagens ambíguas, porque, quando se tornou claro que medidas simples de saúde pública, como o distanciamento social e o uso de máscara, seriam uma grande ajuda, já tínhamos dado aos movimentos anticiência informação para usarem, contra essas medidas.

A explicação para o quão assoberbados todos ficámos... Eu estava numa reunião na Suíça, no início de março, quando as primeiras notícias do quão grave era a situação no Norte de Itália surgiram. As pessoas, a apenas 80 km dali, encolhiam os ombros e diziam 'bem, mas não vai acontecer aqui', com uma enorme dose de negação.

Demorou um bocado para que todos nós aceitássemos o quão séria era esta batalha.

Ao longo dos anos, desde os primeiros avisos que evidenciavam que as pandemias se poderiam tornar mais e mais frequentes, não nos desviámos dessa rota em termos ambientais. Fizemos alguma coisa para o evitar?

Não, não fizemos. Quanto à nossa relação com infeções que saltam de umas espécies para as outras, nós tivemos vários exemplos: desde o MERS, síndrome respiratório descoberto no Médio Oriente, até ao ébola, ao VIH, e ao primeiro SARS. Por isso, sim, é verdade.

Mas, quando o coronavírus chegou à Europa e à América do Norte, o problema já não era a origem de um vírus que saltou de uma outra espécie para a espécie humana, se saltou através do morcego ou de outro intermediário.

A compreensão global da saúde pública não se focou em ter-se esquecido o quão importante era a devastação dos habitats naturais para a propagação de vírus potencialmente perigosos a partir de outras espécies. Sabemos há anos, claro... Mas este cocktail de vírus influenza dos animais e do vírus da gripe nos humanos, do fluxo migratório das aves por todo o mundo, trazendo novas variantes genéticas de doenças aviárias, tem sido um foco recente entre os virologistas, dos últimos 15 ou 20 anos.

Este fenómeno global de como temos eliminado habitats naturais, de como nós, humanos, temos estado em contacto mais estreito com animais, e o consumo de carne, em regiões de alguns países em desenvolvimento, onde os seres humanos são expostos diretamente a doenças associadas a esses animais... É uma longa lista de fatores que complicam este risco. E não falámos do papel da indústria de produção de carne e das grandes quintas de criação de animais, onde estes estão concentrados para serem alimentados. Em grandes quintas, chega a haver cem mil aves em espaços confinados, e podem transmitir novas variantes do vírus aviário da influenza.

Muito frequentemente têm taxas de mortalidade muito elevadas. Os números são mais pequenos porque alguns bandos são logo abatidos, para tentar prevenir a propagação dos vírus. Mas não deixa de ser uma exposição constante a que os seres humanos se sujeitam.

Temos de mudar essas práticas de criação animal. A criação de porcos também adota os mesmos mecanismos: muitos animais juntos e confinados, em condições sanitárias muito más, o uso desadequado de antibióticos para promover o crescimento e para tentar travar qualquer perigo.

Ainda há uma grande quantidade de antibióticos que são de grande importância na farmacologia para os seres humanos e que são utilizados na criação animal um pouco por todo o mundo. Isso também ajuda a criar bactérias resistentes aos antibióticos, outro fator em tendência crescente que ameaça a saúde humana. Não ao nível de uma pandemia, mas certamente num nível muito significativo. Temos alguns milhares de casos de infeções por resistência a antibióticos todos os anos nos Estados Unidos. Há milhares e milhares de mortes, e, olhando para a origem, conseguimos perceber que se deveram ao uso inapropriado de antibióticos na criação animal.

No caso desta pandemia, esperava a falta de conclusões definitivas do relatório da OMS sobre a origem do coronavírus?

Parece-me que há suficientes teorias plausíveis para a aquisição do vírus através de mercados com animais.

Não acredito que o Governo chinês tenha sido muito acessível ou transparente nos primeiros tempos. Sabemos que o corajoso médico chinês que tentou denunciar que a situação era muito grave acabou por morrer da própria doença. Ele estava a ser silenciado pelo Governo chinês. Por isso, é difícil saber quanta confiança devemos depositar nas explicações da China, quando a OMS foi tentar investigar.

É lamentável, mas não houve uma declaração mais definitiva.

Ainda está a ser infligido, infelizmente, nos Estados Unidos, o mesmo racismo que caracterizava o Presidente Trump. Nomes como "o vírus chinês" estão agora a ter consequências. Alguns dos nossos cidadãos com ascendência asiática têm sido vítimas de injustiça racista. Quando o vírus apareceu, tudo estava envolto numa "nuvem", e continua assim, com algumas pessoas a explorarem essa incerteza de uma forma que não é benéfica.

Mas vê os mercados vivos como a explicação mais crível?

Certamente parece consistente com aquilo que temos vindo a aprender sobre surtos anteriores parecidos. Por isso é que digo que há neste momento um consenso científico significativo de que, nalgum momento, talvez há 50 ou 60 anos, alguém na África Subsariana teve contacto com um animal e que um osso perfurou a pele e o VIH foi introduzido no ser humano. Também temos evidências da origem provável do SARS-1 e de como foi transmitido a partir de um animal selvagem na China. Isto é consistente com experiências passadas.

O mundo já viveu mais do que um ano de pandemia. Quais foram os países que mais aprenderam como lidar com o coronavírus?

Diria que temos alguns exemplos de países que aproveitaram a sua geografia, como a Nova Zelândia. Tiveram poucos casos e uma quarentena muito restrita. Quem viajava para a ilha tinha de enfrentar uma quarentena de duas semanas, com uma monitorização apertada. Estas lições que a Nova Zelândia aprendeu são obviamente muito mais difíceis de impor em populações mais vastas, que têm fronteiras contíguas com terra.

A situação em Portugal, em Espanha, em França ou em Itália tornava quase impossível impedir a tempo o movimento entre fronteiras. Mas, nos Estados Unidos, temos uma experiência natural única a decorrer, entre os chamados Estados azuis e os Estados vermelhos: tudo, desde a vontade a políticas boas de saúde pública, tais como o uso de máscara e o distanciamento social, para conter a propagação do vírus, nos Estados azuis; e os Estados vermelhos a ignorarem muitos desses princípios. Tivemos uma taxa muito mais alta nesses Estados, em vários momentos, durante a pandemia.

E agora vemos que também acontece com a vacinação. Temos muito mais aceitação das vacinas pelas pessoas que vivem nos Estados azuis e que são apoiantes do Partido Democrático. E pensamos: como é que podemos fazer um trabalho melhor em manter a política separada das práticas de saúde pública?

É uma boa pergunta. Tem uma resposta para ela?

Não sou um investigador de política, mas parte de mim acredita que as pessoas alinhadas politicamente ao centro e à esquerda tendem a ter mais interesse nas políticas que levam a legislação que melhora o bem-estar de toda a população e, muitas vezes, não incluem nela disposições especiais para pessoas que têm problemas económicos, falta de escolaridade ou outro tipo de necessidade especial. Quando traduzimos isto para uma política de saúde pública que diz 'é muito importante que use máscara, não apenas para proteger a sua própria saúde, mas, talvez ainda mais importante, para proteger a saúde dos outros, porque pode ser um transmissor assintomático', essa mensagem parece cair em ouvidos surdos para as pessoas da extrema-direita, mas é bem recebida pelas pessoas mais à esquerda.

Essa correlação é algo que espero que os especialistas em Ciência Política, Sociologia e Psicologia possam explorar melhor, porque penso que constitui um fator muito significativo de como podemos inspirar mais confiança, ouvindo as evidências científicas, e da diminuição do medo da intrusão do Governo, quando o Governo, na verdade, está a tentar implementar políticas de saúde pública. Isso é o que eu faria se tivesse as credenciais profissionais necessárias para investigar.

Temos estado a aprender sobre este vírus, e, em meses, a perceção que os médicos e os investigadores tinham da doença alterou-se muito. O que é que o surpreende mais no comportamento da Covid-19?

Já mencionei o facto de que parece haver uma transmissão muito elevada do vírus pelas pessoas assintomáticas. Penso que estamos ainda a aprender muito e temos muito mais para aprender sobre as tão faladas consequências a longo prazo que as pessoas que recuperam da infeção aguda apresentam, como cardiopatias e problemas neurológicos e cardiovasculares, complicações pulmonares e renais. Este vírus parece trazer ao de cima as maiores vulnerabilidades do infetado. Parece mais uma extensão do que algo completamente diferente do que acontece com a gripe. Algumas pessoas têm gripe e experienciam febre, dores nas articulações e nos músculos, dores de cabeça durante alguns dias, e depois ficam bem. Outros ficam assim por um período muito mais longo, porque a infeção foi muito mais profunda.

Estamos a aprender sobre a Covid-19, e parece ter interações muito distintas com o sistema imunitário, que dependem da idade da pessoa, de doenças preexistentes... É quase como se o vírus incidisse uma luz que destaca as diferenças de cada infetado. O que temos visto nos Estados Unidos, e acredito que é evidente noutros lugares do mundo, é que os fatores sociais da saúde que tornam certos grupos da sociedade mais vulneráveis à doença em geral. A pobreza, a falta de condições de habitação, as carências alimentares, a falta de escolaridade, e outras... De repente, estes fatores foram amplificados pelo impacto do vírus.

Sempre soubemos, por exemplo, que nos Estados Unidos os latinos, os indígenas, os grupos mais pobres, têm taxas mais elevadas de diabetes do tipo II e de hipertensão, uma saúde com mais complicações, de uma forma geral. Mas o vírus amplificou tanto isso que já ninguém pode negar esses factos.

De alguma forma, este pode ser o lado positivo de toda esta nuvem, porque já se dá muito mais atenção na literatura médica, na investigação em curso e nas políticas que estão a ser adotadas durante a administração Biden, para que sejam tidos em conta os aspetos sociais determinantes para a saúde. Sabemos que esses aspetos determinantes existem há décadas. Há epidemiologistas, como Michael Marot, que nos seus estudos mostram que, por cada camada de pessoas mais ricas, mais determinado está o seu destino e maior será o índice de saúde. Ele chama-lhe o gradiente social na saúde.

O coronavírus levou o gradiente social a um novo nível, amplificou-o e expô-lo de uma forma que penso que será uma das lições mais duradouras que tiraremos da pandemia.

Acredita que as vacinas são o princípio do fim da pandemia?

Acredito. Penso que sim, especialmente agora que há números crescentes de pessoas mais velhas e mais vulneráveis, com complicações sérias, vacinadas, e com a contínua elevada taxa de transmissibilidade, nos Estados Unidos, pelo menos, a verificar-se cada vez mais entre os mais jovens... Por isso, se olharmos para os novos casos, há sete ou oito meses, os contágios ocorriam predominantemente entre pessoas acima dos 65 anos. Agora são, na sua maioria, entre pessoas abaixo dos 45 anos ou dos 50.

Onde eu vivo, no estado de Maine, desde a última semana, toda a gente com idades superiores a 18 anos está elegível para a vacinação. Veremos, provavelmente dentro de um mês ou seis semanas, o impacto que a vacinação a alta velocidade entre pessoas mais jovens terá nestes focos de transmissão.

O desafio maior, claro, é que, com as questões levantadas em relação à vacina da AstraZeneca, que será um dos maiores recursos nos países em desenvolvimento, poderá não ser produzida a quantidade necessária de vacinas para imunizar os países do Sul de África, do Sul e Sudeste da Ásia. E, claro, o Brasil, que é um exemplo terrível de como um líder político falhou completamente no momento de ter a atitude correta. Bolsonaro é, de alguma forma, Trump em esteroides.

O facto de haver países em que a vacinação é claramente mais lenta pode prejudicar o processo global de imunização?

Sim, porque é possível haver sempre oportunidade para que novas variantes apareçam. Uma das coisas que aprendemos com o coronavírus foi o quão rapidamente continua a sofrer mutações. Nos Estados Unidos, a maioria das novas infeções são de novas variantes que apareceram inicialmente na Grã-Bretanha. Se temos um país como o Brasil, rodeado por outros Estados da América Latina, onde há grandes taxas de vacinação, mais adesão ao distanciamento social e às máscaras...

A subpandemia brasileira, se lhe podemos chamar assim, continua a ter grandes números de pessoas infetadas, números grandes que demonstram que o vírus está a circular, e há mais uma probabilidade maior de que os números de novas mutações aumentem. Acredito que isso continua a ser uma ameaça para todos.

E no Brasil, em algumas zonas, vemos muitos dos fenómenos de que falou - má habitação, pobreza e má alimentação -, que agravam as condições de saúde...

Sim, é perigoso.

Precisamos de um acordo ou de um tratado internacional para lidar com futuras pandemias?

Sim, penso que, em primeiro lugar, foi uma grande vergonha para nós, da comunidade científica de Saúde Pública, nos Estados Unidos, quando o Presidente Trump retirou o país da OMS. Fiquei muito agradado por o Presidente Biden querer, numa das suas primeiras ações, voltar a juntar-se. Eu trabalhei com a OMS, fiquei responsável pela epidemiologia da malária na América Central, durante dois anos, no final dos anos 1960. Depois trabalhei na Mark Foundation, que estava muito envolvida com a atividade da OMS para doenças tropicais, programas de investigação e programas de sobreviventes da Unicef. Eu assisti em primeira mão ao poder de termos uma organização que representa todas as nações do mundo, a trabalhar por um bem comum.

Os recursos são críticos. Os Estados Unidos têm de fazer a sua parte para apoiar a OMS, e isso inclui uma preparação contínua para desastres e pôr no papel todos os conceitos que temos utilizado. É preciso ter uma task force dedicada à vigilância, que nos alerte preventivamente para a emergência de uma nova ameaça, que mobilize as equipas de investigação e que mantenha em funcionamento laboratórios de cooperação. Havia uma relação muito boa entre o laboratório de Wuhan e muitos outros laboratórios de virologistas, incluindo vários aqui, nos Estados Unidos. A cooperação nos termos da OMS tem de continuar, e está ameaçada.

Acredita que o fim do uso das máscaras pode estar próximo?

Penso que já temos tido problemas suficientes durante esta pandemia. Tenho receio de que... Temos um princípio, na Saúde Pública, de que normalmente as medidas mais eficazes são aquelas em que conseguimos eliminar o fator humano da equação. E por isto quero dizer que fizemos muitos mais progressos quando reduzimos as mortes por acidentes nas estradas e ferimentos graves através de alterações na produção de airbags e de mudanças no design do próprio carro. Nenhuma quantidade de cursos de segurança rodoviária teria conseguido o mesmo resultado.

Penso que a natureza humana é tal que existe uma grande necessidade de educar e de informar, mas também temos de reconhecer o facto de que somos uma espécie notável com grande capacidade para o pensamento inteligente... e para os maus comportamentos.

Este aumento da pobreza também é uma grande preocupação que temos de ter em atenção em termos de saúde?

Infelizmente, antes desta pandemia, nos últimos dez ou 15 anos, vimos uma das maiores reduções de pobreza a que o mundo já experienciou. Li, nas últimas semanas, novas previsões de pobreza, que afetará mais 50 ou até 100 milhões de pessoas. Estamos a falar de pobreza absoluta, por causa das consequências económicas da pandemia.

Esse é um grande desafio, e penso que será necessária muita cooperação internacional, para que as coisas voltem ao caminho certo.

Há uns anos colocava-se a questão de virem a emergir armas biológicas maciças. Algum país hoje, depois de conhecer a dimensão da transmissão global deste vírus, por exemplo, pode recorrer a essa via?

Em primeiro lugar, há controlos internacionais importantes para o uso de armas biológicas e de armas químicas. Fizemos mais progressos em acordos e ratificações de Estados para protocolar as armas biológicas, e também o temos estado a observar. Penso que precisamos de aumentar as autorizações dos conselhos de segurança para levarmos mais a sério as violações dos protocolos. Mas olhando para trás, para a História desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, e para todos os protocolos desde essa altura, tem havido uma evolução num sentido positivo. Continuamos a ter problemas de execução e de manutenção do envolvimento dos Estados em situações de cooperação.

Lamento dizer, mas a Rússia e a China parecem estar fora daquele que é o alinhamento do resto do mundo, em algumas destas questões. Esse vai ser um desafio enorme para as democracias do Ocidente.

Este tempo de pandemia exigiu uma grande atenção das pessoas ao que os especialistas recomendavam ou explicavam, e muitas vezes essas orientações foram mudando. Teme que haja um cansaço em relação à ciência e uma vontade de a tentar descredibilizar?

Não, não temo. Um dos resultados extraordinários desta pandemia foi o rápido desenvolvimento de vacinas eficazes. Temos dois cientistas alemães, uma equipa de marido e mulher, que são filhos de imigrantes turcos na Alemanha. Eles aliaram-se à Pfizer para produzir a vacina que tem 95% de eficácia. Tudo isto aconteceu em menos de dez meses. E aqui estamos, 30 ou 40 anos depois de a epidemia de VIH ter aparecido, e continuamos em busca de uma vacina para o VIH. Por isso, penso que o sucesso do desenvolvimento de vacinas, que depende de muitos fatores, vai ser, para a maioria das pessoas, sobretudo as que têm sido vacinadas, sem consequências graves e a conseguirem proteger-se da Covid-19... Vai ser uma validação ainda mais firme do quão valiosa pode ser a ciência, quando colocada ao serviço do bem comum.

Onde o ceticismo pode aparecer, julgo eu, e onde levaremos mais tempo a reconquistar a confiança, é na área da liderança política, porque houve muitos mais passos mal dados da parte de vários líderes políticos em todo o mundo do que tem havido por parte da comunidade científica.

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