"Não estamos numa segunda vaga." Espanha regressa aos 900 contágios diários

José Miguel Carrasco, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, defende que os surtos estão a ser controlados.

Há semanas que os contágios diários por Covid-19 em Espanha não baixam dos 900. O número de infeções, que supera já os 280.000 no total, disparou no mês de julho e, com ele o medo de uma segunda vaga da pandemia em pleno Verão. Apesar dos dados, os especialistas asseguram que ainda é cedo para falar de uma segunda vaga, pelo menos na totalidade do país.

"É difícil saber se estamos numa segunda vaga, sobretudo porque a evolução da pandemia varia muito de comunidade para comunidade", explica José Miguel Carrasco, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia. "Agora a situação está muito mais controlada do que março. Identificam-se bem os novos casos, isolam-se os contactos de tal forma que não existe transmissão comunitária excepto em algumas comunidades autónomas, como Cataluña e Aragão".

Estas são as comunidades que mais preocupam. Ontem as autoridades catalãs notificaram 22 mortes em 24 horas e o presidente Quim Torra já avisou que a população tem 10 dias para voltar a conter o vírus, caso contrário poderá impor um novo confinamento.

"Nesta altura, a Catalunha voltou à fase dois do desconfinamento. Há medidas mais concretas, de controlo da lotação dos locais, limitação dos espaços de ócio, a obrigatoriedade da máscara tanto em espaços abertos como fechados... há que esperar para ver como funcionam estas medidas intermédias antes de pensar num novo confinamento", explica Carrasco.

"Ainda que, nestes casos, haja transmissão comunitária, não estamos perante uma segunda vaga. O surto em Aragão está muito centralizado na cidade de Zaragoza, por exemplo. São surtos muito específicos e onde, apesar de haver transmissão comunitária, é muito mais pequena do que a que existia em março", completa.

Rastreadores de contactos chegam a Madrid

Nesta fase de controlo da pandemia, os rastreadores de contactos têm um papel principal, de modo a poder "fazer o seguimento de um caso, identificar onde esteve, com quem" para poder depois "isolar essas pessoas e fazer uma quarentena de quinze dias, impedindo que contagiem mais gente".

Neste sentido, nem todas as comunidades autónomas se reforçaram de mesma maneira nestes meses de trégua. Madrid, epicentro da epidemia, só esta terça-feira anunciou a contratação de 380 rastreadores. A capital foi uma das últimas a impor o uso da máscara em todos os espaços públicos, abertos ou fechados, e anunciou também a redução da capacidade nas esplanadas e restrições ao ócio nocturno.

"Dá a sensação de que Madrid chega um bocadinho tarde a este reforço. Ainda assim, de acordo com os dados que temos - que temos que tratar com muita cautela também -, ainda vamos a tempo de controlar possíveis surtos em Madrid", analisa Carrasco.

Por agora, mesmo nas comunidades mais afetadas, não parece que os serviços de saúde estejam saturados, algo que poderia estar relacionado com o perfil dos infetados atuais: "Têm uma média de idade mais baixa, as complicações serão menos e portanto o sistema de saúde parece ter maior capacidade para os atender. Há poucos internamentos, poucos casos nos cuidados intensivos e a letalidade é razoavelmente baixa".

No entanto, o especialista chama a atenção para a necessidade, não só de aumentar os recursos de saúde, mas também de proteger os profissionais: "Durante muitos meses fizeram um trabalho imenso, um esforço que deve ser reconhecido. Não se trata apenas de ter ventiladores e camas nos cuidados intensivos... os profissionais de saúde têm de estar bem física e mentalmente para continuar a combater esta situação".

Sem baixar a guarda

Com o vírus a expandir-se de novo no país, muitos perguntam se tal era inevitável ou se se chegou tarde à adopção de novas medidas. "Em tudo o que tem a ver com este vírus chegamos sempre tarde, porque conhecemos muito pouco do seu comportamento. Mas chegamos tarde em Madrid, na Catalunha, em Espanha e em Portugal e em todos os sítios".

Além disso, sublinha, a medida que já demonstrou ser a mais eficaz - o confinamento da população - não pode ser adoptada de forma constante: "Parte do impacto desta pandemia é social e económico e se se aplicam medidas muito restritivas os efeitos seriam ainda piores".

Na origem dos principais surtos que vão aparecendo um pouco por todo o país estão reuniões familiares e de ócio noturno. O controlo da curva de contágios e a chegada do Verão fez com que muitos baixassem a guarda com o vírus, para desespero dos profissionais.

"A mensagem que tem de passar em Espanha, em Portugal e em todo o lado é que não podemos descuidar-nos com as medidas porque o vírus continua a estar entre nós e continua a circular. Até que não haja uma vacina ou uma imunidade de rebanho o suficientemente grande, a única barreira que temos para a contenção do vírus são as medidas de prevenção", defende.

Até lá, os epidemiologistas insistem em que há que cumprir o que já chamam de lei dos três "M": usar a máscara, lavar as mãos e dois metros de distância.

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