"Não tenho nada a defender ou a explicar. Nada"

Foi insultado, chamaram-lhe de "idiota" a "monstro ideológico", além de negacionista de Srebrenica. Nunca na História fizeram uma coisa destas a um escritor. Peter Handke, Nobel da Literatura 2019, sobre o cinema que o traz a Portugal, a vida, os Balcãs.

Está em Portugal como membro do júri do Lisbon & Sintra Film Festival, ​​​​​​​não o vou questionar sobre os prováveis ​​vencedores ou perdedores do festival, mas não posso deixar de lhe perguntar sobre a sua perceção geral em relação à qualidade do cinema feito neste nosso tempo ...

É uma questão muito universal, muito abstrata, mas posso dizer que comecei a minha adolescência como espectador de filmes, como cinéfilo. Entretanto, acabei por estar envolvido no cinema como argumentista e como realizador e agora voltei a ser espetador, como se fosse novamente criança. Agora, vou ver filmes se os cinemas estiverem abertos. Eu vivo em França e, no momento, os cinemas, as casas de filmes, estão fechadas. Mas gosto de estar aqui e ver filmes com outras pessoas, neste chamado júri, é uma espécie de prazer, uma certa forma de sociedade dedicada ao prazer de ver filmes em conjunto com outras pessoas.

O cinema deve refletir cada vez mais as ideias e debates da sociedade, como a pandemia, mudanças climáticas, populismo?

Não sou uma pessoa competente para ser entrevistada sobre esse tipo de problemas, não sei. Penso que, muitas vezes, é doloroso ver os filmes a tratar a História, com "H" maiúsculo. Por vezes digo a mim próprio, como digo também aos realizadores: tenta encontrar uma história com letra minúscula, histórias que tenham que ver com a atualidade e não com o século dezanove, Primeira Guerra ou Segunda Guerra, ou Estaline ou Hitler. Tentem sim encontrar histórias profundas e dramáticas dos dias de hoje, histórias que não sejam declaradas História com letra maiúscula. Esse é o meu desejo como espetador, eu preciso de filmes, é uma necessidade. Para a alma, para o rimo da vida, para viver diariamente.

Se fosse um realizador de cinema neste momento ou um guionista como aconteceu no passado, era sobre o que faria os seus filmes?

Por vezes vemos filmes que dizem "baseado numa história verdadeira". Isso retira-me a inocência do olhar. O que é uma história verdadeira? A verdade é uma coisa diferente de uma história verdadeira. Eu não quero ver o que aconteceu, eu quero ver o que podia ter acontecido ou o que está na cabeça do argumentista ou do realizador.

Cada vez mais, com a pandemia, com a Covid-19, parecem válidas suas palavras: "a natureza é a única promessa possível", como afirmou no seu discurso há um ano quando recebeu o Nobel em Estocolmo...

Sim, eu disse isso mas era uma citação, eu escrevi isso numa peça há quarenta anos! Nem sequer sei se hoje ainda funciona assim, se a natureza é, de facto, a única promessa possível. Mas sim, escrevi-o há quarenta anos.

E o que é que funciona hoje?

Não sei. O que é que funciona hoje? Não sei. Tu sabes melhor, és um entrevistador, um jornalista.... Os jornalistas sabem tudo melhor que os escritores...

Pensa que sim? Porquê?

Estou a brincar. Não sei o que pensar.

Claro que estamos a viver um tempo especial, com toda a situação sanitária, mas também estamos a viver um tempo de mudanças políticas. Como é que vê as mudanças nos Estados Unidos? O mundo respira melhor sem Trump no poder?

Quem é Donald Trump? (risos) Por vezes há um sentimento diabólico em mim que diz que Trump deveria continuar para nós vermos o mundo tal como ele é, para podermos criticar o mundo e a estrutura do mundo atual. Mas claro que é maravilhoso que ele não tenha podido continuar a sua agitação. Mas às vezes tenho este sentimento de que ele devia continuar e o mundo ficar ainda pior para a Humanidade ver o que se passa no mundo.

Joe Biden não vai ser tão fácil de criticar?

Não sei, vamos ver e recear.

O que é que o Prémio Nobel lhe trouxe? Para além do dinheiro do prémio, claro está...

Para mim foi uma espécie de liberdade. Uma espécie de paz?

Porquê paz?

Foi o que senti dentro de mim quando me telefonaram do secretariado do Comité Nobel em Estocolmo. Foi a literatura, pensei para mim. Se calhar não é verdade, mas foi esse o meu sentimento.

Cinco anos antes, chamou ao Prémio Nobel uma "falsa canonização" da literatura ...

É verdade, chamei. Mas estava a pensar na injustiça e na minoria eslovena no meu país, a Áustria, onde há um escritor da minoria eslovena que é um grande escritor e nunca será sequer considerado para ganhar este prémio. Não há justiça. Talvez nos tempos de Albert Camus, Samuel Beckett, William Faulkner. Quando decidiram atribuir-me o Nobel, eu senti-o como uma espécie de tempos antigos, como nos tempos deles ou de Jean Paul Sartre; não tanto de Solzhenitsyn ou de Tolstoi que não o teve.

Ficou muito irritado ou furioso com algumas reações negativas dos seus pares, de outros escritores, à decisão do comité sueco? Como se sente quando alguns dos seus colegas, escritores, intelectuais, dizem coisas como... Jonathan Littell: "Ele pode ser um artista fantástico, mas como ser humano é meu inimigo...é um idiota." Alain Finkelkrault chamou-lhe "um monstro ideológico"...

Nem tive nem noção. A minha mulher e a minha filha desviaram-me disso, protegeram-me. Mas por vezes não se consegue escapar. No entanto, a paz que senti quando recebi a notícia, permaneceu dentro de mim.

No seu livro A Journey to the Rivers: Justice for Serbia, (Viagem aos Rios, justiça para a Sérvia), explica que aquilo foi uma guerra de papéis de agressores e atacados, que foi uma narrativa estabelecida e escrita muito rápido pela chamada opinião pública mundial ... os seus críticos dizem o Peter Handke é um fã de Slobodan Milosevic, dizem que é um negacionista da limpeza étnica contra os muçulmanos bósnios nas guerras jugoslavas ... É assim?

Nunca na história um escritor foi vítima, como eu, de tanta falsificação sobre a negação. Já não posso apagar nada, foi há muito tempo, a única coisa que posso dizer é que nesse livro, quando estive com o editor da versão inglesa - e isto não é para justificar nada - mas ele disse-me que quando leu e constatou o meu ritmo, o tipo de imagens, quis publicar. Naquela minha viagem em tempo de inverno pela Sérvia, pelo Drina, eu coloquei questões e fi-lo sempre de forma muito responsável. Quando eu falo posso ser irresponsável, posso dizer disparates, mas quando escrevo tenho o maior cuidado, é a minha essência. E ele disse-me: "Peter, quando li o que li sobre o livro que escreveste, fosse no New York Times ou na New Yorker" - que é, aliás, uma excelente publicação, "achei tudo uma pornografia". Aquilo foi pornografia. O jornalismo mudou com a guerra na Jugoslávia. Creio que ele pôs as coisas nos devidos termos. Mesmo aquilo que li na New Yorker foi pornográfico. Os bons e os maus, só isso. Não se pode escrever assim.

De um lado meras vítimas e do outro criminosos totais...

O El País é um excelente jornal, mas mudou completamente com a guerra na Jugoslávia. Não sei porquê, é um mistério para mim, mas não é um bom mistério. Já não leio mais o El País, só o futebol à segunda-feira. Todos queriam algum escândalo quando fui a Estocolmo. O New York Times escreveu que se eu morresse no dia seguinte ao Nobel, a primeira linha que escreveriam sobre mim é que eu era um negacionista do massacre de Srebrenica...

Sei que já esteve na Republica Sérvia da Bósnia. Saberá que o primeiro massacre que aconteceu ali foi na vila de Kravica, quando o líder muçulmano bósnio Naser Oric a atacou e mataram toda a gente, mais de cinquenta pessoas. Fica a cerca de vinte quilómetros de Srebrenica. Foi atacada no dia de natal ortodoxo, no início de janeiro de 1993, no início da guerra na Bósnia. Eu não quero julgar nada nem ninguém, mas o Naser Oric foi lá e mataram todas as pessoas da aldeia. Todas. Tenho de admitir que era um sítio pequeno, não mataram as sete ou oito mil que foram mortas pelos sérvios três anos e tal depois...

Em Srebrenica...

Em Srebrenica. Não tem bada a ver, os números são completamente diferentes. Mas mataram praticamente toda a gente. Crianças, mulheres e até os porcos. A última linha do New York Times é que eu tinha escrito sobre esse caso e que isso não era história nenhuma. Um historiador de renome de Princeton disse que era uma criancice completa eu falar daqueles 56 ou 57 mortos. Conseguiu o escrever que o Naser Oric apenas tinha atacado a aldeia porque queria carne para não morrer à fome em Srebrenica. Eu apenas tinha dito que aquele tinha sido o primeiro massacre. É verdade que foi um pequeno massacre, comparativamente, no número de vítimas, mas até um pequeno massacre pode ser um grande massacre no coração das pessoas. E portanto eu é que sou infantil porque mencionei o massacre de Kravica e afinal quem atacou a aldeia e matou quase toda a gente só queria ter comida para levar para Srebrenica. Quando fui receber o Nobel a Estocolmo, disse que foi nesse caso que eu perdi a minha fé no jornalismo ocidental. Acusaram-me de negar massacres, mas nunca provaram que eu o tivesse feito. Eu quis falar com o New York Times, convidei-os a ir a minha casa a França, beber um copo de vinho e discutir estas coisas, com um sentido de humanidade. Eles foram e acabaram por me explicar como tudo isto aconteceu, como me tentavam destruir. Claro que não conseguem. Convido-o a ir a Chaville, nos arredores de Paris, falar sobre estas coisas, Agora não, que é um pouco difícil, que os restaurantes estão fechados. Mas levei-os a um Kebab do Curdistão, passámos umas horas juntos e discutimos tudo de uma forma tranquila e humana. Não se pode tratar assim um escritor. Eu sou um escritor. Na linha de Camus e de Sartre, isto é a minha vida.

Mas mesmo quando se olha para os Balcãs com olhos mais imparciais, não unilaterais, sem culpar os sérvios ou os sérvios da Bósnia ou os sérvios na Croácia por todas as atrocidades, parece um pouco demais quando alguém vai fazer um discurso ao funeral de Milosevic como o Peter Handke fez em 2006 ...

Isso foi outro problema. Foi um momento bonito mas doloroso para mim. A minha filha advertiu-me e disse-me para eu não ir. Mas eu senti que devia estar lá. Porque aquilo para mim era o fim da Jugoslávia. E ninguém compreendeu nada do meu discurso lá. Não houve sequer aplausos. Foi muito enigmático. Nunca fico orgulhoso daquilo que faço, mas sei que disse para mim que teria ficado triste se não tivesse estado lá. Sentir-me-ia um traidor. Quis estar lá em Belgrado naquele dia. Não tenho nada a explicar. Nada. Foi uma cerimónia normal, puseram rosas no caixão. Eu gostava de lhe estar a falar e a sentir-me bem, mas falo destas coisas e sinto que a minha voz não fica bem. Não tenho nada a defender ou a explicar. Nada.

Mas é uma coisa que ainda o perturba, aquilo que disseram de si...

É, claro. Parece que algo se quebrou em mim. Até deveria estar orgulhoso disso, mas não estou. Nunca na História fizeram uma coisa destas a um escritor. Quando escrevi o livro seguinte a esse, ao Justiça para a Sérvia, um livro que não foi traduzido para espanhol como esse que tem aí ou para português, foi um livro que resultou de uma viagem no verão seguinte que eu fiz a Srebrenica. Havia acesso, o enclave estava aberto, podia-se viajar ao longo do Drina, estive com os sérvios de lá...

Foi em 1997 ou 98...

Sim, por aí. Não fui lá como jornalista, não queria colocar questões. Mas quando estava lá parado, um homem sérvio embriagado, dizia "não quero voltar a ser sérvio, nunca mais". Isso está no meu livro. E umas semanas depois eu perguntei a um homem local que tinha poder no território da cidade, um autarca, se aquele massacre que tinha acontecido uns anos antes era verdade e ele disse que sim, que era tudo verdade e que o ódio no país era tal que só não mataram mais porque não conseguiram. E eu pus isso no meu livro. E não foi uma confissão, saiu dele, naturalmente.

Então, considera que é injusto, quando as pessoas dizem que é um negacionista em relação a Srebrenica...

Oh 'Fuck'!Não é só ridículo, é muito triste. Magoa e é um atentado à paz o que estão a fazer. Não sei quem o faz, é um mistério para mim. Há uns quatro anos fui a Oslo para o prémio Ibsen e houve muitos protestos junto ao teatro nacional, chamaram-me fascista. Era fim-de-semana, um sábado, eu não sabia quem eram aquelas pessoas. Aproximei-me, perguntei se queriam a minha morada, dei um papel com o meu contacto para podermos falar sobre o assunto, mas parece quem nem me conseguia ver, só me chamavam fascista. Claro que senti uma profunda tristeza. Fiz de conta que era um idiota, mas vi os caixões vazios que puseram em frente ao teatro nacional. O meu editor tentou desviar-me, teve medo que eu fosse ter com as pessoas que estavam com aqueles caixões vazios. Mas eu fui. Dei-lhes o meu endereço, falei e falei. Nunca vou esquecer aquelas caras. Claro que nunca me telefonaram. Aquelas pessoas não faziam ideia que eu pudesse existir como pessoa. Era como seu fosse um fantasma.

Quase 25 anos depois do Acordo de Dayton, pensa que alguma vez haverá reconciliação entre aqueles povos?

Não me faças essa pergunta que não sou historiador. Bem, claro que tens o direito de me fazer perguntas. Posso dizer-te, e é a primeira vez que o digo publicamente, que quando fui receber o Nobel a Estocolmo quis levar uma mulher bósnia da organização Mães de Srebrenica e uma mulher sérvia de Kravitca. Falei com o meu amigo e compatriota Valentin Inzko, que tem um cargo...

Alto Representante...

Exato. Ele é meu amigo, eu também sou meio esloveno e pedi-lhe para me ajudar a organizar isso e dispus-me a dar a cada uma das mães dessas organizações parte do dinheiro do Nobel. E ele disse-me para nem pensar nisso, já que as Mães de Srebrenica jamais aceitariam que uma delas, uma sequer, fosse lá; boicotariam a cerimónia. É a primeira vez que estou a contar isto. Mas penso que... com pessoas individualmente, católicos ou muçulmanos na Bósnia, jovens, eu gostaria de me encontrar; pessoas individualmente, não uma coisa organizada. Creio que o poderíamos fazer. Mas não sei como o fazer.

Está a preparar algum novo livro?

Claro, isto é a minha vida. Escrever, organizar a minha alma para o ritmo de um sentimento épico homérico. Um sentimento tipo Cervantes, Camões... isto é a minha vida, escrever é a minha verdadeira alma.

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