"Negócio" da China. O estranho caso dos espiões recrutados no LinkedIn

São sobretudo ex-funcionários de governos os alvos de uma rede de espionagem que tem origem na China. Das mensagens 'estranhas' que prometem oportunidades únicas a um esquema de roubo de informações confidenciais e segredos de Estado, é no LinkedIn que tudo começa.

Três ocorrências desencontradas no tempo e no espaço, apenas uníssonas nas teias utilizadas para as tecer, podem ajudar a explicar o enigma. Um antigo funcionário da política externa da governação de Obama recebeu mensagens de 'alguém' com ofertas para o levarem até à China e estabelecer relações e "oportunidades bem pagas". Não está sozinho, nem na rede social mais direcionada para a procura de trabalho - o LinkedIn -, nem na estranheza deste 'acaso'.

Um ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros dinamarquês recebeu mensagens do LinkedIn de 'alguém' que se anunciava como uma mulher, colaboradora de uma empresa de recrutamento chinesa, e que dizia querer reunir-se em Pequim. Ao encontro, porém, compareceram três homens que aliciaram o destinatário das mensagens a obter um "vasto acesso ao sistema chinês", para efeitos de pesquisa, conta o The New York Times , que elenca mais duas histórias.

Um ex-oficial da Casa Branca, dos tempos de Obama, com carreira de diplomata, diz ter sido ajudado na mesma plataforma, por 'alguém' que se dizia investigador do Instituto de Tecnologia da Califórnia, com uma página de perfil que indiciava ligações a assessores e embaixadores da sede oficial da Presidência norte-americana. Essa pessoa não existe.

As autoridades de 'contra inteligência' ocidentais estão no rasto de agentes que têm explorado as redes sociais para recrutar, enquanto o LinkedIn como isco, e as agências de inteligência dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e França, emitiram mesmo alertas na decorrência de agentes estrangeiros que têm tentado persuadir utilizadores inscritos na plataforma. Os espiões chineses são os mais ativos, de acordo com as denúncias das autoridades.

Outras redes sociais em alerta

O diretor do centro de contra inteligência e segurança norte-americano, William R. Evanina, contou à publicação The New York Times que os serviços de espionagem da China têm adotado este esquema em "grande escala". O dirigente da instituição de rastreio a atividades de espionagem aponta ainda que este é um método mais fácil, já que, a partir do próprio país, se podem fazer abordagens destas, com recurso a perfis falsos.

O Facebook, o Twitter e o YouTube também estão alerta, e referiram, durante as últimas semanas, que apagaram centenas de contas que propagaram desinformação, nomeadamente em plenos protestos pela democracia em Hong Kong. No entanto, o LinkedIn é a única grande plataforma não bloqueada na China, o que tem feito da rede social o meio mais prolífico para os serviços de inteligência chinesa.

Os 'alvos' mais vulneráveis são funcionários que acabaram de deixar os governos que integraram, e que se encontram à procura de novos empregos.

O LinkedIn já respondeu à polémica. Nicole Leverich, sua porta-voz, repara que a empresa procede ao anulamento de contas falsas e que possui uma equipa dedicada a estes procedimentos, na qual se incluem agências governamentais. Mas, ao mesmo tempo que tem sido eficaz em eliminar suspeitos, o LinkedIn também tem sido produtivo para espiões.

Kevin Patrick Mallory, um ex-funcionário da CIA, foi condenado, em maio, a 20 anos de prisão por espionagem ao serviço da China. Tudo começou com a primeira resposta, em fevereiro de 2017, a uma mensagem enviada através do LinkedIn, de um agente de inteligência chinês que se fazia passar por um representante de um gabinete estratégico.

Também em outubro de 2018, o Departamento de Justiça acusou um agente de inteligência chinês, Yanjun Xu, de espionagem económica depois de este ter recrutado um engenheiro da GE Aviation na rede social orientada para o mercado de trabalho. Os espiões chineses estão em busca de qualquer pessoa que possa oferecer acesso a informações privilegiadas, segredos corporativos e propriedade intelectual. O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês recusou-se a comentar o caso ao jornal norte-americano The New York Times.

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