Neste país não se fala de educação sexual e o VIH aumentou 174%

Só no primeiro mês de 2019 o Governo das Filipinas reportou 1200 novos casos. Mas o que mais preocupa aos especialistas é que 90% destes novos contágios se deram por transmissão sexual, num país onde não se fala de sexo.

O VIH tardou tanto a chegar às Filipinas que as ilhas da Insulíndia se acharam esquecidas, e até imunes. Mas os dados confirmam que o esquecimento - ou imunidade - foram uma ilusão efémera. Entre 2010 e 2017, a incidência do vírus aumentou 174%.

Todos os dias são detetados 40 novos casos daquela que os especialistas apelidam de "epidemia explosiva". São também estes especialistas que atribuem a falta de educação sexual, a escassez de medicamentos e o desenvolvimento de uma forma multirresistente do vírus como causas da elevada propagação.

"Na Europa e nos Estados Unidos encontra-se maioritariamente o subtipo b e esse representa apenas 12% de todo o VIH do mundo. Esses 12% recebem 90% dos investimentos para a investigação. Se não formos nós a estudar o nosso tipo, ninguém o fará", explicou o especialista à publicação espanhola El País .

Só no primeiro mês de 2019 o Governo reportou 1200 novos casos. Mas o que mais preocupa os especialistas é que 90% destes novos contágios se deram por transmissão sexual, num país onde não se fala de sexo.

A organização Love Yourself criou espaços, com a aparência de sítios de coworking, em que é possível fazer um teste rápido de deteção do vírus, receber noções básicas sobre as práticas sexuais e obter preservativos grátis.

"As pessoas não falam sobre isto nas Filipinas, por isso as pessoas descobrem as coisas através da prática. Os professores até se recusam a ensinar educação sexual nas escolas", explica Danvic Rosadiño, diretor do centro Love Yourself, em Manila. As Filipinas são, de facto, um país tão conservador que o divórcio e o aborto não são permitidos e podem até valer pena de prisão.

Neste país, 85% da população é católica e as igrejas enchem para as missas dominicais. "O sexo é um assunto desconfortável aqui. Aliás, a Igreja opõe-se ao uso de preservativos, portanto não podemos tê-los gratuitamente e nem todos podem comprá-los. Como vamos evitar que o VIH se propague?", questionou Saldaña.

Nas escolas, nas empresas e nas comunidades, o medo é também uma substância virulenta que alastra. "As pessoas acham que a SIDA é o fim do mundo e não sabem como se proteger", revelou também o médico. Consciente do estigma, a organização oferece um serviço premium: a realização do teste no domicílio, pedido que é geralmente efetuado por "executivos", que não querem que se conheça a sua condição de saúde.

Outro dos dados registados aponta para que 84% dos novos casos sejam em pacientes homossexuais, mas a informação não é inequívoca. "Os gays têm sido mais alertados e, portanto, têm recorrido mais aos testes. As mulheres, por seu lado, não realizam muitos despistes", analisou Salvaña.

Para os 5% que foram infetados pelo uso e partilha de seringas a situação não é muito melhor. Desde que o Presidente Duterte assumiu o cargo, em 2016, a guerra total contra traficantes de drogas e consumidores, que inclui execuções sumárias no meio da rua, passou a ser uma realidade.

Por outro lado, o chefe de Estado das Filipinas aprovou, no final de 2018, uma lei para facilitar o acesso aos exames para os mais jovens e incentivar os medicamentos gratuitos, numa estratégia desenhada para um período de seis anos.

No entanto, por mais facilitado que seja o acesso a medicamentos, sabe-se que os tratamentos são ineficazes. Os antirretrovirais ajudam apenas 36% dos afetados, mas "o pior é que os medicamentos disponíveis nas Filipinas geralmente não são eficazes contra o tipo de VIH que se desenvolveu aqui", contou o especialista Saldaña.

Muitos também param de os tomar e a grande maioria não realiza os testes de acompanhamento a cada três meses, o que torna impossível determinar se o tratamento está a surtir efeito, ou se é necessário acertá-lo.

"O tipo de VIH das Filipinas é o mais resistente e agressivo. As drogas recomendadas pela OMS deixaram de ser usadas no ocidente em 2015. Temos apenas seis antirretrovirais disponíveis e, na Europa e nos Estados Unidos, há 30. Somos cidadãos de segunda classe?", interrogou Saldaña, o especialista que obteve 800 mil dólares (716 mil euros) do Fundo Global para capacitar médicos locais para realizarem os testes trimestrais de acompanhamento do vírus. Um esforço económico para que o país não tenha de pagar uma conta ainda maior no futuro.

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