Nina Khrushcheva diz que Putin é um jogador que o ocidente não consegue decifrar

A bisneta de Nikita Khrushchev vive há 30 anos nos Estados Unidos onde ensina propaganda americana e relações internacionais. Ela defende que a atual crise tem algo em comum com a crise dos mísseis de 1962.

Nina diz que a apreensão que se vive agora é semelhante há que foi vivida em 1962, só que na altura o confronto entre as duas superpotências era direto. Entrevistada pela televisão britânica Sky News, ela acrescenta que esta terça-feira devemos estar mais preocupados porque não existem dois líderes, como Kennedy e Khrushchev que estavam realmente empenhados em resolver o problema. "Não vejo que a administração Biden e Vladimir Putin estejam muito interessados em ultrapassar a situação. Isto começou quando o presidente americano aumentou o apoio a Kiev e os ucranianos começaram a falar em recuperar a Crimeia pela força. Os norte americanos com uns serviços secretos, que sabemos terem muitas falhas, começaram a acusar os russos de estarem a concentrar forças na fronteira," explicou.

"Muitos analistas militares, incluindo ucranianos, chamaram a atenção para o facto de o numero de soldados ser apenas um pouco mais elevado do que em outras ocasiões. Isso não foi dito no ocidente e penso que foi propositado," acrescentou a bisneta do antigo líder soviético. Ela afirma que foi nessa altura que Putin não resistiu a ser ele próprio e começou a enviar soldados para os locais onde as informações americanas diziam que eles estavam.

"Os especialistas na Casa Branca tinham a obrigação de saber que em causa não estava uma invasão, mas decidiram levar à letra o bluff de Putin," reforça Nina Khrushcheva, que acredita que o presidente russo nunca quis ocupar todo o país. "Em 2014, o Putin anexou a Crimeia, mas não foi mais longe. Ele é um jogador e como tal apropria-se do que pensa que pode ter e controlar. A Ucrânia, com 40 milhões de habitantes que o odeiam, é algo que não pode gerir."

Quanto ao departamento de Estado norte-americano, Nina Khrushcheva não tem tantas certezas: "Não posso dizer que eles queiram um confronto direto com os russos, mas odeiam o Putin, querem vê-lo de joelhos e a pedir perdão. Eu digo que isso nunca vai acontecer. Na minha experiência, de 30 anos de América, assisti à guerra do Iraque, às diversas ações de Washington durante a primavera árabe, tudo mostra que os americanos têm o gatilho leve. Eles encaram com naturalidade as guerras desde que sejam nos outros países. Os russos e os ucranianos falam em pânico desnecessário, mas os americanos insistem que vai haver uma invasão."

A bisneta de Khrushchev chama a atenção para o facto de os Estados Unidos e a NATO terem falhado totalmente na missão de fazer Putin recuar, pelo contrário ele até aumentou a presença militar na Bielorrússia. Ele refere que para quem não é russo, tudo parece uma loucura, é difícil entender. "Para que é que se mobilizam mais de cem mil soldados, se não se quer avançar com uma invasão? Para os russos faz todo o sentido, na verdade até para os ucranianos, é por isso que não estão em pânico. Não sei como explicar. A mente russa é muito complexa, o país tem 11 fusos horários," acrescenta Nina rindo-se.

"Começámos esta entrevista com a crise dos mísseis em Cuba, na altura o presidente Kennedy disse: 'esperem lá, estão a pôr mísseis à minha porta. Como se atrevem?' O Khrushchev disse: 'desculpe, vocês têm tropas mesmo nas nossas fronteiras. Tem de haver igualdade.' O Putin está a fazer a mesma coisa. Racionalmente entendemos a necessidade de a NATO se preparar, porque o líder russo já ocupou algumas partes do país, mas é assim que Moscovo faz passar as mensagens. Khrushchev também garantia que a União Soviética não ia usar Cuba para atacar os Estados Unidos, apenas queria igualdade. Putin está a dizer o mesmo: 'quero que me tratem como alguém com quem podem negociar, mas em vez disso têm passado os anos a insultar-me. Dizem-me que sou Hitler, que acordo do lado errado da cama, dizendo-me que sou um assassino. Vocês não merecem qualquer consideração ética e vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para vos chatear o mais possível", explica.

Nina Khrushcheva vai mais longe, diz que Putin adora ser o centro das atenções e é também por isso que não recua. "Conseguem imaginar estar em todos os jornais, rádios e televisões do mundo? Ele vai manter-se na ribalta o mais que puder, mas isso não significa que vá invadir a Ucrânia," conclui a bisneta do líder soviético que esteve no poder entre 1953 e 1964.

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