"Número a crescer consideravelmente." Casamentos de menores disparam em Cabo Delgado

O alerta é feito pela organização Save The Children. À TSF, Paula Sengo, especialista em proteção de crianças da Save The Children em Moçambique, aponta a pobreza como uma das principais causas que levam aos casamentos prematuros.

Os casamentos prematuros dispararam em Cabo Delgado. Nos primeiros três meses do ano foram registadas 108 uniões prematuras, o que representa uma duplicação da taxa registada entre as crianças deslocadas pelo conflito em Cabo Delgado.

Os números foram revelados esta manhã pela organização Save The Children, que fala num aumento substancial preocupante. Em janeiro, foram seis as crianças recém-casadas; em fevereiro, esse número aumentou para 32
e, em março, eram já dez vezes mais, com 70 casamentos prematuros.

Em declarações à TSF, Paula Sengo, especialista em proteção de crianças da Save the Children em Moçambique, regista um aumento preocupante do número de casamentos e gravidezes precoces em Cabo Delgado.

"São 108 casos registados. Este número tem estado a crescer consideravelmente, não só de uniões prematuras, mas também situações de gravidez precoce", nota.

A Save The Children explica este aumento pelo sofrimento contínuo de muitas famílias. Sem conseguir alimentar ou abrigar todos os filhos, os pais optam por casar as crianças, aliviando, assim, a carga familiar. A organização sublinha que, antes do início da crise, Cabo Delgado já era o pior lugar para se ser criança em Moçambique.

A especialista Paula Sengo aponta três causas para explicar o aumento dos casamentos com menores: "Muitas famílias perderam a sua fonte de renda e enfrentam dificuldades financeiras. Por outro lado, as raparigas não têm acessibilidade às escolas secundárias, pois é muito comum terminarem o ensino primário e depois não terem como continuar os seus estudos. E é também uma questão cultural muito enraizada."

As vítimas destes casamentos precoces são, sobretudo, raparigas a partir dos 13 anos. Paula Sengo receia que esta realidade venha a agravar-se.

"Receamos ser possível que o número aumente. É notável o nível de vulnerabilidade que as pessoas enfrentam, as dificuldades financeiras, o nível de pobreza. A pobreza é um dos fatores que mais influencia as uniões prematuras. Se nós não trabalharmos com antecedência para travar esta situação, é possível que o número aumente", explica.

Cabo Delgado tinha a segunda maior taxa de uniões prematuras e a maior taxa de gravidez na adolescência do país. Agora, "com deslocações em massa e abusos horríveis, as coisas estão muito piores. As meninas são particularmente vulneráveis e estão a ser casadas a uma taxa incrivelmente alta". O conflito em Cabo Delgado, que está a entrar no quinto ano, já levou à deslocação de quase 785 mil pessoas, das quais cerca de 370 mil crianças. Um milhão e meio de pessoas precisa de ajuda para viver.

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