O apelo do Papa: "Salve-se quem puder não é solução"

O Papa nota que "são os grandes gestos que fazem falta" e apela aos empresários para não despedirem funcionários. Numa entrevista por videoconferência, Francisco compara os profissionais de saúde a santos e confessa que já duvidou da existência de Deus.

Sentado em frente a um ecrã, com uma porta atrás das costas, o Papa deu uma entrevista por videoconferência, algo que por estes dias é bastante comum, mas que não se espera de uma figura como o Papa. E dessa entrevista ao programa Lo de Évole, do canal espanhol La Sexta, sai um apelo, um reconhecimento e uma confissão.

O apelo é dirigido aos empresários porque, diz Francisco, neste tempo não pode valer tudo. "O salve-se quem puder não é solução, uma empresa que despede para se salvar não é uma solução", sublinha o Papa para quem, neste momento, "mais do que despedir, é preciso acolher e fazer sentir que há uma sociedade solidária". "São os grandes gestos que agora fazem falta", destaca Francisco.

Confrontado pelo jornalista Jordi Évole com o facto de não ser dirigente de uma multinacional ou de uma empresa e que ele não sabe as penúrias pelas quais os empresários vão passar agora que a produção desapareceu, Francisco tem resposta pronta: "Sim, pode ser que não saiba, mas sei as penúrias pelas quais vão passar o empregado, o operário, a empregada, a operária, que vocês vão despedir".

Santos da porta ao lado

O elogio é para todos aqueles que, nestes tempos de pandemia, se têm esforçado por manter a vida, literalmente. Sobre os profissionais de saúde, o Papa Francisco apelida-os de "Santos da porta ao lado" e nota a sua admiração. "Eles ensinam-me como me comprometer e agradeço o testemunho", diz Francisco referindo-se a médicos, enfermeiros e voluntários "que têm de dormir em macas porque não há camas no hospital e não podem ir para sua casa".

"Muitos não são crentes, outros são agnósticos ou levam uma vida de fé à sua maneira, mas no testemunho [que dão] vê-se a sua capacidade de se atravessarem pelo outro, ainda que entre eles haja mortos", reconhece o Papa.

Isto sem nunca esquecer outros profissionais como polícias, transportadores ou padeiros que "estão a manter o funcionamento social".

Dúvidas, quem não as tem?

E num tempo em que muitos podem questionar a sua fé, qualquer que ela seja, o Papa Francisco compreende o porquê. Ele próprio já teve dúvidas, confessou nesta entrevista por videoconferência.

Reconhecendo que "ninguém está isento das tentações existenciais", Francisco diz que numa situação como estas até um Papa pode duvidar da existência de Deus.

O jornalista aproveitou a resposta para perguntar se o próprio Papa já teve essas dúvidas. "Na minha vida, sim. Neste momento, não, mas na minha, em algum momento, sim... Recordo que tive as minhas dúvidas de fé, as minhas crises de fé e resolvi-as com a graça de Deus", respondeu Francisco.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de