O Marcelo Caetano que gostava de conhecer o Marcelo Rebelo de Sousa

E quem sabe? Este Marcelo vive no Mindelo, na ilha de S. Vicente, onde o Marcelo, Presidente da República, vai celebrar o dia de Portugal.

Marcelo Caetano dos Santos Rodrigues, encadernador, o único - " sou o único" - que faz restauro aqui na ilha. Este Marcelo também gosta de livros. Tanto, que nos amarra com palavras simples, voz doce e gestos ponderados.

Tem 47 anos e começou miúdo a aprender o ofício. "Tenho a encadernação no sangue. O meu pai aprendeu com o pai dele e ensinou a mim e aos meus irmãos." Eram nove lá em casa, Marcelo foi o único a cuidar da arte. Marcelo é o único encadernador em S. Vicente.

É no Centro Cultural do Mindelo, que me cruzo com ele pela primeira vez.

Um gorro esconde-lhe o cabelo escuro. Percebo mais tarde que não é estilo. É, para os devidos efeitos, uma touca. Está em pé, debruçado sobre uma pequena mesa de madeira. Há um livro, uma régua, linha, cola e um pano. "Bom dia, posso interromper o trabalho?" - Rasga um sorriso, cumprimenta: "Como se chama?", pergunto-lhe eu,"Marcelo Caetano". Ah, com um nome assim estava mesmo a pedir conversa. E marcámos, para outro dia, porque a hora de almoço estava a chegar. A hora dele.

É o nome que atiça a conversa. Ainda sem saber que ele era o único encadernador de S. Vicente. Que tenta passar a arte. Sem êxito. Que o diálogo insinuado já com a responsável do IEFP é uma página em branco. Palavra dele. Que me conta tudo isto já sentado, numa sala da Igreja da Luz, duas ruas atrás do Centro Cultural. Marcelo está a restaurar mais um livro de Assentos de Baptismo. Dois estão terminados. O terceiro vai indo. Bate as folhas com precisão, "para fazer o vínculo", antes de as coser com linha de Nylon, de lhes dar cola. E revelar um segredo, "esta cola é feita com farinha de trigo, vai a lume brando, sem parar de mexer, como uma papa". Que nos alimenta a alma. Calma, perícia e muito amor ao trabalho.

Queixa-se do estado em que estão os livros que registam os passos e a identidade das pessoas da terra. Gostava que visitássemos o Arquivo Municipal, onde "até as abelhas já comeram aqueles livros". Gostava de passar esta arte aos jovens, dar formação, porque "eu não vou para a eternidade".

Lá em casa havia castigo, se não prestasse atenção ao que o pai fazia "não podia ir ao mar nem à praça". "Primeiro aprender a encadernação, só depois brincar." Hoje está grato. "Não aprendi à força."

E o nome? Marcelo Caetano. "O meu pai gostava muito dos portugueses e do Marcelo Caetano, eu gosto mais do Marcelo Rebelo de Sousa". Sabe do gosto do Presidente de Portugal pelos livros, e até desconfia que ele possa perceber também de encadernação. Só conhece o Marcelo, Presidente, de o ver na televisão, "um homem muito afável". Que gostava de conhecer.

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