"O meu marido foi um dano colateral." Viúva processa a Boeing por 276 milhões de euros

O marido de Nadege Dubois-Seex morreu no acidente com o Boeing 737 Max das Linhas Aéreas da Etiópia. O processo alega que a empresa norte-americana agiu de forma imprudente e com consciente desrespeito pela segurança dos passageiros.

Nadege Dubois-Seex ainda se emociona a falar do marido que morreu em março, quando o avião das linhas aéreas etíopes se despenhou minutos depois de levantar voo. Ela está também zangada porque acredita que a vida do marido, Jonathan, e a de todos os que seguiam a bordo do Boeing 737 podia ter sido poupada. Para isso bastava que a companhia aeronáutica norte-americana não tivesse desvalorizado o acidente com o avião da Lyon Air, na Indonésia, uns meses antes.

Nadege decidiu por isso processar a Boeing num tribunal de Chicago, a cidade onde fica a sede da empresa. Numa conferência de imprensa em Paris esta terça-feira, defendeu que "foi uma tragédia que, por definição, poderia ter sido evitada, porque já tinha acontecido cinco meses antes. Como é que eles conseguiram ficar surdos a essa advertência?"

Jonathan Seex tinha dupla nacionalidade, sueca e queniana, e era CEO do grupo de restaurantes e hotéis Tamarind, criado pelo pai no Quénia.

O processo judicial alega que o projeto do Boeing 737 Max foi mal concebido e que a empresa conseguiu luz verde para a produção porque houve pouca supervisão por parte dos reguladores. É ainda defendido que a companhia escondeu os problemas e se recusou a interditar o modelo, uma decisão que acabou por ser tomada pelas autoridades em todo o mundo.

O advogado da família, Nomaan Husain, referiu que as provas demonstram claramente que a Boeing agiu de forma imprudente. "A Boeing estava ciente dos problemas com o avião, com o software MCAS, e recentemente soubemos que eles conheciam os problemas com o simulador usado nos treinos dos pilotos. Pedimos ao júri, depois de considerar todas as provas, depois de analisar a ação imprudente e intencional da Boeing, que conceda uma indemnização mínima de 276 milhões de euros."

A verba pedida representa um dia da receita bruta que a Boeing fez o ano passado.

A Boeing admitiu no último sábado que teve que corrigir falhas no simulador de voo usado para treinar pilotos no 737 Max. A empresa aeroespacial não divulgou, no entanto, quando ou como é que essas falhas foram descobertas. A atuação da companhia em todo este processo tem-lhe valido inúmeras criticas. O porta-voz da Boeing recusou-se, para já, a comentar este processo judicial mas relembrou que a companhia tem colaborado com as investigações dos acidentes.

"A vida do meu marido foi tirada conscientemente e até de bom grado", acusou Nadege Dubois-Seex, visivelmente emocionada. Ouvida pelos jornalistas, esta viúva acrescentou que "a Boeing agiu com cinismo. O meu marido foi um dano colateral de um sistema, de uma estratégia de negócios."

Os dois acidentes com o modelo 737 Max causaram a morte de 346 pessoas.

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de

Outros Artigos Recomendados