"O Irão é neste momento uma prisão gigante." Mohsen já esteve preso três vezes

A morte de Masha Amini centrou atenções de novo num país onde a denúncia de violação de direitos humanos não é nova. Nesta entrevista à TSF, um iraniano comum descreve as duras condições de vida nas prisões do país, onde chegou a estar numa cela solitária e a fazer uma greve de fome de 12 dias. Mohsen chegou a Portugal há cerca de quatro meses, mas ainda espera para conseguir trazer a família. Um cidadão sem medo, que lamenta que o "povo do Irão esteja a ser castigado por aquilo que o governo faz".

O olhar honesto e afável esconde uma longa história de superação e dificuldades. São 34 anos de vida feitos de várias vidas. Irão, Turquia e agora Portugal. Vários recomeços, justificados pelo facto de o país que o viu nascer não ser neste momento o local de segurança onde Mohsen quer dar um futuro à mulher e ao filho de sete anos. Na memória tem as marcas das três vezes em que esteve detido no país. Na primeira e segunda vez, foi enviado para a Prisão de Fashafuyeh, também conhecida como Prisão Central de Teerão, a maior do país.

Mohsen vivia na capital, Teerão. Trabalhou em instalações de gás e aeroportos, por exemplo, com a sua formação em engenharia mecânica. É membro de um grupo espiritual no país, chamado "Erfan Halghe", que à medida que foi crescendo e chegando a mais pessoas se foi tornando cada vez mais "incómodo ao regime".

A detenção do líder do grupo foi o ponto de partida para a contestação, que acabou por tirar a liberdade a este iraniano. Na terceira vez em que foi detido, os serviços secretos iranianos entraram-lhe em casa sem explicação. "Nunca apresentaram provas oficiais. Alegaram que tinha bebidas alcoólicas em casa", explica, num país onde é proibido o consumo e a produção de bebidas alcoólicas.

O Irão tem estado a viver um turbilhão de protestos e indignação desde a morte de Masha Amini às mãos da polícia, depois de ter sido detida por usar o véu islâmico de forma incorreta. Mas os alertas para a violação de direitos humanos no país já são antigos. No final do ano passado, os Estados Unidos anunciaram um conjunto de sanções contra cerca de 12 entidades e responsáveis do Irão, por "violações flagrantes aos direitos humanos".

Em 2018, o alerta chegava da ONU. Uma resolução do Comité dos Direitos Humanos mostrava preocupações com a forma como o país trata as mulheres, considerando "urgente" a eliminação de discriminação face ao sexo feminino. Para além disso, o documento com a chancela das Nações Unidas sublinhava "sérias preocupações sobre as severas limitações e restrições no direito à liberdade de pensamento, consciência, religião ou crença".

Mohsen já viveu estas dificuldades na primeira pessoa, e por isso decidiu fugir com a família para a Turquia, que, na sua perspetiva, "não é um país seguro porque é muito próximo do regime do Irão". Por isso, depois de investir e criar uma empresa em Portugal, conseguiu entrar no nosso país de forma legal. A família quer voltar a estar unida, e em Portugal. Mas Mohsen ainda não sabe quando é que o sonho vai virar realidade.

Porque é que foi detido pela primeira vez?

Manifestei-me pela primeira vez publicamente no ano 88 do Irão (ano de 2009), mas dessa vez não fui detido. Pertenço a um grupo espiritual, chamado "Erfan Halghe". É um grupo que não tem qualquer ligação política ou religiosa, e que simplesmente promove a comunhão entre os homens, o que é consequência da cultura rica a nível espiritual que o Islão tem. É quase como o Yoga na Índia. O grupo tinha uma atividade perfeitamente normal, até que começámos a atrair médicos, pessoas com algum estatuto na sociedade iraniana. Num ano conseguimos chegar a um milhão de pessoas, e a partir daí começámos a ter problemas.

Começaram a ser vistos como uma ameaça?

Qualquer pessoa ou grupo que comece a ganhar estatuto ou poder na sociedade iraniana começa a ser visto como uma ameaça ao governo do Irão. Prenderam o nosso mestre sem nenhuma acusação formal. Chama-se Mohammad Ali Taheri. Esteve cerca de nove anos na prisão. Assim que ele foi detido começou a haver muitos protestos no Irão e um pouco por todo o mundo contra a prisão dele. Ele fez 18 vezes greve de fome, e a última vez que o fez a greve durou cerca de 100 dias. Passaram-lhe uma sentença de enforcamento. Obviamente protestámos contra essa decisão, porque ele era um homem inocente. Não tinham sequer um ponto por onde pegar. Nunca fez nada que pudesse ser considerado ilegal.

E é nessa linha de acontecimentos que é detido.

Sim, fui preso pela primeira vez há cerca de oito anos, depois de um protesto frente ao Parlamento. Estive preso um mês, e acabei por ser libertado depois de uns amigos pagarem uma fiança. Foi detido com mais quase 20 pessoas.

Nessa primeira experiência, como é que foi tratado?

Enviaram-nos para a prisão de Fashafuyeh, uma prisão grande e famosa no Irão. A prisão era muito selvagem. Não imaginas sequer que consigam meter um cão ou um gato num sítio daqueles. Quando fui para lá, estavam 15 mil presos. Nós dormíamos num corredor e nas escadas. Tínhamos de nos encostar uns aos outros para conseguir dormir. Dormíamos no chão. O mais pequeno protesto era recebido com violência e com murros. Num quarto de nove metros quadrados éramos quase 40 pessoas. Só na nossa ala estavam 400 presos. Partilhávamos a cela com assassinos, traficantes de droga. Não havia higiene. Não havia água quente para tomarmos banho. A água que passava pelos lavatórios e pelas sanitas era exatamente a mesma. Havia todo o tipo de insetos, de baratas a percevejos.

E nessa prisão estavam pessoas de todas as idades?

Sim. Havia um senhor com mais de 60 anos que todos os dias pedia aos guardas para o levarem ao médico. Um dia trouxeram os presos para fora para nos contarem, e esse senhor não apareceu. Foram ver e ele estava deitado ainda. Durante meia hora agrediram-no, dizendo para ele parar de brincadeiras, e para vir ser contado para o jardim. Até perceberem que ele estava morto. As pessoas mais fracas eram violadas na prisão. Tentaram violar um dos nossos, mas conseguimos felizmente protegê-lo e deixar que isso não acontecesse. Não restava nada de humanidade ali dentro.

No meio de todas essas vivências, ao ver tudo isso acontecer, sentia medo?

Os prisioneiros mais perigosos eram escolhidos para tomar conta dos prisioneiros. Obviamente que eles abusavam desse pouco poder que tinham. Obrigavam-nos a fazer tudo o que entendiam. E isso acabava por ser o catalisador de um ambiente extremamente selvagem. Por isso sim, vivia de facto com algum desconforto. Nós não devíamos estar sequer nessa prisão. Enviaram-nos de propósito para nos sentirmos mais afetados, por ser a pior prisão do Irão. Quando chegámos, tiraram-nos a roupa e deixaram-nos completamente nus em frente aos outros presos.

Mais tarde foi detido uma segunda vez. Porquê? E como é que conseguiu ser libertado?

Nessa segunda vez fomos 35 pessoas a fazer greve de fome. Os media deram de tal forma atenção àquela situação que a pressão acabou por ser tanta que nos deixaram sair. Houve uma altura em que nem sequer queríamos sair, porque percebemos que aquilo estava a ter um mediatismo gigante, que nunca tínhamos tido antes.

Na terceira detenção, a polícia bateu-lhe à porta?

À noite entraram-me em casa. Rebentaram a porta. Levaram toda a gente e tudo o que lá estava como computadores e telemóveis. A minha mulher e o meu filho não estavam em casa, mas estavam lá comigo mulheres e crianças. Tinha 13 convidados em casa. A maioria foi comigo para a prisão dos serviços secretos.

A polícia cortou as comunicações de toda a comunidade onde morava. Enfiaram barretes negros na cabeça de toda a gente, para não nos reconhecerem na rua. Fomos levados em carrinhas. Depois, na prisão, estávamos à espera de que nos agredissem, que nos esfaqueassem. Cheguei a ver a abrirem o ventre de um homem e a levarem-lhe os órgãos num lençol. Nessa vez estive em solitária. Achei as condições tão difíceis que preferia ficar na solitária do que com outros presos.

E explicaram-lhe porque é que foi detido pelos serviços secretos e foi para uma prisão dos serviços secretos?

Eles estavam vestidos à paisana, mas percebi que eram dos serviços secretos. Reconheci um dos indivíduos como um dos homens que tinha torturado o mestre do meu grupo espiritual. Houve pressão internacional para que fossemos libertados, e foi apresentada uma carta de juramento que dizia que não voltaríamos a praticar as atividades que nos levaram à prisão. Assinei a carta, saí e disseram-me: "Fica à espera, que a tua resposta vai ser dada de uma outra forma". Pedi muitas vezes para conhecer o meu processo, para perceber porque é tinham entrado na minha casa e me tinham detido. Disseram-me que era porque estava a influenciar negativamente as pessoas à minha volta. Claro que as autoridades não disseram a ninguém a verdadeira razão por que tínhamos sido detidos. Encontraram uma outra justificação. Que tínhamos sido detidos com bebidas alcoólicas, o que era inteiramente mentira. Porque se tivessem encontrado alguma coisa na minha casa teriam apresentado como prova.

E depois chegou a apresentar alguma queixa?

Fui ajudado por uma advogada de direitos humanos a construir uma queixa contra os serviços. Falei com o juiz depois de sair da prisão e disse que ia apresentar queixa. E o juiz disse que não valia a pena apresentar queixa porque cometeram um erro. E eu perguntei como é que era possível terem cometido um erro. Entraram na minha casa, destruíram a porta e detiveram-nos este tempo todo... Quis apresentar queixa com essa advogada, mas não a consegui levar para a frente porque quem avaliava a queixa era quem tinha, no fundo, praticado o crime.

E pode fazer mais alguma queixa para denunciar essa situação?

A partir desse momento passei a receber chamadas não identificadas que me ameaçavam e à minha família. Já antes, quando saí da prisão pela segunda vez, vi que tinham fechado o meu negócio. Nesse caso também tentei resolver o problema e apresentar queixa, porque tinha 20 pessoas a trabalhar na minha empresa, que dependiam daquele trabalho para sobreviver. Fui fazer queixa num serviço perto de uma esquadra, e vi passar um dos torturadores da prisão. Mandaram-me para uma sala, e vejo que está lá sentado esse senhor. Durante seis horas fui interrogado e torturado. Ameaçaram que me iam prender durante 15 anos. E disseram que iam acabar com a minha vida completamente. E eu respondi: "Nem que me cortem a cabeça. Não vou desistir".

As autoridades iranianas conheciam-no, estavam de olho nos protestos em que participava. Foi por isso que saiu do Irão?

Quando somos presos políticos temos duas opções. Ou ficamos completamente destruídos, ou saímos mais fortes. Eu ganhei muita resistência com as experiências na prisão. Fiquei com ainda mais ao ódio ao regime do Irão. E eu fui uma das pessoas que saiu ainda mais forte da prisão.

Até que sai do Irão com a sua família.

A minha mulher viva todos os dias com a dúvida se eu ia chegar a casa à noite ou não. Ela estava à espera de que algum dia eu não chegasse. Duas irmãs também deixaram de poder trabalhar por minha causa. Já não tinha qualidade de vida. Fomos obrigados a ir embora.

E vão para a Turquia.

Sim, vou com a mulher e o meu filho. Mas na Turquia não há qualquer segurança. Porque trabalham de forma muito próxima com o governo do Irão. Já não seria a primeira vez que uma pessoa era detida na Turquia e depois deportada para o Irão. Estar na Turquia ou no Irão é praticamente a mesma coisa.

Como é que conseguiu sair do Irão?

Tinha planeado passar pelas montanhas, com a ajuda de traficantes. Mas no último dia achei que era demasiado arriscado. Então decidi tentar passar pela fronteira e tentar que nos deixassem passar. E consegui. Mas depois a minha família no Irão começou imediatamente a receber ameaças para voltarmos ao Irão.

Mas pagou alguma coisa para conseguir passar na fronteira?

Não. Provavelmente não sabiam quem eu era. Arrisquei e correu bem.

Há quanto tempo é que foi para a Turquia? Como é que conseguiu sustentar a sua família?

Há cerca de quatro anos. Tive de começar do zero. Comecei a fazer arranjos, a fazer algum trabalho de compra e venda.

Até que decide vir para Portugal.

Com o passaporte iraniano não se pode ir para muitos países. Assim que cheguei à Turquia tentei candidatar-me ao Canadá, e depois também para a República Checa. Mas fui sempre rejeitado. À quarta tentativa consegui ter sucesso, e acabei por vir para Portugal.

Como é que Portugal apareceu como hipótese?

Investiguei bastante e cheguei à conclusão de que os portugueses têm sangue quente, são amigáveis. Pareceu-me que em Portugal não haveria um racismo tão grande como há noutros países da Europa. Pareceu-me um país seguro, o que me agradou. Só quero um lugar seguro para viver com a minha família.

O que é que teve de fazer para conseguir entrar de forma legal em Portugal?

Registei uma empresa, com a ajuda de um advogado. Consegui depois receber uma carta convite, e ser convidado para estar em Portugal de forma legal. Já consegui estender o visto turístico, mas não estou a conseguir trazer a minha família para Portugal. Investi sete mil euros numa empresa de comércio. Mas ainda não consegui trabalhar com a empresa porque não tenho o visto de residência. O advogado disse-me que pode demorar cerca de um ano e meio, depois de criar a empresa, para conseguir ter o visto. Assim pergunto: o que vou fazer até lá? Até abrir uma conta tem sido difícil. Tentei ir a vários bancos abrir uma conta. E todos os bancos me disseram que não abrem conta a pessoas do Irão. Andei três meses atrás de bancos a preencher formulários super grossos. Até à sede de um banco eu fui.

Até quando é válido o visto turístico?

Até ao dia sete de dezembro. Depois disso não sei o que será da minha vida. Eu quero candidatar-me ao visto de residência. E direcionam-me para a Embaixada do Irão, que é precisamente onde estão os inimigos e as pessoas que vão fazer de tudo para eu não o conseguir. Não imaginam o esforço que fizemos para nunca termos de pedir ajuda a um estado. Eu tenho uma especialização, consigo trabalhar. Não precisamos do estatuto de refugiado. Mas também como entrei de forma legal em Portugal não sei se agora me posso candidatar a esse estatuto. Se voltar à Turquia também vou ter uma situação complicada. Provavelmente o regime do Irão estará à minha espera. O meu filho está sempre a chorar. E a dizer à mãe que o pai foi embora e que ficou sozinho.

Qual é o apelo que quer deixar às autoridades portuguesas?

Gostava que entendessem que nunca cometi um crime, sempre trabalhei. O único ponto que me podem apontar é que sou contra o governo do Irão. Gostava que entendessem as nossas necessidades e qual é a nossa situação neste momento. Não vejo a minha mulher e o meu filho há quatro meses.

E eles querem vir para Portugal?

Muito, mesmo muito. E o que eu mais quero neste momento é tê-los aqui comigo.

O regime do Irão conhece-o. Ainda assim não tem medo de expor a sua história. Porquê?

Cada vez percebo mais o quão mal aquele regime é e a influência que tem em vários lugares do mundo. E isso dá-me ainda mais motivação para lutar. Continuo a lutar por aquilo em que acredito. O Irão é neste momento uma prisão gigante. O governo do Irão não é o povo do Irão. Estamos a ser castigados por aquilo que o nosso governo faz. O povo do Irão tem sangue quente, é hospitaleiro. As pessoas do Irão são pessoas de sangue quente. Adoram a paz. Este regime é que chegou ao Irão e destruiu o nosso país.

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