"O partido de extrema-direita é o Fidesz, que governa a Hungria"

A Hungria conhece este sábado, num processo inédito com seis partidos, o adversário de Viktor Orbán para primeiro-ministro. Decisão entre Carla Dobrev e Péter Márki-Zay. Entrevista com Kata Tutto, dirigente da oposição.

A Hungria saberá este sábado quem será o adversário de Viktor Orbán para o cargo de primeiro-ministro (Carla Dobrev ou Péter Márki-Zay), num processo inédito, que conheceu várias fases e envolveu os seis partidos da oposição. A decisão (após votação presencial e online) acontece depois de já se terem entendido quanto aos nomes que a oposição vai apresentar em cada um dos mais de cem círculos eleitorais do país. A TSF, no decorrer da 19.ª Semana Europeia das Regiões e Cidades, organizada pelo Comité Europeu das Regiões, ouviu Kata Tutto, vice-presidente da Câmara de Budapeste, governada pela oposição ao regime iliberal de Viktor Orbán, que governa o país.

"Estamos no meio deste processo, todos os partidos da oposição na Hungria que querem ter uma Hungria europeia, que acredita na anticorrupção e democracia, reuniram-se, formaram uma aliança e encontraram uma estrutura para escolher o candidato comum com o atual sistema de votação na Hungria, que muda a toda a hora. E essa estrutura foi fazer primárias. É a primeira vez na Hungria, até aqui só o tínhamos feito para a Câmara de Budapeste, há dois anos, e foi um sucesso. Nunca fizemos isto para eleições nacionais. E agora estamos a meio do processo. É uma eleição primária de duas voltas entre os seis partidos da oposição. Na Hungria, estamos a escolher 106 candidatos que serão membros do Parlamento. E aí vai ser escolha de um a um: um candidato apoiado pelo Fidesz, o outro apoiado pela oposição, e quem ganhar a maioria terá o poder de governar. Para já, temos já decidido quem vão ser os 106 candidatos da oposição. Agora, há a fase seguinte, que é escolher o candidato da oposição para primeiro-ministro. Tivemos a primeira volta e agora há uma segunda volta com apenas dois candidatos restantes. E isso vai acabar com a votação que está a acontecer todos os dias. É uma votação presencial e também uma votação online. E todo o húngaro que mora na Hungria tem o direito de votar online ou fisicamente. Fechamos as urnas este sábado e teremos os resultados no domingo. Agora temos dois candidatos.

Quem são?

Uma chama-se Clara Dobrev. Ela é membro do Parlamento Europeu. É vice-presidente do Parlamento Europeu...

Por que partido?

Ela pertence à Coligação Democrática, um dos partidos de esquerda. E o outro candidato não é de um partido. É autarca de uma das cidades do sudeste da Hungria. É Péter Márki-Zay, conservador independente, um candidato bastante novo, mas que é agora apoiado pelo presidente da Câmara de Budapeste e por ONGs e movimentos civis.

Mas não é delicado para os social-democratas e centro-esquerda ou centro, digamos, estar na coligação com um partido como o Jobbik, que vem da extrema-direita? Embora alguns dos seus líderes digam agora que mudaram e que têm um programa político novo...

O partido de extrema-direita da Hungria agora chama-se Fidesz e governa a Hungria, que vê e comunica que homossexualidade é o mesmo que pedofilia, que viola todas as regras da lei, que mina a democracia, estrangulando as autoridades locais. Portanto, agora o partido de extrema-direita da Hungria é o partido do governo. O Jobbik mudou a sua política e a maioria dos políticos do partido que não concordaram com isso agora são eleitores do Fidesz. Todos os partidos da oposição que formaram essa aliança concordaram que queremos que a Hungria permaneça na UE. Queremos a Hungria democrática. Acreditamos na transparência. Queremos combater a corrupção. E formámos juntos o programa que tem um pilar social muito forte e o Jobbik e todos os partidos que assinaram o acordo de coligação concordaram com os três pilares importantes que temos. Um é um pilar social. Outro é um pilar verde e o terceiro é um pilar democrático para reconstruir a democracia na Hungria. Todos os seis partidos concordaram com este programa. Portanto, todos os candidatos que escolhemos, e os húngaros escolheram os candidatos a nível local, todos concordaram que apoiariam este programa.

A Kata Tutto é do Partido Socialista, que venceu a Câmara de Budapeste há uns dois anos, numa coligação com os Verdes. Quais são os maiores desafios para uma cidade como Budapeste?

Como todas as grandes cidades, gostamos de enfrentar os grandes desafios de tornar as nossas cidades mais verdes e torná-las sustentáveis ​​e habitáveis, mas conhecemos o caminho porque todos assumimos os mesmos objetivos europeus em matéria de sustentabilidade. Mas a crise da Covid atravessou a maior parte dos nossos planos, porque uma das coisas mais importantes é a mobilidade na cidade. A habitação e a mobilidade. A mobilidade é muito importante quando se trata de metas climáticas. E tínhamos uma percentagem muito grande de transportes públicos, mais de 50% das pessoas usavam transportes públicos antes da pandemia. O que aconteceu foi que ninguém conhecia como a Covid se espalhava. Portanto, o nosso conceito de espaço seguro e segurança no transporte público é desafiado. Então perdemos muitas pessoas nos transportes públicos. Muitas pessoas voltaram para os seus carros. E este é um desafio que enfrentamos agora, tentar tornar os transportes públicos o mais seguros possível.

E nós fazemos isso com transportes gratuitos para crianças menores de 14 anos, porque o transporte público não deve ser apenas um bom serviço, mas deve ser acessível. Agora, na Hungria, em Budapeste, os transportes público são gratuitos para crianças menores de 14 anos e gratuitos para maiores de 65 anos. Assim, os grupos mais vulneráveis, famílias e idosos, podem usá-los gratuitamente. É importante e é uma coisa nova que adotámos. Portanto, os transportes são um dos principais desafios e, claro, a habitação a preços acessíveis. Todas as capitais estão a lidar com a questão da habitação a preços acessíveis. Portanto, construir novas casas, casas a preços acessíveis. É um grande desafio em Budapeste.

Em Budapeste e noutras partes da Hungria, qual é a situação das ONGs e organizações da sociedade civil?

Há anos que há uma caça às bruxas contra as ONGs. De todas as maneiras, o governo húngaro tenta matar as ONGs independentes e as ONGs deveriam ser sempre independentes do governo. Mas as únicas ONGs apoiadas são, de alguma forma, ligadas ao partido do governo ou ao governo. Vou dar-lhe um exemplo bom e facilmente compreensível. Os fundos noruegueses foram rejeitados pelo governo húngaro, entendeu que não usaríamos os fundos noruegueses porque parte dos fundos noruegueses vão para ONGs escolhidas através de um processo transparente, aberto e independente. Mas o governo húngaro não concordou com isso. O governo húngaro queria controlar quais as ONGs que recebem financiamento internacional.

E desistir desses fundos tem um impacto nas comunidades...

Absolutamente, sim, porque os fundos noruegueses eram uma espécie de último recurso das ONGs independentes do governo na Hungria. Muitas dessas ONGs fazem o trabalho que o governo e os políticos deveriam fazer, trabalho sobre a violência contra as mulheres, organizações ambientais, qualidade do ar,... Todas essas organizações estão a ser estranguladas. Todos os fundos internacionais são cortados. O governo húngaro diz que se trata de uma influência estrangeira na política interna húngara. E todo o financiamento do Estado com o dinheiro dos contribuintes vai para ONGs que dependem do governo.

Deixe-me voltar à coligação. Diria que, mais do que uma opção, essa coligação é uma necessidade devido às mudanças na lei eleitoral que obriga os partidos políticos a terem um candidato em todos círculos eleitorais do país para poderem concorrer?

Se quisermos que a Hungria permaneça na UE e quisermos ter democracia, a única maneira é formar uma coligação contra o Fidesz, é formarmos uma aliança para preservar a democracia. E esta é a única maneira.

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