O turismo está a quebrar o "coração" de Chernobyl? Até objetos radioativos desaparecem

"Coisas roubadas, vidros partidos, lixo deixado no chão...", desabafa alguém que há 6 anos entra com regularidade na zona de exclusão de Chernobyl. Estão a desaparecer "as memórias que as pessoas deixaram para trás".

"Para mim turismo não é Chernobyl", diz Ania Kot, uma jovem ucraniana, natural de uma vila perto da zona de exclusão que fica sem palavras quando vê fotos no Instagram de estrangeiros a posar como se estivessem em frente a uma praia ou a um monumento.

Chernobyl é hoje a maior atração internacional da Ucrânia e o novo presidente, Volodymyr Zelenski, já apresentou um projeto para trazer ainda mais turistas.

Lena Maslova, a guia que nos orienta por Chernobyl, sublinha que adora mostrar às pessoas aquilo que se passou aqui porque pode ajudar a perceber os erros do passado e a fazer com o Mundo fique mais seguro.

Por entre árvores e edifícios em ruínas da cidade abandonada à força por causa da radiação, Lena encaminha os estrangeiros, grande parte jovens que descobriram Chernobyl pelos livros da escola, mas sobretudo por uma série de televisão que ficou famosa ou de jogos de computador que retratam cenários catastróficos.

"Chernobyl hoje" é uma Reportagem TSF que pode ouvir esta quarta-feira depois das 19 horas na antena ou no site da TSF.

Na sala de uma velha escola há um cenário de centenas de máscaras no chão montado de propósito para as fotografias.

À porta do hospital Lena conta que "ainda há dias estava neste sítio uma peça de roupa dos bombeiros" que por ali andaram no ano do acidente na central nuclear.

Numa visita constantemente acompanhada pelos "bips bips" dos dosímetros alugados ou comprados pelos visitantes, muitos jovens turistas procuram repetidamente medir algo muito radioativo.

"Os objetos radioativos continuam a desaparecer. Não sabemos quem os leva...", lamenta (como se fosse um souvenir de férias), dizendo de seguida aos turistas que ainda podem medir a radiação forte no sítio onde estava aquela peça de roupa dos bombeiros.

A destruir o coração de Chernobyl?

Para Lucas Hixson, um americano que criou uma fundação para apoiar as pessoas (e cães) que ainda sofrem com o desastre, o turismo está a mudar Chernobyl. Há seis anos que visita regularmente a zona de exclusão e tem mesmo um livre passe para aí entrar sempre que precisa num dos vários projetos que desenvolve.

"Tenho visto nos últimos anos os efeitos do turismo na zona: coisas são roubadas; vidros são partidos; lixo é deixado no chão...", desabafa."Não sou contra o turismo na zona de exclusão", afirma Lucas, "mas quero turismo sustentável que permita que as pessoas levem para casa lições importantes sobre aquilo que aconteceu aqui. Sem medidas, em breve não existirá grande Chernobyl para ver. Está a quebrar o coração da zona de exclusão: as memórias que as pessoas deixaram para trás".

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