Silviane com filhas, sobrinhos,  mãe e tia, na sua casa em Chã das Caldeiras. Descascam feijão congo
Reportagem TSF

Sem medo da erupção, Ilha do Fogo diz que "o vulcão é nós amigo"

Em 2014, o vulcão da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, voltou a acordar. Foi a erupção mais destrutiva de sempre. Duas povoações desapareceram e mil pessoas perderam as suas casas e o seu sustento. Cinco anos depois, a TSF viajou até à ilha onde o vulcão não é temido, antes respeitado.

Silviane foi a primeira a ser evacuada, em Chã das Caldeiras. A filha mais velha tem cinco anos. Está sentada no chão de cimento, numa casa rudimentar e despojada. Quando a erupção começou, Rafaela estava quase a nascer. "As mulheres paridas e os velhos foram os primeiros a ser levados. Eu fui mesmo a primeira a sair. O barulho era enorme. [O vulcão] fazia pum!"

A vida já retomou o ritmo de sempre. Junto à mãe e uma tia, Silviane descasca feijão congo, que é verde e redondo como as ervilhas. As duas filhas - entretanto nasceu mais uma -, uma sobrinha e um sobrinho divertem-se no chão com as cascas. É o ganha-pão da família, como sublinha a avó. "Vamos vender a São Filipe, e lá compramos o que precisamos. Como arroz, massa, sal, fósforos..."

Chã das Caldeiras tem mil habitantes. Praticamente os mesmos que aqui viviam em 2014, quando o vulcão, que têm como vizinho, entrou em erupção. Silviane recorda o dia 23 de novembro como se fosse hoje. Viu lava pela primeira vez. Ficou aflita, mas não disse adeus. "Aqui é a minha vida. O vulcão é amigo de nós. Ainda bem que foi de dia. Eram dez horas da manhã, senão podia ter sido pior."

A destruição e a resiliência

Portela e Bangaeira foram as duas populações engolidas pela massa escaldante que escorregou pela terra durante mais de dois meses. Na casa de Sónia Vicente, a lava invadiu a sala de jantar. Ainda lá está em forma de dois montes negros enormes, como duas línguas de fora esculpidas pela Natureza. "A lava entrou pela porta e pela janela. Quando entrei fiquei assustada."

Com a lava sempre presente, no meio do ninho, Sónia Vicente educa as suas crias e recebe turistas para ganhar a vida. "Para mim, este é o lugar perfeito para viver e para criar os filhos. Se voltar a acontecer, dá tempo para fugir e levar as crianças."

A visita a Chã das Caldeiras decorre durante um festival literário na Ilha do Fogo. Germano Almeida, escritor, prémio Camões, é destaque no cartaz. Visita a casa de Sónia e abre a boca de espanto. "Eu não tinha coragem de viver cá. Parece um monstro. Uma coisa viva; mas as pessoas daqui são muito corajosas."

Germano Almeida salienta a resistência e a resiliência dos seus habitantes, ainda mais patente nesta terra. "Nós temos uma identidade única. Cada ilha tem a sua. Aqui, por causa do vulcão, é diferente."

Germano Almeida chegou pela mão de Fausto do Rosário, antigo professor de Sónia, a quem chama Zenita. O investigador da história de cultura desta ilha diz que os foguenses são emotivos, expansivos e generosos. Na última erupção, naquele domingo, que tão bem recorda, Fausto saiu disparado para ajudar os amigos e assim foi nos dias e semanas que se seguiram.

"Recordo sempre um episódio, no dia 8 de dezembro [2014], três semanas depois da erupção. Portela estava arrasada. Encontro um guia da Chã, com um fardo de palha às costas. Disse-me que era o que tinha e que tinha de continuar."

Para Sónia, Chã das Caldeiras representa um porto seguro. "O vulcão é nós amigo. É nosso deus protetor."

No pátio, as filhas, Mary e Davilene, observam e escutam tudo à sua volta com felicidade. "A paisagem é muito boa aqui. Não há poluição. Tem ar puro. É muito lindo." No meio da paisagem despida e escurecida pela lava, as crianças encontram muito cor. "Temos muitos amigos. Brincamos à escola, pintamos, desenhamos e saltamos à corda."

O vulcão é o epicentro da ilha do fogo, em Cabo Verde. O turismo é dependente dele, e a agricultura deve-lhe os terrenos férteis, que dão sinal de vida com manchas verdes, no meio da paisagem enegrecida. Ernesto e Jennifer agradecem ao vulcão, o meio de subsistência, que não largam por nada. "Nem pensar mudar daqui. Trabalhamos na agricultura. Plantamos tomate, feijão..."

O casal sobe a estrada de mão dada em ritmo de passeio. Com a mesma descontração lembram as duas erupções a que já assistiram. A mais recente, em 2014, e a anterior, em 1995. "Em 95, eu era pequeno. Em 2014 foi pior, mas não tenho medo do vulcão."

As marcas da última erupção

O vulcão da Ilha do Fogo derramou lava durante setenta e sete dias, que engoliu edifícios inteiros.A paisagem parece um deserto negro. Luís Pires era, em 2014, presidente da Câmara de São Filipe, o principal concelho da ilha. Aponta umas manchas brancas no meio da paisagem. "Aqui onde estamos é Portela, uma das povoações que ficou totalmente destruída. A lava engoliu tudo. Aqueles pontos brancos ali ao fundo são os tetos das casas que ali existiam. A lava atingiu cerca de 25 metros de altura."

O dia da erupção é inesquecível para os habitantes da Ilha do Fogo. Para João, o trabalho ficou suspenso. Guia turístico há 24 anos, viveu emoções contraditórias. "É lindo, mas é triste e ao mesmo tempo. Assistimos a lava a escorrer lentamente... O barulho era enorme."

No regresso ao trabalho, João encontrou um vazio."Foi como estar num deserto. Não havia nada. Mas depois de 2014 começaram a vir mais turistas." A ponte entre Cabo Verde e Portugal é histórica a vários níveis. Do poder central, ao poder local. Viseu e São Filipe são cidades geminadas.

Chamado a ajudar depois da última erupção, o autarca Almeida Henriques estendeu a mão, com um donativo. "Estou aqui a prestar contas aos meus munícipes. Em 2014, doámos dez mil euros para a reconstrução de casas."

Em Chã das Caldeiras, perto do vulcão, o presidente da Câmara Municipal de Viseu viu uma terra renascida. "Realço a resiliência deste povo. Eles dizem que está tudo bem. Mas recordo-me de aqui estar em 2013 e ali ao fundo haver uma feirinha. Regressei depois da erupção e agora novamente. Agora há vida."

Na Casa Marisa, o dia corre sem tempos mortos. O hotel, com vinte e dois quartos e cinco bungalows, está quase cheio. Afinal, novembro e dezembro são os melhores meses do ano. A proprietária, que dá nome ao estabelecimento, nunca desfaz o sorriso. Reergueu o negócio, menos de um ano depois da erupção. "Antes da erupção eu tinha duas pensões. Não desisti. A minha vida está aqui. Eu tenho de continuar a viver e não havia muita coisa."

Voltou a arregaçar as mangas para abrir a nova Casa Marisa. Nascida e criada em Chã das Caldeiras não se imagina noutra terra. "É o vulcão que nos dá fora para continuar. Chorei muitas vezes, mas para crescer temos de chorar".

A Ilha do Fogo tem três concelhos. O mais relevante é São Filipe, que fica a cerca de uma hora de viagem de Chã das Caldeiras. O dia da erupção, também ali, foi vivido com muita intensidade. Luís Pires presidia a autarquia. "Naquele dia fiz o percurso até Chã das Caldeiras em 37 minutos, quando habitualmente demoro cerca de uma hora. Mobilizamo-nos rapidamente e encontramos um povo muito tranquilo, com uma resistência. Vieram voluntários da ilha toda."

Notícias da época relatam habitantes desiludidos com o poder político, e abandonados no realojamento. Lucas Alves, vice-presidente da câmara de São Filipe, diz que nem tudo foi perfeito, mas apoio não faltou. "Muitas pessoas ajudaram e foram distribuídos apoios e bens, mas admito que quanto ao realojamento possam ter algumas queixas."

Um centro, instalado na Cidade da Praia, monitoriza toda a atividade do vulcão no pico do Fogo. Na ilha, o Serviço Regional de Proteção Civil tem um plano de emergência, em parceria com as autoridades locais. Na erupção de 2014, a lava não extravasou o território de Chã das Caldeiras... Mas foi a mais destrutiva de sempre. Os prejuízos rondaram os 50 milhões de euros, porém o vulcão nunca roubou uma vida.

"Há uma relação intrínseca. Não é por acaso que as pessoas dizem que o vulcão é amigo e não um inimigo. No crioulo do Fogo há quem diga sempre que o vulcão não matou ninguém. Não há uma única morte até agora."

A Ilha do Fogo

Cabo Verde tem perto de meio milhão de habitantes. Na Ilha do Fogo, São Filipe é, de longe, o concelho mais populoso, com 20 mil pessoas. Apesar desta ordem de grandeza, a cidade vive a um ritmo calmo. Tem comércio em várias ruas, mercado de frutas e legumes, e vendas nos passeios.

No centro, Agnelo Vieira de Andrade gere um negócio que está na família há três gerações. O café "Djarfogo" é 100% arábico, e, em tempos, foi considerado o melhor do Império. Agnelo, que é responsável pela torrefação, faz vida entre Cabo Verde e Portugal. Calhou estar no seu país, na sua ilha, em 2014, ocupado com a construção de uma casa nova. Foi um operário quem lhe deu o alerta.

"O homem grande entrou em erupção! O homem grande ferveu!"

O vulcão é o motor do Turismo na Ilha do Fogo. Vincent Jorgensen prepara manhã cedo, uma iniciativa do festival literário Morabeza, à porta do hotel que abriu há 12 anos, e confessa que gostava que a ilha estive ao alcance de mais turistas. "A ilha tem muita procura. O problema são as ligações entre ilhas. Tinha de haver, por exemplo, um voo entre a Ilha do Sal e a Ilha do Fogo."

Vincent é dinamarquês. Em meados dos anos 90 mudou-se para a ilha do Fogo. Aqui casou e construiu família com Luísa, uma foguense de gema. Pensou desistir muitas vezes, mas não há lugares perfeitos no mundo, diz que o ambiente calmo desta terra vale ouro e sempre vai conhecendo turistas de várias paragens, sobretudo alemães e franceses.

Abraão Vicente, ministro da Cultura de Cabo Verde e anfitrião do Morabeza, é adepto da descentralização. Foi ideia sua trazer um festival literário à Ilha do Fogo, que tem muito a explorar, para além do vulcão. "A Ilha do Fogo tem um vulcão ativo, tem uma imponência geológica, ecoturismo, turismo gastronómico. Combinada com outras ilhas pode formar um bom roteiro. É, também, uma alternativa aos destinos de praia."

No Hotel Colonial, Luísa conta que deu aulas, vendeu peixe e flores. Agora gere, com o marido, dois hotéis, um restaurante, uma agência de viagens e uma agropecuária. Natural do Fogo, lamenta não ter ainda o retorno esperado, por ter muitas barreiras para ultrapassar, como a falta de recursos humanos com formação específica. Apesar de a ilha ter muitos e bons produtos, como vinho, carne, enchidos, ervas aromáticas e fruta, Luísa é obrigada a recorrer, e muito a produtos importados sem grandes estruturas. "Eu tenho de comprar a mercadoria para o hotel num supermercado. Não existe uma política para a restauração e hotelaria. Não temos um centro de compras."

Carla Cossu é italiana. Veio para a Ilha do Fogo há dez anos para coordenar o trabalho da Cospe, uma organização não-governamental. "Como vim de uma ilha, quando aterrei, senti-me em casa. A primeira emoção forte foi quando cheguei a Chã das Caldeiras, antes da erupção."

A equipa de Carla Cossu apoia a população do Fogo a tirar partido dos recursos que têm, por exemplo na agricultura ou no turismo sustentável. Só nos últimos dois projetos foram aplicados 120 mil euros, oriundos de fundos da União Europeia. Em abril do próximo ano, Carla Cossu vai abandonar a coordenação da ONG. Mas não se sente preparada para abandonar a Ilha do Fogo e a sua morabeza.

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