Ocultação de crime em Angola? Familiares de mortos em Cafunfo denunciam furto de 20 corpos de morgue

Alguns familiares de manifestantes mortos no sábado, durante um protesto em Cafunfo, denunciam que terá havido corpos lançados ao rio Cuango, para ocultar a extensão da ação policial.

Os corpos de 20 pessoas, mortas em Cafunfo, Lunda Norte, em Angola, terão sido retirados da morgue e atirados ao rio, de acordo com familiares dos manifestantes, citados pela rádio Voz da América. O presidente do Movimento do Protetorado Lunda Tchokwe adianta que terão desaparecido 20 corpos da casa mortuária durante a noite de domingo para segunda-feira, os quais terão sido também depois depositados no rio Cuango.

Tratar-se-á de manifestantes que morreram desde sábado, quando foi registado um "ato de rebelião", com a participação de um grupo ligado ao Protetorado Lunda Tchokwe. A polícia alega que respondeu ao ataque a uma esquadra e determinou a instauração de um inquérito para identificar os autores do "atentado ao poder instituído".

Mas há, desde essa data, 30 de janeiro, números contraditórios de mortes nos vários relatos recolhidos. Quando a notícia foi divulgada, o saldo de óbitos situava-se nos quatro, depois passou para sete, entre os quais efetivos das forças da defesa e segurança, de acordo com os dados divulgados pelas autoridades angolanas. Mais tarde, o líder do movimento apontou para 15 mortos durante a manifestação na vila mineira de Cafunfo-Cuango.

Já a Amnistia Internacional, em comunicado enviado à TSF, menciona a morte de pelo menos dez pessoas após a atuação das forças angolanas na localidade angolana. O organismo internacional "pode confirmar que, desde 30 de janeiro, as forças de segurança angolanas mataram pelo menos dez pessoas", escreve, no comunicado, Muleya Mwananyanda, diretora-adjunta para a África Austral da Amnistia Internacional.

Na perspetiva da Amnistia Internacional, as autoridades têm vindo a "perseguir manifestantes pacíficos cujo único 'crime' tem sido contestar as condições de vida deploráveis". A Amnistia não hesita também em esclarecer que o número de óbitos poderá ser superior, dados os desaparecimentos de "muitos manifestantes".

A denúncia presidente do Movimento do Protetorado Lunda Tchokwe à rádio Voz América vem adensar as dúvidas. José Mateus Zecamutchima afirma que o desaparecimento dos corpos está a ser interpretado pela população local como uma manobra das autoridades para estabilizar o número em sete mortes, como foi anunciado oficialmente, e atrapalhar as investigações.

O ativista refere que "os feridos graves que se encontravam no Hospital de Cafunfo foram retirados e enviados num avião para o Dundo".

A Igreja Católica angolana denunciou na segunda-feira o que diz ser um "grave massacre" em Cafunfo. Também a Human Rights Watch (HRW) para Angola se posicionou e declarou haver indícios "claros" de abusos policiais em resposta à manifestação de sábado. A HRW pediu mesmo uma "investigação urgente" e "séria" por parte das autoridades de Luanda.

A história completa ainda é um quebra-cabeças para as organizações ativistas de defesa de direitos humanos, que ainda tentam apurar o que aconteceu em Cafunfo. Algumas imagens obtidas momentos após o tiroteio "mostram algumas irregularidades no comportamento da polícia", contou Zenaida Machado, da HRW, em declarações à agência Lusa. Os registos contradizem a versão oficial que aponta para uma tentativa de invasão à esquadra do Cafunfo às primeiras horas da manhã, que terá sido imediatamente controlada , com a detenção de várias pessoas.

A Human Rights Watch detetou, nas imagens, "pessoas ainda deitadas no chão", e um número de imobilizados "muito superior ao número de mortos que a polícia diz".

"Vê-se claramente um membro das forças de defesa e segurança de Angola, que se pressupõe que seja o líder do grupo que estava a controlar a manifestação, a abusar de alguém que não representava nenhum perigo", relatou Zenaida Machado à Lusa, declarações que expõem o "excesso de força por parte das forças de defesa e segurança" e "uma forma irregular de tratar pessoas que não demonstram nenhum perigo". A aparência de pessoas desarmadas, sem oferecer resistência, leva a organização a exortar o Governo angolano a investigar o que aconteceu e a criticar a falta de ação do Presidente João Lourenço.

Apesar das promessas de mudança, vinca Zenaida Machado, o chefe de Estado de Angola continuará a "ter uma força de defesa de segurança indisciplinada, que deliberadamente insiste em não respeitar a Constituição da República de Angola e os direitos dos cidadãos".

O Protetorado da Lunda Tchokwe é um movimento que luta pela autonomia da região das Lundas, no Leste-Norte de Angola. Trata-se de uma região onde abundam os diamantes e que é reivindicada pelo movimento com base no Acordo de Protetorado, celebrado entre nativos Lunda-Tchokwe e Portugal, nos anos 1885 e 1894. O documento daria ao território um estatuto internacionalmente reconhecido. Portugal teria ignorado a condição do Reino quando negociou a independência de Angola, entre 1974/1975, apenas com os movimentos da libertação, ignorando o movimento, alegam os defensores do Protetorado.

A polícia continua a defender que os manifestantes pretendiam, com as armas que possuíam, causar baixas ao efetivo das Forças de Defesa e Segurança, e que terão mesmo provocado ferimentos a dois oficiais, dos quais um da Polícia Nacional e outro das Forças Armadas Angolanas (FAA), bem como a vandalização de uma viatura estacionada no perímetro. Mas vários grupos defensores dos direitos humanos, bem como a oposição, fazem menção a um movimento social de pressão, que pretende atingir melhores condições de vida para a população de Luanda.

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