ONU alerta que petroleiro abandonado no Mar Vermelho está em risco de rutura

Ferrugem cobriu partes do tanque e o gás inerte que impede os tanques de absorverem gases inflamáveis soltou-se.

A ONU alertou que um petroleiro abandonado na costa do Iémen, carregado com mais de um milhão de barris de petróleo, está em risco de rutura ou explosão, causando grandes danos ambientais no Mar Vermelho.

Os rebeldes Huthis, que controlam a área onde o navio está atracado, negaram o acesso dos inspetores da ONU ao navio, refere a agência de notícias Associated Press, adiantando ter tido acesso a documentos que mostram que a água do mar entrou no compartimento do motor do navio-tanque, causando danos aos oleodutos e aumentando o risco de naufrágio.

Segundo a mesma fonte, a ferrugem cobriu partes do tanque e o gás inerte que impede os tanques de absorverem gases inflamáveis soltou-se.

"Especialistas dizem que os danos no navio são irreversíveis", afirma a AP.

A ONU tem tentado, nos últimos anos, enviar inspetores para avaliar os danos a bordo do navio, conhecido como FSO Safre, e procurar maneiras de proteger o tanque, descarregando o petróleo, e puxar o navio para local seguro.

Mas um diplomata europeu, um funcionário do governo iemenita e o proprietário da empresa petrolífera - que falaram com a AP sob condição de manterem o anonimato - disseram que os rebeldes Huthis não permitem a retirada do navio.

Segundo a AP, o diplomata explicou que os rebeldes estão a usar o navio como uma "arma dissuasora, uma espécie de arma nuclear".

"Eles [os Huthis] dizem abertamente à ONU: 'Gostamos de ter isto para ter alguma coisa contra a comunidade internacional se formos atacados'", referiu o diplomata citado pela AP.

Inicialmente, acrescentou, os Huthis exigiram milhões de dólares em troca do petróleo armazenado no navio-tanque.

A ONU está a tentar chegar a um acordo para que o dinheiro possa ser usado para pagar trabalhadores e funcionários dos portos do Mar Vermelho no Iémen, adiantou a mesma fonte.

Alguns especialistas, no entanto, criticam os Huthis e a ONU por não darem importância à magnitude da crise.

Ian Ralby, fundador da I.R.Consilium, especialista em segurança marítima e recursos marinhos, disse à AP que os esforços da ONU para enviar uma equipa para avaliar o navio são "inúteis".

"O que o navio precisa é de uma equipa de resgate", defendeu.

"É uma pena que tenham perdido tanto dinheiro e tempo nesta operação inútil", disse Ralby, acrescentando que se se "está há anos a tentar que uma equipa faça uma simples avaliação, não haverá uma segunda hipótese para conseguir fazer o resgate".

Ralby, que escreveu extensamente sobre o navio-tanque, disse à AP que o valor gasto na limpeza dos danos ambientais causados por uma explosão ou derrame será muito superior aos milhões de dólares em petróleo que está no navio.

Mas os Huthis recusam-se a desistir das suas exigências.

Mohammed Ali al-Houthi, líder do grupo rebelde, culpou os Estados Unidos e os sauditas por não deixarem os rebeldes venderem o petróleo, dizendo, numa mensagem divulgada no Twitter em 18 de junho, que quaisquer "consequências desastrosas ... que Deus permita que não aconteçam" que possam resultar do colapso do navio serão responsabilidade desses dois países.

Os rebeldes Huthis, apoiados pelo Irão, controlam os portos ocidentais do Mar Vermelho, incluindo Ras Issa, a seis quilómetros do local onde o navio FSO Safer está atracado desde os anos 80.

Os Huthis estão em guerra com o Governo do Iémen reconhecido internacionalmente, que é apoiado por uma coligação liderada pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos.

O navio-tanque foi construído no Japão, na década de 1970, e vendido ao governo do Iémen na década de 1980 para armazenar e exportar até três milhões de barris bombeados dos campos de petróleo de Marib, uma província no leste do país.

O navio tem 36 metros de comprimento e 34 tanques de armazenamento.

Um alto funcionário da companhia estatal que geria o navio-tanque disse que, devido à redução do orçamento operacional, que costumava atingir 20 milhões de dólares por ano antes da guerra, a empresa deixou de ter capacidade para comprar o combustível necessário para abastecer as caldeiras no navio.

As caldeiras são necessárias para pôr a funcionar geradores que, entre outras coisas, mantêm um gás inerte que evita o fluxo de explosões.

O navio-tanque precisa de 11.000 toneladas de combustível, que custam cerca de oito milhões de dólares por ano.

"Após a paralisação das caldeiras, a grande maioria dos equipamentos e das máquinas do navio-tanque parou, incluindo o sistema de ventilação que reduz a humidade e evita a corrosão", explicou.

Desde 2015, a manutenção anual do navio parou completamente e a maioria dos tripulantes, com exceção de 10 pessoas, foi retirada do navio, quando a coligação liderada pela Arábia Saudita impôs um embargo terrestre, marítimo e aéreo para desalojar os rebeldes huthis de várias áreas do Iémen, incluindo da capital Sanaa.

A guerra civil no Iémen causou a destruição maciça da maioria das áreas sob controlo dos Huthis cresceram os temores de que uma bala perdida atinja o navio-tanque e cause uma explosão ou o derrame do petróleo no Mar Vermelho.

O alto funcionário da empresa estatal responsável pelo navio-tanque pediu ajuda à comunidade internacional, alegando que um derrame daquela dimensão na costa do Iémen pode constituir um desastre humanitário.

"O desastre pode acontecer a qualquer momento", alertou, defendendo ser necessário "salvar o Iémen de um desastre terrível e iminente que aumentará o sofrimento do Iémen durante dezenas de anos e privará milhares da sua sobrevivência, além de matar a vida marinha do mar Vermelho".

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