Oriane e a "utopia" de um "castelo de terra" no Brasil. "A gente quer viver sem dinheiro"
Internacional

Oriane e a "utopia" de um "castelo de terra" no Brasil. "A gente quer viver sem dinheiro"

Oriane Descout é uma realizadora de cinema que resolveu abandonar Paris, onde vivia, para se aventurar num estilo de vida autossustentável, no meio da floresta, onde quer construir uma "utopia".

No princípio, "era a ideia social, a ideia de comunidade, de fazer e criar juntos, para sermos autónomos, de construir as próprias ferramentas e as próprias casas, e não depender tanto da indústria e do capital". Havia céus e a terra, e mãos para a trabalhar. Oriane Descout, francesa, então com 27 anos, encontrou terreno fértil para a "utopia" num terreno escarpado onde se edificaria uma ecovila, na periferia de Minas Gerais, em plena floresta do sudeste brasileiro.

Periferia é, na significância brasileira, uma palavra com o peso da dificuldade no acesso às condições que cabem aos bairros nobres das grandes cidades. Oriane Descout, que procurava manter-se nos subúrbios das lutas urbanas, anteriormente vividas em Paris, compreendeu que há muito combate patente no ato do distanciamento. Em sete anos, a realidade do país tropical impeliu-a cada vez mais a viver longe das desigualdades do capitalismo, mas concluiu que a realidade, mais tarde ou mais cedo, encontra a utopia. "Antes tínhamos uma ideia de utopia fora do mundo. Mas o mundo político do Brasil fez-se mais presente. Houve um golpe contra a Presidente Dilma, que foi eleita democraticamente. Quando lutamos por uma justiça social, por uma reforma agrária e saúde pública, as reformas políticas afetam as nossas lutas." O que Oriane Descout conta à TSF é um caminho de estradas sinuosas, plasmado em "Castelo de Terra", um documentário sobre as ideias de autogestão, sustentabilidade e autossuficiência que se instalaram com ela numa ecovila no interior rural do Brasil.

Formada em cinema e direção de fotografia, Oriane Descout vinha da cidade das luzes. Depois de se formar, fez ainda um intercâmbio na Nova Zelândia e na Austrália, e voluntariado em "fazendas" orgânicas, através de um programa de voluntariado em rede, o Wwoof. "A gente trabalhava em fazendas, em troca de comida e alojamento, e foi assim que eu vim para o Brasil", rememora. "Aos poucos, fui descobrindo esta atração pela floresta e pela natureza, pelos animais, pelas plantas. Ainda estou a descobrir, porque esta não era a minha natureza de moradora da cidade."

Quando a realizadora morava em Paris, "cada um vivia no seu espaço pequenino" e todos pagavam "muito, porque as rendas são muito altas". Agora, Oriane Descout olha para trás para saudar a decisão que tomou: "As lutas urbanas são outras lutas. Na roça, você planta uma semente e, passados uns meses, temos uma fruta para comer, um legume para colher. As coisas concretizam-se muito mais rápido, mesmo que às vezes pareça que é devagar."

"Em 2012, eu vim para o Brasil, conheci o meu marido, apaixonei-me e resolvi ficar aqui." Em sete anos passou-se uma vida e gerou-se vida. Anahi nasceu há nove meses, abraçada no meio da floresta por Oriane e Marreco, mais dois casais e duas crianças, que vivem em comunhão num lugar "bom para se viver". Oriane Descout, agora mãe, continua a falar do lugar com esperança e fascínio. "É um sítio coletivo, que comprámos com outras pessoas, e fica no meio da floresta, na mata atlântica, o bioma de Minas Gerais. É no meio das montanhas, com muita floresta, muita água."

O terreno de quatro hectares é partilhado com mais dois casais, cada um com um filho, e haverá novos vizinhos em breve, já que um casal amigo comprou terras limítrofes, para se mudar para o lugar. A ideia não é criar um projeto "egoísta", garante Oriane Descout, mas "agregar mais gente" a esta forma de viver. "O nosso objetivo é criar uma comunidade de vida com outras famílias em volta, mas ainda estamos no início do projeto. Não queremos que a nossa filha seja criada sozinha."

"É uma utopia ainda, ainda não a criámos. Estamos numa certa luta. Não queremos uma solução só para nós, queremos poder agregar outras pessoas." Oriane e Marreco vivem num "castelo de terra", que é e não é mais do que uma casa de barro construída a várias mãos, que oferece o "conforto básico" e uma paisagem mais verdejante do que os jardins mais exuberantes das casas citadinas mais ricas. Às vezes, o castelo "precisa de uma reforma", mas não é preciso deslocarem-se à cidade para terem os materiais de que precisam, realça a cineasta francesa, com palavras portuguesas embrulhadas num musicado sotaque do Brasil. "A gente quer viver sem dinheiro, o objetivo é esse. Mas, para já, o que queremos é que o dinheiro seja representativo de algo concreto. Não queremos ganhar dinheiro para investimentos nem por rendimento do capital, queremos que o dinheiro seja uma ferramenta de troca."

Na ecovila pretende-se que a autossuficiência supere o isolamento. "A gente viu que o capitalismo, para muitas coisas que a gente busca, não está funcionando. A gente quer justiça social, a gente quer reproduzir as nossas sementes, comer comida saudável, e o capitalismo não nos permite isso porque nos deixa numa competição constante: tem de ser tudo o mais barato possível, sem respeitar o trabalho das pessoas. O capitalismo não deixa que haja o tempo de as coisas acontecerem."

Apesar das dificuldades, Oriane Descout acredita que é preciso muito pouco para se viver bem. "Estamos a tentar criar uma alternativa real",afirma, sete anos volvidos. "A gente está um pouco isolada, mas buscamos ter relação com a sociedade. Vamos à cidade por vezes. Aqui, onde acabámos por comprar o terreno, há uma faculdade federal de Ecologia." A realizadora não quer terras vazias nem abismos sociais, almeja que a ecovila onde vive simbolize a cooperação e a mudança que quer ver no mundo, e, por isso, não se abstém de fazer parte de grupos, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e de outros coletivos de mulheres, de indígenas e de negros no município e na região.

O acesso aos centros urbanos ainda é uma pedra no caminho, mas Oriane Descout afasta-a com tenacidade. "Vivemos no topo do morro, então, quando chove, o lugar fica cheio de barro. Às vezes a gente fica um pouco isolada, e, quando queremos sair, não podemos porque o acesso está restrito. É o preço a pagar por vivermos de forma mais tranquila."

Aos poucos, a vida vai ganhando forma e cobrindo de luz os dias como as terras de vegetação próspera. Os amigos instalaram internet ao fim de alguns anos e isso "fez toda a diferença".

"Durante alguns anos não tínhamos luz nem internet", lembra a realizadora, que reconhece o que ainda falta alcançar. A ecovila ainda não é totalmente autossuficientes porque "há coisas que não é possível cultivar no sítio", como o trigo e as lentilhas, que os vizinhos vão cedendo.

"Plantamos arroz, mas não temos trigo nem lentilhas, mas os nossos vizinhos têm." É num castelo de terra que Oriane e Marreco querem criar a filha, Anahi, ainda bebé de colo. Temem apenas a distância às escolas, uma questão a que um dia terão de dar resposta, mas viver na floresta é para já um bálsamo para a menina, sustenta Oriane Descout: "Tem muitas atividades para fazer, não é preciso inventar muito. Só brincar na terra, com água, e fazer caminhadas são atividades extraordinárias."

"Castelo de Terra" é um filme que conta a longa jornada de sete anos registados pela realizadora no seu novo estilo de vida: rural, coletivo, autogerido, anticapitalista, sustentável e ecológico. O documentário estará em exibição no Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, a partir de 10 de outubro e até 17 de outubro, em Seia.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de