Pablo Iglesias sai do Governo para se candidatar a Madrid e dá início à sucessão no Podemos

Yolanda Díaz, ministra do Trabalho, será a próxima vice-presidente e a mais que provável líder do partido.

Nada fazia prever o volte face que está a viver a política espanhola. Pablo Iglesias, líder do Podemos, vice-presidente do Governo de Sánchez e ministro dos Assuntos Sociais, abandona o Executivo para competir pelo governo regional de Madrid

"Vou candidatar-me às eleições na Comunidade de Madrid. Um militante tem de estar onde é mais útil em cada momento. Madrid está neste momento num enorme risco de que haja um Governo de extrema-direita com Ayuso e com o Vox", disse o ainda vice-presidente num vídeo publicado nas redes sociais. "Vou empregar toda a minha energia na construção de uma candidatura de esquerda forte e ampla, para ganhar o governo da Comunidade de Madrid", explicou.

A bomba rebentou durante a manhã desta segunda-feira, e seupreendeu o próprio Pedro Sánchez, que soube da decisão apenas minutos antes de ser anunciada.

Em Madrid, Iglesias pretende voltar a unir a esquerda mais à esquerda do PSOE e arrebatar o governo da Comunidade ao Partido Popular, que governa a região desde 1995. Iglesias queria uma candidatura conjunta com o Mais Madrid, partido de Iñigo Errejón que rompeu com o Podemos em 2019, mas sendo o cabeça de lista, algo que o partido de Errejón já recusou.

Mónica García, candidata do Mais Madrid e a cara mais visível da oposição ao Governo de Díaz Ayuso, principalmente desde que começou a pandemia, disse esta terça-feira que vai ser a candidata, num vídeo com muitos dardos ao líder do Podemos. "As mulheres estão fartas de fazer o trabalho sujo para que, nos momentos históricos, lhes peçam que se afastem. Somos perfeitamente capazes de travar a extrema direita, sem precisar da tutela de ninguém", disse.

Nas últimas eleições em Madrid, Podemos sofreu uma hecatombe que o deixou com apenas 7 deputados, contra aos 20 que conseguiu o Mais Madrid. Iglesias esperava liderar a candidatura mas este passo em frente de Mónica García empurra-o a ser o número dois ou a apresentar a candidatura por separado e voltar a fragmentar a esquerda.

Confrontada com a decisão de Iglesias, Isabel Ayuso, presidente da Comunidade e candidata pelos populares, optou pelo tom jocoso: "Agora vou mudar o lema de campanha, que vai passar a ser comunismo ou liberdade. Mas isso sim, Espanha fica-me a dever uma, porque tirámos o Pablo Iglesias da Moncloa".

Sucessão no Podemos

Iglesias sai do Governo de forma inesperada e abre a porta à sucessão no próprio partido. Para o seu lugar de vice-presidente o político propôs a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, uma das mais valorizadas do Governo, e um nome que deverá ser aceite por Pedro Sánchez, como o próprio reconheceu.

"Yolanda Díaz conta com todo o meu apoio. Tem feito um trabalho extraordinário no Ministério do Trabalho e por quem tenho o maior apreço", disse o primeiro ministro. "Sou uma pessoa que cumpre os acordos da coligação de Governo e, neles, o Podemos tem uma vice-presidência e cinco ministérios e essa proporção vai ser mantida".

Mais difícil encaixe tem a proposta de Iglesias para ocupar o ministério dos Assuntos Sociais. Ione Belarra, actual secretaria de Estado para a Agenda 2030, é a escolha de Iglesias, mas Pedro Sánchez ainda não se pronunciou. Belarra tem uma relação difícil com os membros do Governo do PSOE, principalmente com a ministra da Defesa, Margarita Robles, a quem acusou por diversas vezes de ser a "preferida da direita".

Se tudo sair de acordo com o previsto, Yolanda Díaz será a mais que provável líder do Podemos e candidata às próximas legislativas. Umas eleições que estão marcadas para 2023 mas que Sánchez poderia estar a pensar antecipar para 2022 aproveitando o impacto do final da pandemia e a retoma económica.

"Acho que verbalizo o que sentem milhões de pessoas de esquerda em Espanha, quando digo que Yolanda Díaz pode ser a primeira mulher no cargo de primeiro ministro em Espanha", disse Iglesias no mesmo vídeo onde anunciou a saída do Governo.

Menos tensão no Executivo

A saída de Iglesias alivia também grande parte da tensão dentro do Executivo. As relações entre as duas formações têm sido muito complicadas e, em várias ocasiões, Iglesias não se coibiu de criticar a atuação dos seus colegas de Governo ou de proferir declarações incómodas para o Executivo, chegando a fazer oposição dentro do próprio Governo.

Além disso, a relação com Pedro Sánchez sempre esteve pautada por doses de desconfiança de parte a parte. Em 2019, depois das eleições legislativas, Pablo Iglesias acusou Sánchez de lhe ter mentido, ao recusar uma coligação até ao último momento. O braço de ferro entre os dois levou o Podemos a recusar a oferta de quatro ministérios que consideravam menores e obrigou à repetição eleitoral. Os dois só chegariam a acordo depois de umas segundas legislativas que demonstraram o cansaço da população e não mudaram o tabuleiro político.

A partir daqui a relação no Governo sempre foi difícil sobretudo em temas como a Monarquia e a Catalunha. Os escândalos dentro da Casa Real espanhola, onde o Rei Emérito está a ser investigado por fraude fiscal e corrupção, têm enfrentado os dois partidos. O Podemos pede sucessivamente a criação de uma comissão de investigação no Congresso e avança a possibilidade de um referendo e o PSOE defende a instituição sem reservas.

O conflito catalão - com Iglesias a chamar "exilado" a Carles Puigdemont e Sánchez a recordar que se trata de um "foragido da justiça" - também tem complicado a vida ao Executivo.

Eleições a 4 de maio

As eleições em Madrid estão marcadas para o próximo 4 de maio e a candidatura de Iglesias vem polarizar ainda mais um ambiente já muito crispado. Tanto Díaz Ayuso como Iglesias transformaram a votação num duelo entre os dois. Se de um lado se diz "comunismo ou liberdade", do outro, o lema é "fascismo ou democracia".

A proximidade do Partido Popular como partido de extrema-direita, Vox, que apoia o governo tanto na Comunidade como na Câmara de Madrid, tem centrado as críticas da esquerda. O movimento de Iglesias pode ajudar a concentrar o voto útil da direita no partido popular e esvaziar a extrema-direita.

As eleições em Madrid foram antecipadas na semana passada. Díaz Ayuso rompeu o acordo de Governo com o Ciudadanos, quem quem estava coligada, depois dos liberais terem apresentado uma moção de censura contra os populares na Região de Múrcia.

A jogada provocou um terremoto político que se estendeu a Madrid. No próximo 4 de Maio se saberá se o plano de Iglesias funciona e a esquerda consegue governar na região 26 anos depois

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