Pandemia agravou problemas estruturais em favelas do Rio de Janeiro

Mais de metade (54%) da população residente nas favelas perdeu o emprego durante a pandemia do coronavírus. Além disso, um levantamento mostrou que 63% dos habitantes dessas comunidades ficaram sem água no período mais crítico da pandemia.

A pandemia de Covid-19 agravou problemas estruturais em favelas do Rio de Janeiro, como racismo, desemprego e desigualdades sociais, com a população negra a ser a mais afetada, segundo um estudo divulgado na terça-feira.

Os dados integram o estudo "Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras", realizado pelo Coletivo Movimentos e que analisou os impactos da pandemia no Complexo do Alemão, Complexo da Maré e Cidade de Deus, algumas das maiores favelas do Estado brasileiro do Rio de Janeiro.

Entre as principais conclusões do levantamento, que ouviu 955 pessoas entre setembro e outubro do ano passado, está o facto de mais de metade (54%) da população residente nessas favelas ter perdido o emprego durante a pandemia do coronavírus.

O estudo destacou que, das pessoas que mantiveram os seus postos de trabalho, 34% são profissionais liberais ou estão em trabalhos informais (sem contrato). Apenas 26% dos entrevistados afirmaram possuir contrato de trabalho.

Segundo os dados apresentados, 30% dos trabalhadores com contrato de trabalho que perderam emprego eram negros.

O estudo apontou também que 69% dos moradores presenciaram ou souberam de operações policiais nessas três comunidades durante a pandemia, mesmo com a decisão do Supremo Tribunal Federal de proibir operações policiais em favelas nesse período.

As operações policiais vêm sendo duramente criticadas por se realizarem num momento em que os moradores permanecem mais tempo nas favelas, devido ao isolamento social recomendado pelas autoridades sanitárias face à Covid-19, ficando mais vulneráveis aos confrontos entre polícia e gangues de traficantes de droga.

"As diversas operações policiais guiadas pela guerra às drogas não só não são capazes de travar o uso e venda dessas substâncias, como violam sistematicamente direitos da população favelada, uma vez que impedem que trabalhadores se desloquem para seus locais de trabalho, obrigam escolas a suspenderem as aulas, destroem casas e outros bens com balas e armamentos dignos de guerra", diz o relatório.

"Mais do que isso, o saldo das operações é o de corpos negros pelo chão. O racismo, principal motor dessa guerra, concentra todas as ações em locais periféricos, e o sucesso ou não de operações policiais é medido pelo número de apreensões de armamento e de drogas e pela quantidade de vidas matáveis. Tudo é permitido em nome desse objetivo. Nesse sentido, a guerra às drogas é mais um mecanismo usado para colocar em curso o genocídio da população negra", acrescenta o documento.

Num momento pandémico, em que a água é fundamental até para uma constante higienização das mãos face a uma eventual presença do novo coronavírus, o levantamento mostrou, ainda, que 63% dos habitantes dessas comunidades ficaram sem água no período mais crítico da pandemia.

Paralelamente, 37% relataram que não conseguiram atendimento médico em unidades públicas de saúde, tanto por estarem lotadas, quanto por falta de condições desses postos.

Entre os entrevistados, 93% disseram conhecer alguém que teve Covid-19 e 73% souberam de alguém que morreu devido à doença.

O Brasil é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo ao totalizar 595.446 óbitos e 21,3 milhões de infeções pelo coronavírus.

A Covid-19 provocou pelo menos 4.752.875 mortes em todo o mundo, entre 232,27 milhões infeções pelo coronavírus registadas desde o início da pandemia, segundo o mais recente balanço da agência France-Presse.

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