"Perfeito é inimigo do bom" no acordo da COP26. "Dizem que é menos do que tínhamos na versão anterior"

O vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, saúda o acordo obtido em Glasgow, mas lamenta que, na versão final da declaração, se troca "acabar" por "reduzir" no parágrafo sobre o uso de carvão para produção de energia.

O representante europeu na Cimeira do Clima da ONU (COP26) saudou o acordo atingido em Glasgow como "muito bom" apesar das cedências de última hora, afirmando que "em política, o perfeito é inimigo do bom".

Em declarações aos jornalistas à saída do plenário final da cimeira, o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, afirmou que a comunidade internacional pode estar satisfeita com o compromisso conseguido e que se pode dizer que em termos de aquecimento global até fim do século, se sai da COP26 com "uma oportunidade de ficar bem abaixo dos dois graus e ainda com uma hipótese de ficar em 1,5 graus".

"Tivemos que concordar com isto. Se tivéssemos dito que não, poderíamos não ter acordo nenhum", afirmou, referindo-se à emenda de última hora que a Índia, apoiada por outros países, forçou na versão final da declaração que sai de Glasgow, que troca "acabar" por "reduzir" no parágrafo sobre o uso de carvão para produção de energia.

Timmermans argumentou que se se tivesse insistido em recusar a alteração, "isso seria tão inaceitável [para os países que apoiavam a emenda] que teriam feito cair o acordo inteiro e aí teríamos perdido uma oportunidade".

Admitiu que teria gostado mais de manter os termos da versão do texto que foi posta a aprovação do plenário, mas considerou que se tratou de "uma pequena concessão".

"Obviamente, estou desapontado, mas também temos que nos lembrar que há um par de meses, ninguém queria falar de carvão. Claro que as pessoas estão a apontar que isto é menos do que tínhamos na versão anterior, mas é muito mais do que alguma vez tivemos", declarou.

Considerou que se trata de "um acordo muito bom, que ninguém pensou que fosse possível", salientando que "para alguns países em desenvolvimento, é uma mudança tremenda" encarar a perspetiva de deixar de usar carvão para produção de energia, que considerou estar "de saída, porque não compensa, numa perspetiva económica".

O vice-presidente da Comissão Europeia ressalvou que está preocupado com o que se segue às conclusões de Glasgow: "se nos relaxarmos, mesmo por alguns meses, nunca chegaremos a 1,5 graus, temos que manter o ritmo e a mesma determinação para transformar as sociedades".

"Espero que toda a gente compreenda isto. Estamos numa crise muito profunda e a lutar pela sobrevivência da humanidade", apelou.

A 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26) adotou formalmente uma declaração final com uma alteração de última hora proposta pela Índia que suaviza o apelo ao fim do uso de carvão.

A alteração foi proposta pelo ministro indiano do Ambiente, Bhupender Yadav, que no plenário de encerramento da COP26 pediu para mudar a formulação de um parágrafo em que se defendia o fim progressivo do uso de carvão para produção de energia sem medidas de redução de emissões.

A proposta acabou por ser aprovada pelo presidente da cimeira, Alok Sharma, que afirmou de voz embargada "lamentar profundamente a forma com este processo decorreu".

O documento final aprovado, que ficará conhecido como Pacto Climático de Glasgow, preserva a ambição do Acordo de Paris, alcançado em 2015, de conter o aumento da temperatura global em 1,5ºC (graus celsius) acima dos níveis médios da era pré-industrial.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, comentou o acordo alcançado em Glasgow alertando que apesar de "passos em frente que são bem-vindos, a catástrofe climática continua a bater à porta".

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