Plano de Trump para o Médio Oriente é "manobra de distração"

Atualmente decorre em Washington um processo destinado à destituição de Trump, enquanto Netanyahu se confronta nos tribunais com três casos diferentes de corrupção.

O académico Filipe Vasconcelos Romão definiu esta quarta-feira o plano relacionado com o conflito israelo-palestiniano apresentado na terça-feira pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como uma "iniciativa unilateral" e "manobra de distração".

"A minha perspetiva é pessimista. Uma vez mais, estamos perante uma iniciativa de Donald Trump que visa sobretudo ocupar a agenda mediática e levar a cabo uma manobra de distração face aos problemas que tem a nível interno e à campanha eleitoral para as presidenciais" em novembro, referiu em declarações à Lusa o professor de Relações internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa.

O especialista em assuntos internacionais referiu-se a uma "iniciativa unilateral norte-americana, validada pelo governo israelita de Benjamin Netanyahu, que está a caminho das terceiras eleições e com fortes perspetivas de ser julgado por crimes de corrupção após ter abdicado da imunidade parlamentar".

Atualmente, decorre em Washington um processo destinado à destituição de Trump, enquanto Netanyahu, o chefe de governo israelita em funções, se confronta nos tribunais com três casos diferentes de corrupção.

"Nesse sentido este plano é feito a partir de uma visão norte-americana, em consonância com um governo radical israelita que nos últimos dez anos não tem feito mais que dinamitar tudo o que diz respeito ao processo de paz e à emergência de um Estado palestiniano a curto ou médio prazo", assinalou.

Filipe Vasconcelos Romão detetou neste plano uma manobra de distração" e em consonância com as opções em política externa do atual inquilino da Casa Branca.

"Trump tem por hábito levar a cabo ou destruir tudo a nível de política externa que os seus antecessores implementaram, isso assistiu-se no que respeita às relações com a China, com o Irão, e na Palestina também se assistiu com o reconhecimento em 2017 de Jerusalém, ao arrepio do direito internacional, como capital de Israel".

O académico também denota um "movimento político" que se tem repetido, e semelhante na forma ao de outras circunstâncias.

"Primeiro há um desestabilizar da situação, e depois surge com uma proposta de acordo que é sempre pior em comparação com o momento anterior devido à disrupção provocada por Trump, mas tenta emergir como quem resolve os problemas que ele próprio causou".

Nesta perspetiva, nestes tempos que correm "em que memória é curta", e sem esquecer o ponto de vista mediático, a estratégica consiste em aprofundar a instabilidade na região, como sucedeu em 2017, para em "tentar propor em 2020 algo que vá palear essa disrupção causada".

Filipe Vasconcelos Romão define assim este plano como "uma proposta que viola claramente o direito internacional, o reconhecimento do direito às fronteiras palestinianas que desde os anos 60 é quase unânime do ponto de vista dos Estados e consecutivamente validado por resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas". E que foram legitimadas em 1993 "pelo acordo assinado na Casa Branca após as negociações de Oslo", recordou.

Num contexto regional muito complexo, Netanyahu prossegue a sua política de "tentar dinamitar tudo o que esteja relacionado com o processo de paz", uma estratégia que promove desde as negociações Oslo.

"Aqui temos um Netanyahu cada vez mais diminuído ou encurralado em termos de política interna, mas com o grande aliado Donald Trump a fazer o seu jogo, e provavelmente a tentar que, nas eleições do início de março Netanyahu, possa escapar a uma derrota ou impasse parlamentar e assumir um novo mandato como primeiro-ministro", sustentou.

A apresentação deste plano também pode ter consequências imediatas na política interna dos palestinianos, assinalou.

"É tão ostensivamente contrário aos interesses palestinianos e ao que tem sido o consenso mínimo estabelecido em torno da necessidade de a Palestina ter um Estado, que vai permitir e ser um fator de reaproximação entre as várias fações palestinianas que desde 2005-2006 estão totalmente desavindas, com uma bicefalia entre governos do Hamas e da Autoridade palestiniana", considerou.

Uma iniciativa, frisa ainda, que surge como que "quase exclusivamente vinculada aos interesses israelitas" e aliados, como a Arábia Saudita, envolvida no "mesmo jogo" para a região.

"Pode ser um elemento não de uma coesão clara, mas pelo menos de um alinhamento por parte das várias fações palestinianas", conclui, o professor de Relações internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa.

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