Polícia usa gás lacrimogéneo contra coletes amarelos em Paris e Bordéus

Este domingo completa-se um ano sobre o aparecimento dos coletes amarelos nas ruas.

A polícia disparou gás lacrimogéneo no noroeste de Paris, este sábado, para expulsar os manifestantes que assinalam nas ruas o primeiro aniversário do movimento anti-governo dos coletes amarelos. Através das redes sociais, milhares de manifestantes confirmaram presença na capital francesa, algo que se fez sentir desde cedo.

Os confrontos entre manifestantes e polícia começaram perto de Porte de Champerret, por volta das 9h00 (10h00 em Lisboa), enquanto os coletes amarelos se preparavam para marchar pela cidade, em direção à Gare d'Austerlitz, no sul da capital francesa. A polícia interveio para impedir que algumas centenas de manifestantes ocupassem a autoestrada, de acordo com imagens transmitidas pela Reuters TV, e pouco depois já anunciava 16 detidos.

Pouco depois, mas na zona sul da cidade, centenas de coletes amarelos reuniram-se na Place d'Italie, que é o ponto de partida para três dos protestos marcados para este sábado. Bloquearam a circulação automóvel com uma barricada em chamas e um banco foi vandalizado. A polícia também interveio com gás lacrimogéneo, os bombeiros apagaram o fogo e nesta altura já há mais de 40 pessoas identificadas e 11 detidas.

No Twitter, a polícia francesa está a partilhar desde cedo imagens de artefactos apreendidos e do forte dispositivo em Paris, para evitar a escalada dos protestos. Não há números oficiais, mas fontes policiais adiantaram à BFM-TV que há pelo menos 2 mil e 500 agentes na capital e que os polícias que estavam de folga foram também chamados.

Durante o fim de semana há sete zonas que estão interditas a manifestações. Zonas que vão desde a Catedral de Notre-Dame, à Torre Eiffel, passando plos Campos Elísios. Este sábado há pelo menos 10 linhas de metro que vão estar fechadas.

Já em Bordéus, uma cidade onde a tranquilidade costuma reinar, os protestos também estão a dar origem a violentos confrontos entre polícia e manifestantes, com os agentes da autoridade a recorrer a gás lacrimogéneo.

"O ambiente é de ansiedade. Não posso tranquilizar completamente o povo de Bordéus. O facto de nos estarmos a aproximar do dia 5 de dezembro [greve geral] também é uma preocupação. Será que vai haver uma convergência de lutas? É difícil saber. Mas desta vez estamos melhor preparados", explicou Nicolas Florian, presidente da Câmara de Bordéus, ao Libération.

"Coletes amarelos" são "movimento "histórico" que falhou objetivos, dizem analistas

Este domingo completa-se um ano sobre o aparecimento nas ruas dos "coletes amarelos", e ativistas e analistas concordaram que embora se trate de um movimento "histórico", também não levou a grandes mudanças na vida política ou social em França.

Mas houve mudanças, mudanças na vida de alguns, nomeadamente na do lusodescendente Jerome Rodrigues.

"Sou uma personalidade pública. E isso mudou muita coisa", disse à Lusa Jerome Rodrigues.

Há quase um ano, Jerome Rodrigues perdeu um olho numa manifestação dos "coletes amarelos" depois de ter sido atingido por uma bala de borracha e desde aí transformou-se numa das principais figuras do movimento.

A mudança verificada teve consequências positivas mas também negativas.

"Houve um impacto muito negativo, tenho o Governo nas minhas costas, sou assediado na Internet e até já me mandaram para Portugal nas redes sociais, eu que nem sequer tenho nacionalidade portuguesa! A parte positiva é falar com muita gente, aprender muito", salientou este "colete amarelo" que viaja um pouco por toda a França para falar sobre as suas ideias, sendo figura assídua na televisão e contando com quase 50 mil seguidores nas redes sociais.

No entanto, ele está entre os primeiros a admitir que as mudanças exigidas como maior poder de compra para a classe média, uma redução drástica dos impostos ou até a saída do Presidente Emmanuel Macron do poder, não foram conseguidas.

"Mudanças não [houve], porque não ganhámos quase nada. Mas a maneira de contestação é diferente. Mostrou um contrapoder que já não era feito pelos sindicatos ou a oposição política", afirmou.

Esta perspetiva é partilhada por Luc Rouban, diretor de investigação no Centre National de la Recherche Scientifique e na Sciences Po Paris, e especializado na transformação do Estado e nas elites.

"Os 'coletes amarelos' falharam. Conseguiram obter recuos por parte do Governo nalgumas questões de impostos, mas tudo que dizia respeito às mudanças do sistema político e à saída de Emmanuel Macron não teve qualquer resultado", indicou o investigador, precisando que muitas das reivindicações eram "utópicas" e que os franceses, apesar de tudo, gostam da V República.

Para este investigador, medidas do Governo em resposta ao movimento como o Grande Debate, que levou a debates entre eleitos e cidadãos em toda a França, diminuição de certos impostos ou mesmo a subida do salário mínimo, foram apenas algo pontual, decidido por um Presidente que está "encurralado".

"Ele [Emmanuel Macron] está agora numa posição defensiva e está encurralado. É obrigado a continuar as suas reformas, porque senão não tem nada para apresentar, e ao continuá-las, é também obrigado a compensá-las com medidas pontuais para assegurar o equilíbrio social", disse o académico.

Mesmo com as suas fraquezas, para Priscillia Ludosky, a "colete amarelo" que iniciou o movimento ao lançar a petição pública contra o aumento dos combustíveis, viveu-se algo histórico.

"Permitiu a pessoas completamente diferentes empenharem-se numa causa comum e aprender a trabalhar em conjunto. E hoje, tentam mudar as coisas juntas. [...] É um movimento histórico, que ficará na História independentemente do que digam", disse à Lusa Priscillia Ludosky.

Luc Rouban concorda com o facto de ser histórico, mas qualifica-o também de original.

"É certamente um movimento histórico. Mas é um movimento original que se distingue dos movimentos sociais que são normalmente estruturados por categoria profissional ou à volta de um problema específico. E também não é político, porque recusam qualquer filiação quer a partidos, quer a sindicatos", destacou.

Segundo Luc Rouban, a grande herança do movimento é estar a levar vários setores da sociedade a mobilizarem-se.

"Agora assistimos a uma nova etapa em que as pessoas se estão a aperceber que tentar mudar o sistema político pondo-se à parte não muda grande coisa, porque os 'coletes amarelos' desapareceram rapidamente do mapa, mas há uma nova vaga de movimentos sociais clássicos junto dos estudantes, dos hospitais ou da polícia", explicou o politólogo.

Com dificuldades de organização interna, os "coletes amarelos" querem agora constituir um lóbi cidadão de forma a continuarem a lutar por uma maior participação direta na democracia, sem deixar as ruas.

Notícia atualizada às 11h28

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de