"Ponto quente." Mediterrâneo atravessará ondas de calor, secas e incêndios ainda piores

As temperaturas deverão aumentar mais depressa em torno do Mediterrâneo do que a nível mundial ao longo das próximas décadas, com impacto na agricultura, na pesca e no turismo, alerta a ONU.

A região do Mediterrâneo, que enfrenta atualmente incêndios sem precedentes na Grécia e na Turquia, terá ondas de calor, secas e fogos florestais ainda piores com as alterações climáticas, segundo a versão preliminar de um relatório da ONU.

Não sendo a região do mundo que sofrerá maiores aumentos de temperatura, o Mediterrâneo está qualificado como um "ponto quente" das alterações climáticas no documento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês), a que a agência France-Presse teve acesso.

Com 500 milhões de habitantes, a região é ameaçada por vários fatores ligados às alterações climáticas, segundo um capítulo do relatório, cuja versão final deverá ser adotada em fevereiro de 2022.

O IPCC examina atualmente um outro relatório sobre as previsões climáticas, que será divulgado na segunda-feira.

"Os motivos de preocupação incluem riscos ligados à subida dos níveis do mar, à perda de biodiversidade terrestre e marítima, às secas, fogos florestais e alterações do ciclo da água, à ameaça à produção alimentar, a riscos para a saúde em aglomerados urbanos e rurais ligados às ondas de calor" e ainda aos mosquitos que transmitem doenças.

O especialista em ambiente e professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Filipe Duarte Santos analisa, em declarações à TSF, que o Mediterrâneo vive uma situação crítica há vários anos. "Desde há bastantes anos que o Mediterrâneo é considerado como 'hot spot' no que respeita à mudança climática, porque tem sofrido uma diminuição da precipitação média anual", esclarece o professor, referindo-se a uma região que tem aquecido mais do que a média global.

Filipe Duarte Santos lembra que as emissões de dióxido de carbono devem voltar a aumentar, depois de uma quebra de 7% em 2020, e que está mesmo previsto um novo máximo de emissões em 2022 e 2023. "A principal causa das alterações climáticas são as emissões de dióxido de carbono, que provêm da combustão do carvão, do gasóleo e do gás natural. Por isso é que há esta insistência em fazermos esta transição energética para as energias renováveis. Enquanto isso não for feito a nível global, não chegamos lá."

Segundo o texto provisório do IPCC, as temperaturas deverão aumentar mais depressa em torno do Mediterrâneo do que a nível mundial ao longo das próximas décadas, com impacto na agricultura, na pesca e no turismo.

Dezenas de milhões de habitantes serão afetados por maior escassez de água, riscos de inundações costeiras e ondas de calor potencialmente mortais, alerta o organismo da ONU.

Algumas regiões mediterrânicas poderão ver as suas culturas agrícolas cair 64% e a superfície de floresta queimada vai duplicar ou triplicar, em função dos esforços feitos para reduzir as emissões de gases com efeito estufa.

O documento conclui ainda que só um aquecimento mundial abaixo dos 2°C - o objetivo do Acordo de Paris - "permitirá manter as aglomerações costeiras, os sítios do património cultural, os ecossistemas terrestres e marítimos num estado viável na maioria das zonas da bacia" do Mediterrâneo.

O aquecimento climático aumenta a probabilidade de ondas de calor e secas e, como consequência, os incêndios.

"As ondas de calor são o tipo de evento climático extremo no qual as alterações climáticas mudam verdadeiramente as regras do jogo", disse à AFP a climatologista Friederike Otto, da universidade de Oxford, para quem o calor extremo é a maior ameaça para o Mediterrâneo e "de longe o evento [climático] extremo mais mortal na Europa".

Segundo os cálculos do IPCC, até 93 milhões de pessoas suplementares poderão ser confrontadas com ondas de calor na margem norte do Mediterrâneo até 2050.

No Médio Oriente e na África do Norte, o risco de os idosos morrerem por calor extremo pode aumentar entre três e 30 vezes até 2100 e as mortes poderão aumentar para 20 mil por ano no Mediterrâneo setentrional até 2050.

Os governos podem agir contra algumas das ameaças, como os incêndios ou as inundações, mas com o calor é diferente, avisou Ilan Kelman, da University College London: "A mudança climática conduz-nos para níveis em que não poderemos sobreviver".

"A única opção será viver em espaços climatizados 24 horas por dia, sete dias por semana e as pessoas não podem permitir-se isso. Haverá cortes de energia", disse.

Segundo Matthew Jones, do Tyndall Centre for Climate Change Research, o número médio de dias em que o Mediterrâneo enfrenta condições favoráveis aos incêndios extremos já duplicou desde os anos 1980.

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