Quim Torra em entrevista à TSF na sede do governo da Catalunha
Entrevista TSF

"Portugal rompeu completamente com o regime de Salazar. Espanha não foi capaz de fazer o mesmo"

A dois dias das eleições legislativas em Espanha, o presidente do Governo da Catalunha, apela ao diálogo entre Madrid e Barcelona. Em entrevista à TSF na sede do governo da Catalunha, Quim Torra desafia Pedro Sánchez a colaborar na procura de uma solução política para o conflito na região.

Barcelona recebeu, na segunda-feira, o Rei Felipe VI para uma cerimónia oficial... No seu discurso, o monarca, sem referir diretamente os protestos no exterior do palácio, fez uma referência à violência... Em catalão, Felipe VI referiu "hoje não pode haver lugar para a violência nem para a intolerância ou o desprezo pelos outros". Sente que, enquanto presidente da Generalitat, é um dos destinatários desta mensagem?
"Eu acredito que essas mensagens se dirigem a 80% da população catalã, porque todas as sondagens indicam que 80% dos catalães já não consideram que a instituição monárquica seja uma instituição válida. Tem sido curioso, ao longos destes últimos anos, desde a instituição da democracia em Espanha, ver como a figura do rei está a perder o afeto do povo, sobretudo do povo da Catalunha. Sobretudo a partir do discurso de 13 de outubro de 2017, que surpreendeu muitos catalães e expôs a posição do rei. Desde então, creio que há uma clara distância entre a sociedade catalã e o Rei de Espanha. Esse ato só decorreu em Barcelona, porque não podia ser celebrado em Girona, por causa das manifestações. Aquilo que o rei tem de fazer é escutar os catalães, entender os seus desejos de liberdade e de diálogo. Isto é o que ele deveria fazer, assim como o presidente do governo espanhol. Sentarem-se com os catalães e escutarem-nos."

Estamos a poucos dias das eleições em Espanha. A campanha contou com um único debate televisivo. Quim Torra foi o ausente mais presente. Pedro Sanchéz avançou, nesse debate, que vai propor uma alteração ao Código Penal no sentido de proibir e penalizar a realização de referendos nas regiões autónomas. Como interpreta esta vontade do líder do PSOE/presidente do governo espanhol?
O partido socialista, em vez de fomentar o diálogo e de apresentar soluções construtivas e razoáveis, parece que só tem uma receita para a Catalunha... Com base no Código Penal... E mais Código Penal... Ou qualquer artigo da Constituição espanhola. A verdade é que não reconhecemos esses socialistas... Juntos com os nacionalistas catalães lutámos contra a ditadura franquista... E estivemos do lado do direito às liberdades. É muito dececionante que o presidente do governo, com quem mantinha um diálogo quase diário, nestes últimos dias, e perante uma situação política tão grave, em especial na Catalunha, não tenha feito uma chamada telefónica. Por isso, não me surpreende que agora queira introduzir um novo artigo."

Que reação poderá espoletar na Catalunha caso avance esta proposta?
"Evidentemente que não concordaremos... E faremos tudo o que for possível para impedir a introdução deste artigo no Código Penal. Há que relembrar que foram precisamente os socialistas que despenalizaram a realização de um referendo e agora há um socialista que quer fazer o contrário. Esta situação também demonstra em que ponto vive o partido, de contradições internas muito graves."

No mesmo debate, o líder do Vox - Santiago Abascal - foi mais longe. Defendeu a sua detenção e julgamento. Esta posição enquadra-se, na sua opinião, numa retórica, que se tem extremado por causa da proximidade das eleições?
"Não. O Vox é um partido fascista. É um partido herdeiro do franquismo. Portanto não me parece muito correto que se possa proceder à detenção de presidentes de governos democráticos. Este é um problema que temos em Espanha. A reforma de 1978 não constituiu uma rutura. Já que estou a falar para uma rádio portuguesa, faço um paralelismo entre os dois países. Portugal rompeu completamente com o regime de Salazar - desde a Direita à Esquerda - e começou uma nova era. Espanha não foi capaz de fazer o mesmo".

Esta semana - em termos de segurança - vai ser um teste de força para as autoridades policiais. Como avalia a atuação das polícias?
"Temos atuado no sentido de garantir a segurança de todos os cidadãos, e ao mesmo tempo garantir o legítimo direito à manifestação e concentração, que qualquer governo democrático deve valorizar. Nós dizemos sempre que vamos governar este país com base no respeito dos direitos humanos, civis, e políticos. É o que tentamos fazer."

Que previsão faz sobre estes os dias que faltam até à eleição de domingo?
"Os catalães, quando há uma eleição, vão votar. Estou convencido que vamos votar no domingo de forma massiva e pacífica. A sociedade catalã vai expressar-se de novo. Nestes momentos, o que eles pensam é quais são as forças políticas que melhor vão defender os seus interesses".

Afirmou recentemente que "sem escutar a Catalunha não se pode governar Espanha". Depois das eleições - o que espera do futuro governo espanhol?
"Creio, mais do que nunca, mais urgente que nunca, que será necessário que os governos de Espanha e da Catalunha se sentem à mesma mesa. Que conversemos como líderes políticos, para tomar decisões e que avancemos, de forma definitiva, para uma solução política para o conflito catalão. A falta dessa solução tem provocado crises sucessivas em Espanha. Tivemos 4 eleições gerais em 4 anos. Isso nunca tinha acontecido. E a principal razão é a Catalunha."

As sondagens indicam que o PSOE deverá ganhar, mas sem maioria absoluta. Será desta que haverá estabilidade política no Palácio da Moncloa?
"Em 1.º lugar, quando se der uma resposta política sobre a Catalunha. Em 2º lugar quando esta situação que vivemos, com presos políticos e exilados, acabe de uma vez por todas. E em 3.º lugar, quando a Espanha se der conta que tem de ser capaz de aceitar o conceito de democracia que todos os Estados modernos aceitam. Espanha é um país da União Europeia. tem de ser capaz de assumir que estamos no século 21, em 2019, de que vivemos num Estado pela adesão a uns princípios e uns valores, não pela sua missão por isso, essa é a reflexão que tem de ser feita pelos espanhóis."

As relações entre o Governo Regional da Catalunha, se se confirmarem os resultados das sondagens - e o Governo de Espanha vão conhecer um novo capítulo? Ou com Pedro Sanchéz o diálogo é cada vez mais difícil?
"Com Pedro Sanchéz temos visto, nas últimas semanas, que ele é assim... Mas esperamos que o resultado das eleições o obriguem a repensar, a mudar, porque, insisto, é urgente que os governos catalão e espanhol se sentam e falem. Da nossa parte temos as portas abertas do Palácio da Generalitat. Tenho a minha agenda absolutamente disponível para, quando Pedro Sanchéz quiser, marcarmos uma reunião e falarmos de uma maneira séria e responsável sobre o futuro político dos catalães".

Não teme ser detido como os outros líderes independentistas?
"Desde o 1º dia que assumi o cargo de presidente da Generalitat, assumi também as responsabilidades que o cargo comporta. Se defender os meus compatriotas e o exercício dos seus direitos civis, políticos, individuais e coletivos, como o direito à autodeterminação tem de me custar uma sanção... ou o que referiu, pois... Para mim está muito claro que tenho de os assumir. Vou estar à altura das circunstâncias, acompanhando o meu povo, a seu lado".

O que tem a dizer sobre a notícia de que está implicado num plano para uma invasão do Parlamento em resposta à sentença dos líderes independentistas?
"Desminto categoricamente essa notícia, como se pode imaginar."

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