Portuguesa descreve "esvaziamento" de Bissau perante tentativa de golpe de Estado

Vanessa Rato revela que a narrativa de que a morte do Chefe de Estado-Maior do Exército estará na origem das movimentações é a que corre entre "pessoas ligadas a serviços de segurança".

"Um esvaziamento." É assim que Vanessa Rato, jornalista e investigadora da Universidade Nova de Lisboa descreve à TSF o que aconteceu esta terça-feira na capital da Guiné-Bissau, uma cidade "extremamente pacata" mas onde está em curso uma tentativa de golpe de Estado.

Durante o dia e ao longo da semana, explica, o centro da cidade, onde se situam os serviços e supermercados, é povoado por pessoas que vivem nos bairros que o rodeiam, mas com o início dos conflitos, tudo mudou.

"O centro esvaziou-se completamente, os serviços fecharam e os trabalhadores, que vivem nos bairros aqui em torno, voltaram às suas casas e os supermercados também fecharam", conta na primeira pessoa.

Poucos minutos antes de conversar com a TSF, Vanessa Rato tinha recebido a informação de que o tiroteio no palácio do Governo, onde estavam o Presidente e o primeiro-ministro, tinha recomeçado "há poucos minutos".

Tudo terá sido despoletado pela morte do Chefe de Estado-Maior do Exército (CEME), em Espanha, nos últimos dias. Em Bissau, a narrativa "entre pessoas ligadas a serviços de segurança é a de que o CEME era o tampão entre a vontade do Exército de afastar o atual Presidente e o próprio Presidente. Com a sua morte terá havido uma fragilização da posição da Presidência e, hoje, aquilo que já é tido como um golpe de Estado."

Desafiada a comentar pela TSF, a investigadora confessa que é "complicado" saber se a situação do país nos últimos meses no país era "calma", algo que ilustra com uma história pessoal.

"Há pouco tempo chegou aqui a Bissau uma amiga de Lisboa que vem trabalhar e fez um reparo que me pareceu muito interessante: disse que, consoante as pessoas com quem estava, lhe parecia sempre que Bissau era uma cidade do mais tranquilo e vivível em felicidade possível", detalha.

Mas, como em tudo, há outra face da moeda: "Por outro lado, se começava a frequentar pessoas ligadas a corredores do poder ou a grandes organizações internacionais que operam no terreno, como a ONU, tinha sempre a sensação de que o país estava em constante guerra fria."

No fundo, o país vive "duas dinâmicas emocionais bastante diferentes" e que coexistem "no tempo e no espaço".

Se é verdade que "a população civil vive normalmente em grande tranquilidade" na Guiné-Bissau, uma descrição que Vanessa Rato reconhece como dissonante do "imaginário da maior parte dos portugueses", também é verdade que "as tensões politicomilitares persistem."

Ainda assim, a descrição de Bissau que sublinha é a de uma cidade "extremamente pacata". E reforça: "Nem é só tranquila, é pacata mesmo."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de