"Precisamos muito da vossa ajuda." Refugiados ucranianos em sofrimento psicológico

Muitos refugiados sofrem insónias, stress e ansiedade, depois de terem vivido situações traumáticas. Um grupo de psicólogos está a oferecer consultas gratuitas.

Yuliya Hryhoryeva está preocupada, ansiosa e cansada. Desde o início da guerra, empenhou-se em iniciativas para ajudar a Ucrânia, de onde partiu há vários anos, para viver em Portugal.

Como presidente da Associação de ucranianos Spilka, em Leiria, Yuliya começou por organizar vigílias, recolha de bens, transporte de refugiados e agora, dedica-se ao acolhimento de quem chega ao nosso país, fugido da guerra. "Na primeira onda (de refugiados), as pessoas estavam assustadas, mas não estavam sob fogo. Agora, são pessoas que passaram momentos dramáticos, ataques aéreos. Tiveram de se esconder nas caves, no metro. Estavam mesmo em perigo", sublinha Yuliya, que não tem dúvidas: a violência da guerra, com a morte de crianças e outros civis inocentes, vai deixar "marcas profundas para a vida toda".

A emigrante ucraniana admite que muitos refugiados podem precisar de ajuda psicológica. "Para não sofrer", a própria Yuliya deixou de seguir as notícias na televisão. Procura apenas a informação oficial, divulgada online por revistas ucranianas especializadas. Sente-se psicologicamente afectada pela guerra e "não quero massacrar-me com vídeos violentos", justifica.

Para ajudar quem está em sofrimento, um grupo de 15 psicólogos está a oferecer consultas gratuitas, realizadas à distância. A iniciativa solidária nasceu com a Covid-19 e ajustou-se, agora, para prestar apoio psicológico aos refugiados ucranianos. Chamam-se Capacetes laranja e já receberam dezenas de pedidos de apoio. A coordenadora, Ana Valente, revela que nos últimos dias, muitos contactos têm chegado de famílias portuguesas que estão a acolher refugiados. É o caso de uma jovem de 19 anos, com uma "saída muito difícil" da Ucrânia. Está ansiosa, com falta de apetite, "já descansou (da viagem), mas não consegue dormir. Chora muito", exemplifica Ana Valente. Foi a família portuguesa que acolheu a jovem quem contactou os Capacetes laranja, com um apelo: "precisamos muito da vossa ajuda".

Ana Valente nota que, com o arrastar da guerra, os casos são cada vez mais preocupantes. "Algumas destas pessoas demonstram bastante sofrimento psicológico. Insónias, stress, ansiedade, situações traumáticas".

Os Capacetes laranja receberam também pedidos de empresas para prestar apoio a colaboradores que ainda se encontram na Ucrânia.

As sessões decorrem em Português ou Inglês e em breve, os Capacetes laranja terão uma psicóloga fluente em ucraniano. No entanto, Ana Valente garante que a língua não tem sido uma barreira, graças ao apoio da comunidade ucraniana. A psicóloga recorda o caso de uma mulher, em que a sessão teve de ser mediada por um tradutor. Não é a resposta ideal, assume Ana, mas é a "resposta possível". Após o acompanhamento psicológico, a mulher ucraniana encontra-se bem e muito empenhada nas iniciativas solidárias pela Ucrânia.

Yuliya Hryhoryeva também se mantém o mais activa possível. "Sinto-me útil e isso preenche o coração", confessa com os olhos carregados de tristeza.

As consultas psicológicas podem ser marcadas através das redes sociais dos Capacetes laranja ou pelo site www.anavalentepsicologia.pt

A autora não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico

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