"Dados chocantes." É preciso mudar "expectativas quanto ao papel da mulher"

O responsável pelo estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, um português, revela à TSF que os dados relativos ao Índice de Normas Sociais e de Género são "chocantes".

António Guterres apelou para que o século XXI fosse o século da consagração da igualdade entre homens e mulheres. No entanto, o caminho adivinha-se longo. À TSF, Pedro Conceição, o diretor da secção de relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que analisou um novo Índice de Normas Sociais e de Género, revela que "os dados mostram que os preconceitos entre a igualdade entre homens e mulheres são chocantes".

Tão "chocantes" que surpreenderam o português que liderou o estudo, em que foram avaliados 75 países, ou seja, 80% da população mundial. "Quando começámos o trabalho estávamos à espera de ter os resultados com que nos confrontámos, porque nove em cada dez homens e mulheres em todo o mundo têm alguma forma de preconceito contra a igualdade entre homens e mulheres", vinca Pedro Conceição.

As conclusões do relatório foram obtidas "através de sondagens em que se fizeram perguntas para tentar recolher a opinião das pessoas relativamente a se os homens serão melhores líderes políticos do que as mulheres", por exemplo. "Se a resposta for sim, nós classificamos isto como indicação de um preconceito contra o papel das mulheres no domínio da política", explica o responsável pela área de redação de relatórios da ONU na matéria do desenvolvimento.

Mas muitos outros preconceitos foram confrontados, e os dados recolhidos apontam para uma "certa contradição quanto ao progresso na igualdade entre homens e mulheres", diz Pedro Conceição, que logo esclarece: "Por um lado, vemos progressos assinaláveis, por exemplo nas taxas de participação escolar. No domínio da política, há igualdade no que diz respeito ao direito ao voto."

Há desenvolvimentos positivos, mas os investigadores deram também conta de "áreas em que o progresso está estagnado ou até está a haver retrocessos", mesmo na política, em que o direito ao voto feminino é cada vez mais uma realidade estendida a grande parte dos países. Nos parlamentos, "a participação é maioritariamente feita por homens", exemplifica Pedro Conceição, que quantifica: "Há uma mulher para cada quatro homens nos parlamentos."

E no que diz respeito aos "cargos de maior poder, como chefes de Estado ou de Governo, há apenas uma mulher por cada dez homens".

Pedro Conceição considera que este problema de fundo necessita de uma abordagem holística, que englobe mais do que apenas a legislação. "Nós achamos que é preciso uma nova geração de intervenções que olhem para esta questão das normas sociais, que representam as expectativas sociais relativamente ao papel da mulher na política, na economia e na sociedade em geral."

Em primeiro lugar, reconhecer o problema, posiciona-se o investigador. "É importante que as pessoas saibam que estes preconceitos existem", defende Pedro Conceição, que não deixa de lembrar que mesmo para os investigadores os resultados foram uma surpresa.

Depois, diz o diretor da secção de relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, "investir na educação", para se combater "a expectativa de que, quando a criança nasce, é o papel da mãe ficar em casa, deixar de trabalhar e tomar conta do recém-nascido". Isso é também uma função do pai, assinala Pedro Conceição.

Assim como esta ideia, há outros "preconceitos muito enraizados", por isso, para além do domínio judicial, é necessário "alterar normas sociais". E, em paralelo, Pedro Conceição considera que se devam "mudar os incentivos para que não se acentuem esses preconceitos que existem nas nossas sociedades", e há muito caminho legislativo para trilhar. "Ainda há muito por fazer em termos de legislação", sobretudo, aponta, no aspeto da violência contra as mulheres, cujas queixas se têm vindo a avolumar e, em Portugal, têm vindo a aumentar os casos de femicídio.

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