Durante o maior protesto de sempre, chefe do Governo de Hong Kong pede desculpas

Milhares de pessoas concentraram-se nas ruas de Hong Kong, na maior manifestação dos últimos 30 anos.

Seis horas depois do início da marcha de protesto contra a lei da extradição, "uma multidão nunca vista" continuava a inundar as ruas de Hong Kong, na "maior manifestação de sempre", disseram vários dos participantes à agência Lusa. A chefe do Governo, Carrie Lam, pediu desculpas à população de Hong Kong e prometeu melhorias.

Estações de metro lotadas, táxis e autocarros parados, quilómetros de ruas vestidos da cor negra das 't-shirts' do protesto, cânticos e palavras de ordem estão a marcar o início de uma noite na qual se reforçou a oposição ao Governo chefiado por Carrie Lam, apesar de no sábado a governante ter anunciado a suspensão do debate sobre as alterações à lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China continental.

"Isto é Hong Kong e não a China" e "Retirem a lei" são alguns dos cartazes que os manifestantes empunham nas ruas, numa resposta ao apelo feito pelos organizadores do protesto liderado pela organização não-governamental Civil Human Rights Front (CHRF) ainda ao início da manhã.

Muitos jovens, famílias que fizeram questão em levar para a jornada de luta os bebés nos respetivos carrinhos, uma população mais idosa e manifestantes em cadeiras de rodas integram o terceiro protesto em apenas uma semana, depois de uma concentração no domingo passado ter juntado mais de um milhão e o de quarta-feira ter ficado marcado por confrontos entre manifestantes e a polícia.

As principais ruas de Admiralty, Wan Chai e de Causeway Bay, no centro, foram tomadas pelos manifestantes.

Numa declaração divulgada apenas em chinês por um porta-voz do Governo pelas 20:30 (13:30 em Lisboa), Carrie Lam afirmou que "nos últimos dois domingos, um grande número de pessoas expressou os seus pontos de vista através de procissões" e que "o Governo entende que a procissão pública é por preocupação e amor por Hong Kong".

Na tradução do texto do porta-voz do Governo feita pelo jornal South China Morning Post" sublinha-se que Carrie Lam "ouviu claramente as opiniões dos residentes expressas de uma forma pacífica e racional" e que "o Governo valoriza esses valores essenciais de Hong Kong".

"Tendo em vista as fortes visões díspares na comunidade, o Governo parou o trabalho do Conselho Legislativo sobre as emendas da lei", na tentativa de ser restaurada "a calma e evitar que alguém seja ferido", pode ler-se no comunicado.

"O Governo reitera que não há cronograma para reiniciar o processo", acrescenta.

Por outro lado, "a chefe do executivo reconhece que as deficiências no trabalho do Governo provocaram controvérsias substanciais e disputas na sociedade, desapontando e entristecendo muitas pessoas", pelo que Carrie Lam "pede desculpas ao público e promete adotar a atitude mais sincera e humilde para aceitar críticas e fazer melhorias para servir o público em geral".

No sábado, Carrie Lam, que no próprio dia dos confrontos tinha reafirmado a intenção de prosseguir com a lei apesar dos protestos, acabou por anunciar a suspensão do debate sobre a proposta.

Propostas em fevereiro e com uma votação final inicialmente prevista para 20 de junho, as alterações permitiriam que a chefe do executivo e os tribunais de Hong Kong processassem pedidos de extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

Os defensores da lei argumentam que, caso se mantenha a impossibilidade de extraditar suspeitos de crimes para países como a China, tal poderá transformar Hong Kong num "refúgio para criminosos internacionais".

Os manifestantes dizem temer que Hong Kong fique à mercê do sistema judicial chinês como qualquer outra cidade da China continental e de uma justiça politizada que não garanta a salvaguarda dos direitos humanos.

A transferência de Hong Kong e Macau para a República Popular da China, em 1997 e 1999, respetivamente, decorreu sob o princípio "um país, dois sistemas", precisamente o que os opositores às alterações da lei garantem estar agora em causa.

Para as duas regiões administrativas especiais da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, sendo o Governo central chinês responsável pelas relações externas e defesa.

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