Quando cromossomas e genes não ajudam. Porque são as mulheres quem mais sofre de Covid prolongada?
Covid-19

Quando cromossomas e genes não ajudam. Porque são as mulheres quem mais sofre de Covid prolongada?

Desde que a pandemia se consolidou em todo o mundo, durante a primavera de 2020, que a tendência começou a ser clara: as pessoas que mais sofrem de Covid-19 prolongada são relativamente jovens e, acima de tudo, mulheres.

Os primeiros relatos remontam aos meses de maio a julho de 2020, e foram registados num hospital de Paris, em França. Já na altura se verificava que os doentes que padeciam dos efeitos da doença por mais tempo tinham uma média de 40 anos e eram maioritariamente mulheres (por cada homem com Covid-19 de longa duração, havia quatro mulheres na mesma situação).

Em outubro, um estudo levado a cabo por investigadores britânicos, com base em dados da aplicação Covid Symptom Study - e noticiado pela TSF - já dava, cientificamente, conta dessa predominância da Covid prolongada no sexo feminino

Em geral, as mulheres estavam duas vezes mais suscetíveis a apresentar sintomas de Covid-19 que se prolongavam por mais de um mês, quando comparado com a sintomatologia encontrada nos homens, particularmente até aos 60 anos, idade em que o risco tende a igualar-se.

Essas tendências iniciais confirmaram-se, ao longo do último ano de convívio com a Covid-19, em todo o mundo. Estudos realizados no Reino Unido, nos Estados Unidos, passando pela Rússia e até pelo Bangladesh apontam para esta desproporcionalidade de incidência no sexo feminino.

Melissa Heightman, médica da unidade de tratamento clínico pós-Covid do University College Hospital de Londres, no Reino Unido, relata que mais de 60% das suas pacientes são mulheres. Citada pelo jornal britânico The Guardian, a especialista refere que esta propensão para a doença de longo prazo entre as mulheres é, na verdade, comum a várias outras doenças infecciosas. As mulheres têm, por exemplo, muito maior probabilidade de desenvolver doença de Lyme (uma doença infecciosa causada por bactérias transmitidas por carraças) e síndrome de fadiga crónica (que também se acredita ter origens infecciosas, em grande parte dos casos).

Sintomas em mulheres são desvalorizados

O facto de estes efeitos de longa duração ocorrerem em mulheres tem, no entanto, sido constantemente desvalorizado pela comunidade médica. A persistência dos sintomas é frequentemente atribuída a origens psicológicas, sendo comummente tratada como ansiedade.

"Em geral, não há tanta atenção e dinheiro para a investigação de doenças que afetam predominantemente as mulheres", refere Julie Nusbaum, professora na Escola de Medicina de Long Island da Universidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

"Há uma disparidade na investigação médica. Acho que ainda persistem certos preconceitos e que quando as mulheres apresentam muitas dores e sintomas, assume-se que a origem é emocional e não médica", afirma, em declarações ao The Guardian.

O cromossoma X e a "compensação da gravidez"

Apesar destes constrangimentos que se mantêm, a ciência está, cada vez mais, a debruçar-se sobre os fatores que levam as diferenças nas infeções entre mulheres e homens. No caso da Covid-19, em particular, surgem já algumas teorias para explicar o mistério destas diferenças e que podem até ser uma ajuda para o combate a outro tipo de infeções.

Akiko Iwasaki, imunologista da Escola de Medicina de Yale, nos Estados Unidos, tem estudado, ao longo deste ano, as diferenças de resposta ao coronavírus por parte dos homens e das mulheres e concluiu que, geneticamente, as células T (um grupo de células muito importantes para o sistema imunitário, que destroem células infetadas pelo vírus) são mais ativas nas mulheres, nas primeiras fases da infeção.

"As mulheres têm duas cópias do cromossoma X e muitos dos genes que atuam em várias partes do sistema imunitário estão localizados nesse cromossoma, o que significa que as respostas imunitárias se expressam mais fortemente nas mulheres", explica a cientista.

A investigadora vai mais longe e avança ainda como possível explicação para estas disparidades a chamada hipótese da "compensação da gravidez". Segundo esta, as mulheres em idade reprodutiva têm uma resposta imunitária mais reativa à presença de vírus e bactérias porque o seu sistema evoluiu de modo a suportar uma maior necessidade de proteção durante a gravidez.

Será esta forte resposta imunitária que leva as mulheres a morrerem menos de Covid-19 durante a fase aguda da infeção, mas que traz efeitos a longo prazo, com o vírus a fragmentar-se e a permanecer no corpo (não só nos órgãos respiratórios, mas também em tecidos dos rins ou até do cérebro) durante mais tempo, segundo esta teoria, que já se mostrou plausível em estudos sobre a doença de Lyme. Estes fragmentos potenciarão inflamações crónicas, levando a sintomas prolongados de fatiga e dor, por exemplo.

Vírus e doença autoimune

Há, no entanto, também outro tipo de explicações em cima da mesa. Muitos cientistas acreditam que o coronavírus pode ter espoletado uma doença autoimune, ao levar a que elementos do sistema imunitário produzam "autoanticorpos", que atacam os órgãos do corpo.

Akiko Iwasaki está entre os investigadores que publicaram, no último ano, estudos onde identificam níveis elevados de "autoanticorpos" em doentes com Covid-19, que atacavam tecidos dos vasos sanguíneos e do cérebro, por exemplo. E, de acordo com estas investigações, embora o número de "autoanticorpos" tendesse a diminuir gradualmente ao longo do tempo, havia muitos que subsistiam. A permanência destes organismos no sangue dos doentes infetados ao longo de muitos meses pode, assim, explicar muitos dos sintomas relatados pelas pessoas que sofrem de Covid-19 de longa duração.

Estudos anteriores já apontavam que as mulheres têm maior tendência para experienciar problemas relacionados com a autoimunidade, com sintomas que podem variar desde alergias, a rigidez muscular e dores nas articulações.

Hormonas entram em campo

A predisposição das mulheres para problemas ligados à autoimunidade deve-se a uma série de fatores, que vão desde a um interruptor molecular (VGLL3) que estas têm em níveis muito superiores aos dos homens até à presença de estrogénio, a hormona que controla a ovulação e que tende a aumentar a inflamação.

O facto de os homens terem altos níveis de outra hormona, a testosterona - que reduz o número de células produtoras de "autoanticorpos" - faz com que estes estejam mais protegidos em termos autoimunitários - e esse pode ser um dos fatores que explicam as diferenças nas reações à Covid entre os dois sexos.

É por este motivo que, entre a comunidade científica, já se pede mais investigação à influência do estrogénio na Covid-19 e às hipóteses de tratamento especializado para os doentes de cada sexo.

"Temos de tentar identificar as causas subjacentes em cada caso", defende Iwasaki, que espera mais desenvolvimentos e informação sobre esta questão nos próximos meses.

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