Quebra prevista na produção de cereais na Ucrânia coloca em risco alimentação mundial

A Ucrânia colheu, em 2021, 106 milhões de toneladas de cereais, um recorde absoluto que, durante este ano, deve diminuir entre 25% a 50%.

Com os terrenos de cultivo arrasados pelas bombas e os agricultores mobilizados para a guerra, a invasão russa pode reduzir para metade a colheita de cereais na Ucrânia, fundamental para a alimentação mundial, alertou esta quinta-feira o governo ucraniano.

A Ucrânia colheu no ano passado 106 milhões de toneladas de cereais, um recorde absoluto que este ano deve diminuir entre 25% a 50%, referiu o ministro da Agricultura ucraniano, em entrevista à agência France Presse (AFP).

De resto, este é, segundo Mykola Solsky, um "prognóstico otimista".

A invasão russa da Ucrânia, lançada a 24 de fevereiro, virou a indústria agrícola daquele país de 'pernas para o ar', na altura em que esta antiga república soviética, famosa pelos seus solos negros muito férteis, era o quarto maior exportador mundial de milho e estava a caminho de se tornar o terceiro maior exportador de trigo.

Parte das regiões com solo fértil, especialmente no sul, como Kherson, Zaporozhye ou Odessa, estão a ser atormentadas por hostilidades.

Um dos problemas é a ida de muitos agricultores para o Exército, ou para a defesa territorial, que cria uma escassez de mão-de-obra, refere o ministro.

Por isso, o governo procura criar um "sistema de isenções temporárias" que permite aos trabalhadores não serem mobilizados para o campo de batalha.

Apesar da guerra, os ucranianos já começaram a semear trigo, cevada, aveia, girassol ou soja, mas a mudança da situação no terreno está a obrigar as quintas e as autoridades a improvisarem.

"Não sabemos quais culturas serão plantadas (...) Cada agricultor ou quinta tomará a sua decisão com base na disponibilidade de sementes, fertilizantes, pesticidas e combustível", explica Mykola Solsky.

A falta de combustível é outra das dores de cabeça principais, visto que antes do conflito este era entregue principalmente pela Rússia e Bielorrússia, bem como através de portos marítimos cujo acesso está hoje bloqueado pelas forças russas.

As últimas semanas têm piorado este cenário, porque Moscovo tem procurado atingir vários grandes depósitos de combustível, principalmente no oeste do país, que até então tinha sido relativamente poupado.

"O inimigo dirige cinicamente os seus ataques contra os depósitos de combustível, sabendo que estamos a preparar-nos para a campanha de sementeira, para impedi-la", acusa o ministro.

Solsky garante que "estão a caminho" novos fornecimentos, mas não adianta detalhes.

O governo está ainda "a trabalhar para aumentar a capacidade de exportação", nomeadamente com a ajuda dos caminhos-de-ferro, assegura.

A Ucrânia tem reservas suficientes para alimentar a sua própria população, que antes da guerra era de cerca de 40 milhões de pessoas.

Esta autossuficiência foi garantida, especialmente porque o governo proibiu ou limitou a exportação de muitos produtos alimentícios, como trigo, açúcar, aveia, carne bovina ou aves.

Mas as exportações, cruciais para a balança económica do país mas também para a alimentação mundial, deverão ser afetadas.

A Rússia foi acusada na terça-feira, perante o Conselho de Segurança da ONU, de criar, através da sua ofensiva militar contra a Ucrânia, uma crise alimentar mundial que pode ter repercussões em particular no norte da África e no Médio Oriente.

A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que matou pelo menos 1.232 civis, incluindo 112 crianças, e feriu 1.935, entre os quais 149 crianças, segundo os mais recentes dados da ONU, que alerta para a probabilidade de o número real de vítimas civis ser muito maior.

A guerra provocou a fuga de mais de 10 milhões de pessoas, incluindo mais de 4 milhões de refugiados em países vizinhos e quase 6,5 milhões de deslocados internos.

A ONU estima que cerca de 13 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e políticas a Moscovo.

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