Abiy Ahmed chegou à liderança do Governo da Etiópia em abril de 2018
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Quem é Abiy Ahmed, o mais jovem líder africano que ganhou o Nobel da Paz?

É defensor da democracia, dos direitos humanos e do pacifismo. Abiy Ahmed foi, esta sexta-feira, distinguido com o Prémio Nobel da Paz.

Tem 43 anos. É o chefe de governo mais jovem de todo o continente africano. Foi militar nos serviços de inteligência da Etiópia e tem formação superior em engenharia informática. Abiy Ahmed chegou ao poder há um ano e meio e, mal assumiu funções, libertou 7.600 presos políticos. Desde então, conseguiu pôr fim a um conflito de 20 anos entre a Etiópia e a vizinha Eritreia - e, esta sexta-feira, venceu o Nobel da Paz por esse feito.

Abiy Ahmed é um político reformista. Tem lutado pelo reforço da democracia e dos direitos humanos no país, procurado liberalizar a economia e defendido a voz das mulheres.

Nas últimas presidenciais da Etiópia, em 2018, bateu-se pela eleição de uma mulher, Sahle-Work Zewde - que acabaria por ser eleita - e promoveu a escolha de uma outra mulher, ativista dos direitos humanos Meaza Ashenafi, para presidente do Supremo Tribunal da Etiópia.

O primeiro-ministro etíope iniciou também uma revisão constitucional para rever o sistema de federalismo étnico em vigor no país, que é considerado uma das principais causas das tensões raciais na Etiópia.

"Abiy Ahmed passou seus primeiros 100 dias como primeiro-ministro a levantar o estado de emergência do país, a conceder amnistia a milhares de presos políticos, a interromper a censura dos media, a legalizar grupos de oposição proibidos, a demitir líderes militares e civis suspeitos de corrupção e a aumentar significativamente a influência das mulheres na vida política e comunitária da Etiópia", defendeu, em comunicado, o o Comité Nobel norueguês.

Abiy Ahmed tem ainda, no entanto, muitos desafios pela frente na liderança do Governo da Etiópia. Para começar, a resistência à mudança que enfrenta dentro da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope, a aliança de partidos de que faz parte e que tem vários interesses estabelecidos. Tem ainda de lidar com a escalada da violência no país - que, em junho, levou ao assassinato do presidente de uma região etíope e de vários outros oficiais de alto nível. E, por último, mas não menos determinante, as expectativas da população jovem da Etiópia, que procura mais e melhores empregos e maior desenvolvimento no país.

Com 105 milhões de habitantes, a Etiópia é a segunda nação mais populosa do continente africano e com a maior economia da África Oriental.

"Sinto-me honrado e emocionado"

Perante a notícia da distinção com o Prémio Nobel da Paz, Abiy Ahmed agradeceu o reconhecimento e declarou-se "muito feliz e entusiasmado" .

"Sinto-me tão honrado e emocionado. Muito obrigado", disse o primeiro-ministro etíope, numa chamada telefónica com o secretário do Comité Nobel norueguês. "Este é um prémio para África, para a Etiópia e posso imaginar que o resto dos líderes africanos irão encarar positivamente o trabalho para construir paz no nosso continente", expressou.

Sopram ventos de esperança em África

Em reação à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Abiy Ahmed, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que "os ventos de esperança nunca estiveram tão fortes em África" e que "Abiy Ahmed é uma das principais razões".

"A sua visão ajudou a Etiópia e a Eritreia a alcançarem uma reaproximação histórica, e eu tive a honra de testemunhar a assinatura do acordo de paz no último ano", declarou António Guterres. "Este marco histórico abriu novas oportunidades para a região desfrutar de segurança e estabilidade e a liderança do primeiro-ministro Ahmed deixou um exemplo maravilhoso para outros, dentro e fora de África, ultrapassarem a resistência do passado e colocarem as pessoas primeiro."

Também a Amnistia Internacional considera Abiy Ahmed um exemplo para os líderes mundiais. Em declarações à TSF, o diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal, Pedro Neto, defendeu que o Nobel da Paz para o primeiro-ministro etíope é "um sinal para África e para todo o mundo".

"Este primeiro-ministro é um exemplo para os líderes políticos de todas as nações do mundo. Tem desempenhado muito trabalho pelos direitos humanos, na libertação de presos políticos, na democratização plena do país e está empenhadíssimo no processo de paz com a Eritreia", referiu Pedro Neto. "Esta zona de África é bastante fustigada por conflitos e, portanto, é bom termos o exemplo de um líder político que toma medidas que promovam a paz, a prosperidade, a democracia e a igualdade de género".

Fenómeno de popularidade num país em desenvolvimento

O jornalista da TSF Nuno Guedes, que esteve na Etiópia no início deste ano, lembra um episódio que viveu no país e que revela a popularidade de Abiy Ahmed em território etíope.

"Na Etiópia, por norma, os tul-tuks tem fotografias de pessoas de quem os condutores gostam. Recordo-me perfeitamente de que em alguns estava o Cristiano Ronaldo e noutros uma cara que eu não conhecia. Perguntei a um dos poucos motoristas com quem consegui falar em inglês que cara era aquela, quem era aquela pessoa. E ele disse-me que era o primeiro-ministro, o que me deixou espantado. Até comentei com ele que em Portugal seria completamente impossível termos um primeiro-ministro adorado ao ponto de estar num tuk-tuk, num meio de transporte", contou.

Sobre o ambiente vivido no país, o jornalista descreve uma nação muito pobre mas com uma história milenar. "Vê-se muita pobreza e há zonas do país onde é complicado andares na rua. Mas a Etiópia está longe de ser só pobreza e crianças subnutridas. É um país com uma história muito grande. Tem monumentos, que é uma coisa muito difícil de encontrar na África Central", reparou.

O jornalista considera, contudo, que a Etiópia tem margem para progredir e desenvolver-se, embora sempre de uma forma bastante condicionada. "Vê-se estradas a serem construídas, vê-se arranha-céus, e esse potencial de crescimento está lá. Mas o nível de pobreza continuará, pelo menos durante muitas décadas, a ser muito elevado", constatou.

"Confia a si próprio um papel messiânico"

A eurodeputada Ana Gomes fala de um prémio justo para Abiy Ahmed, principalmente porque a distinção é de "elementar justiça", enviando também um sinal ao mundo.

A Etiópia é "um país muito importante, não apenas para África mas para todo o mundo", explica a eurodeputada. O prémio é "o reconhecimento de um passo absolutamente decisivo e inédito" do primeiro-ministro etíope, que avançou para a paz com a Eritreia. A este passo juntaram-se a abertura política do país aos exilados e a libertação dos "milhares de presos políticos".

Abiy Ahmed é um "homem do regime autoritário", mas tal não o impediu de analisar as tensões no país - entre elas o conflito entre muçulmanos e católicos - e vê agora esse trabalho "reconhecido".

Ana Gomes encontrou-se com Abiy Ahmed, na Etiópia, quando chefiou uma missão de observadores às eleições de 2018. Descreve o novíssimo Nobel da Paz como um homem com um ego de vulto.

"Tem um ego significativo e confia a si próprio um papel messiânico. Isso também explica, sem dúvida, as atitudes sem precedentes que tomou no sentido da paz e da democratização da Etiópia", explica a eurodeputada.

Apesar dos esforços, os conflitos "ainda estão presentes na Etiópia e há muito trabalho a fazer". Ana Gomes espera que este prémio seja um "incentivo" à continuação dos esforços no país.

Notícia atualizada às 12h44

*com Rui Silva e Ana Sofia Freitas

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