Recusou o papel de vítima e tornou-se ativista contra os abusos sexuais no Congo

Emmanuella Zandi tem 23 anos e há 10 decidiu tornar-se ativista contra a violência sexual. Na República Democrática do Congo a cultura patriarcal e a guerra dificultam a vida a milhões de mulheres.

Há quem lhe chame a "Rapariga africana com asas" pela forma como enfrentou os obstáculos que a vida lhe colocou pela frente.

A viver na cidade de Goma, uma das zonas mais perigosas do país, o mundo de Emmanuella desabou quando aos 7 anos foi abusada por dois soldados. Seis anos depois o ataque repetiu-se, desta vez às mãos de um familiar.

Os abusos deixaram fortes cicatrizes físicas, mas as psicológicas foram ainda mais profundas já que nem a comunidade em que estava inserida a apoiou. Emmanuella Zandi contou à TSF que foi muito discriminada, "vivi uma situação muito complicada. O traumatismo, os efeitos da guerra e a estigmatização a que fui sujeita pela minha própria comunidade. Quando passava as pessoas apontavam e diziam - olha a miúda que foi violada, a miúda que foi violada. Tudo isso afetou a minha autoestima."

Com 13 anos sem ter com quem falar ou desabafar a adolescente decidiu contar publicamente o que lhe tinha acontecido, estava farta de ser uma vítima. Uns dias depois foi raptada e esteve desaparecida durante 72 horas. Emmanuella está convencida de que a queriam silenciar, "eles queriam aterrorizar-me. Disseram-me que uma menina da minha idade não tinha o direito de falar do assunto. Não o podia fazer para seguir em frente."

O processo de cicatrização começou quando percebeu que tinha de ajudar outras jovens. "Imaginei o que outras raparigas da minha idade poderiam sentir num país onde a cultura e os tabus oprimem os direitos humanos. Nós não podemos sequer tentar falar com os nossos pais sobre, algo tão natural como, a menstruação ou o nosso sofrimento. É impossível! Quando tinha treze anos decidi começar a defender os direitos das raparigas, especialmente em casos de violência sexual."

Quando mais precisava ela não teve quem lhe dissesse que o que tinha acontecido não era culpa dela, não tinha qualquer responsabilidade. Emmanuella Zandi quis, por isso, tornar-se nessa pessoa que não esteve presente para ela. Foi por essa altura que decidiu criar a organização não-governamental "Ma Voisine" (a minha vizinha). Todas as semanas viaja pelo país para se encontrar com crianças e adolescentes para os ajudar e dar informações. Os encontros começam quase sempre da mesma maneira. A ativista procura uma criança de 7 anos, apresenta-a e conta o que lhe aconteceu com aquela idade. Os participantes, rapazes e raparigas, escutam atentamente e normalmente fazem muitas perguntas.

"No país não existe educação sexual e por isso eles têm um conhecimento muito limitado do corpo. Se não respeitam os seus corpos também não podem respeitar os corpos dos outros. Depois de lhes contar a minha história tento fazê-los compreender que não estão sozinhos. Há pessoas que passaram pelo mesmo e estão disponíveis para os ajudar, acompanhar e escutá-los. É importante que saibam que não estão sozinhos, como eu estive."

Depois de vários anos como ativista a jovem quis ir mais longe e dar às mulheres e raparigas o controlo das suas vidas. Emmanuella resolveu abrir um estúdio, na própria casa, que nesta altura emprega 5 pessoas. O Nkento (mulher, no dialeto lingala) tem dois objetivos: dar poder às mulheres e combater um outro tabu na sociedade congolesa: a menstruação.

No estúdio são fabricados pensos higiénicos reutilizáveis. Os pensos são nos países ocidentais algo adquirido, mas na Republica Democrática do Congo a falta de meios para os comprar limita a vida das mulheres e impede milhares de jovens de continuarem os estudos.

Aos 23 anos, 10 como ativista, Emmanuella Zandi reconhece que nesta década houve algumas mudanças positivas. Em diversas zonas do país já é possível as vitimas terem acesso a ajuda médica, psicológica e judicial. A jovem, hoje jornalista, diz no entanto que a cultura continua a ser patriarcal e os ataques sexuais são frequentes.

A ativista confessa que tem orgulho de ter sido capaz de contrariar aqueles que dizem que as mulheres vítimas de violação não têm futuro.

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