Crianças no sobrelotado campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, Grécia
Surto de coronavírus

Refugiados em Lesbos. "Quando chegar cá, as pessoas vão morrer" 

Organizações Não-Governamentais na Grécia apelam à evacuação dos campos de refugiados para que, quando o novo coronavírus lá chegar, não seja uma catástrofe. "Estão dependentes de Deus, dependentes de nós, de ti, dependentes de outras pessoas, não podem fazer muito do lado deles", afirmam os Médicos Sem Fronteiras.

Imagine ter de dividir uma casa de banho com outras 160 pessoas. Para tomar um duche, pode fazê-lo num chuveiro onde também o fazem outras 200. Água quente? Isso é um luxo. Para dormir, dia após dia, vai fazê-lo numa tenda ou num contentor sobrelotado. Agora, imagine isto tudo num tempo em que praticamente todas as autoridades do mundo estão a pedir isolamento social por causa do surto do novo coronavírus. Impensável, não é?

Sem distanciamento social possível, esta é a realidade nos campos de refugiados gregos, em particular, no campo de Moria, na ilha de Lesbos, onde a situação é cada vez mais urgente. Para já, ainda não há casos positivos de infeção pelo novo coronavírus neste campo, mas já lá vamos...

Primeiro, a descrição do local feita por Fabiana Faria, assistente social num contexto de migração na ONG Fénix Humanitarian Legal Aid: "Moria foi inicialmente construído para albergar menos de 3 mil pessoas e, neste momento, tem cerca de 19 mil ou mais até. A maior parte da população são mulheres e crianças, vivem em tendas ou contentores de metal, a grande maioria em tendas. Contentores de metal são para casos extra vulneráveis como pessoas em cadeiras de rodas. Há zonas que são concebidas para mulheres solteiras ou para crianças desacompanhadas, por exemplo. Tens o interior de Moria e tens os arredores que são o que se chama de 'olive grove' e que já se expandiu de tal forma que é maior do que o interior de Moria".

Feita a apresentação geral, Fabiana Faria, que está há dois anos na ilha de Lesbos, começa a detalhar. Além da enorme quantidade de pessoas por casa de banho, ainda há a questão dos grandes aglomerados de pessoas. "Se tens de caminhar 20 ou 30 minutos para chegar à casa de banho, se tens filas de horas quando chegas à casa de banho, isto não tem, de forma alguma, capacidade para toda a gente poder tomar banho todos os dias... E falar de água quente já é todo um luxo ao qual não se pode chegar", conta à TSF numa entrevista telefónica.

Se as questões de higiene são precárias, a alimentação não fica atrás porque as "pessoas recebem comida através de um sistema de distribuição que é uma fila". "As pessoas têm de estar horas e horas em fila para receber a própria comida, como se pode ver, isto é outro fator de contágio que vai contribuir imenso".

Portanto, qualquer tentativa de manter o distanciamento social é nula. Esta voluntária portuguesa sublinha que, "numa tenda em que deveriam estar quatro pessoas, provavelmente estão seis, oito, dez". Já nos contentores de metal onde deveriam estar 10, estão 20.

"É impossível, em Moria, haver distanciamento. Precisas de ir ao médico, tens de estar numa fila, precisas de ir ao sistema de asilo europeu ou grego, precisas de estar numa fila, precisas de ir buscar itens de higiene, precisas de estar numa fila, precisas de falar com a polícia, tens de estar numa fila, precisas de falar com as Nações Unidas ou com uma assistente social, precisas de estar numa fila. Não é possível qualquer tipo de distanciamento", conta.

O que muda em tempos de coronavírus?

Com o vírus a galopar pelo mundo e com mais de 800 casos confirmados na Grécia, é apenas uma questão de tempo até que nos campos de refugiados se comecem a assistir a múltiplas infeções. À data destas entrevistas, ainda não há quaisquer casos confirmados entre migrantes, mas é apenas uma questão de tempo.

Fabiana Faria conta à TSF que, na ilha de Lesbos, há quatro casos confirmados entre a população local, mas que em Moria ainda não houve nenhum teste positivo. Quando acontecer, a situação pode ser uma catástrofe.

"Parece-me muito que se esquece, sendo o vírus super contagioso, que isto não é uma questão de se vai afetar a população de migrantes, refugiados e requerentes de asilo. Não! Isto vai, sem dúvida, afetar esta população e vai ser impossível esta população não afetar a população local também", sublinha a voluntária da Fenix.

Com um hospital com apenas cinco camas de cuidados intensivos para toda a população, Fabiana Faria não tem dúvidas: "Isto vai ser impossível! Para todos nós, é bastante sufocante estar a ver a falta de preparativos e pensar que, quando chegar cá, as pessoas vão morrer, muito literalmente".

E não bastassem os exemplos de infeções e mortes nos diferentes países e em pessoas que vivem com condições sanitárias aceitáveis, Fabiana Faria explica o porquê de considerar impossível lidar com um surto no campo de refugiados de Moria.

"Há um montão de gente com problemas crónicos, já para não falar que a maioria da população terá sistemas imunitários muito mais frágeis, uma vez que a alimentação e condições de abrigo nunca foram apropriadas. Estão muito mais sujeitos às intempéries - e aqui o tempo tem variado entre sol, está quente, e depois chove torrencialmente - as pessoas estão muito mais suscetíveis a que tudo lhes passe", lamenta esta voluntária portuguesa.

Para Apostolos Veizis, diretor da unidade operacional de apoio médico dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Grécia, esta situação só vem realçar as falhas dos últimos anos, nomeadamente no acesso à saúde e que pioraram desde o ano passado. "Desde julho de 2019, o governo grego parou de providenciar aos recém-chegados o número de segurança social que permite que as pessoas tenham acesso à saúde e a medicamentos", diz este responsável à TSF.

"Isso significa que hoje nos campos temos muita gente com condições médicas crónicas, sejam problemas cardiovasculares, seja diabetes ou problemas respiratórios. Isto expõe estas pessoas ainda a mais riscos, ao mesmo tempo que também as crianças não estão a ser vacinadas para prevenir a transmissão de diferentes doenças como hepatite C, meningite ou sarampo", denuncia Apostolos Veizis.

O médico não tem dúvidas de que as pessoas nos campos estão bem conscientes da gravidade da situação, no entanto, considera que elas estão impotentes mesmo em relação às suas próprias vidas. "Claro que eles têm muita informação, claro que são treinados para fazer o melhor da sua parte, claro que estão preocupados porque também têm crianças, mulheres e homens a viver nestes campos, mas não têm poder. Estão dependentes de Deus, dependentes de nós, de ti, dependentes de outras pessoas, não podem fazer muito do lado deles", nota.

Evacuar, evacuar, evacuar

"Temos uma mensagem simples para os países: testar, testar, testar". As palavras do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Ghebreyesus, ainda estão frescas na memória e dizem respeito ao meio que se acredita mais eficaz para prevenir contágios e mortes. Nas ilhas gregas, para os refugiados e requerentes de asilo, a solução é, em primeiro lugar, outra: evacuar, evacuar, evacuar.

Até porque, na opinião de Apostolos Veizis, há um outro vírus a dominar os campos de refugiados por toda a Grécia e que se instalou bem antes do novo coronavírus. "É importante lembrar que esta situação não foi criada por causa do coronavírus, estamos a falar de uma situação que, nos últimos 4 anos, as pessoas têm vindo a sofrer de um outro vírus chamado acordo entre União Europeia e Turquia. Durante este vírus, estas pessoas têm sido maltratadas, têm desenvolvido doenças e têm morrido nestes campos", acusa o médico dos MSF.

"É uma oportunidade para que a União Europeia e o governo grego deem passos no sentido de reduzir o risco, proteger estas pessoas mas, ao mesmo tempo, não as expor a mais sofrimento", afirma Apostolos Veizis para quem "a situação é difícil nos campos porque as pessoas não são consideradas seres humanos, são consideradas números". "E um número é um número, podemos apagar ou acrescentar e continua a ser um número", lamenta.

Com os olhos no terreno, Fabiana Faria aponta duas medidas que tardam: "evacuação e um plano de contenção da introdução e propagação da doença". "Ainda nem sequer houve uma avaliação de risco epidemiológico de como é que isto se vai propagar aqui no campo, ainda nem sequer houve uma equipa de especialistas a vir cá e dizer que zonas do campo vão ser piores, uma estimativa de que se tivermos este número de casos, temos este número de equipamento médico para responder, até agora ainda não houve nada", afirma esta voluntária portuguesa.

"Uma vez que já há quatro casos confirmados na ilha, ainda que não tenha chegado ao campo e não há planos postos em prática, pelo menos, a evacuação parece ser a única solução. Mesmo numa altura em que as fronteiras estão fechadas, os voos cancelados, parece-me uma exceção suficiente para se mover pessoas e pô-las em quarentena num sítio melhor", nota.

A situação tende a piorar quando ainda entra a discriminação institucional e os estigmas nesta complexa equação. "Claro que há muito esta estigmatização - irónica porque os casos de corona são de gregos e não de refugiados ou de requerentes de asilo -, de que os refugiados é que vão dar esta doença a toda a gente", conta Fabiana Faria.

A voluntária portuguesa em Lesbos dá conta de que, "já desde a semana passada, os hospitais e os centros de saúde cancelaram todas as marcações que tinham de residentes do campo" e que isso "será, sem dúvida, um problema". "Se isto é um comportamento institucional, a população em si vai se sentir muito mais à vontade para achar que se tem de manter afastada destas pessoas e que estão mais seguros", diz à TSF.

No campo político, Apostolos Veizis lembra que "esta é uma situação que não foi criada por migrantes e refugiados", mas sim pela União Europeia e pela Grécia ao terem sido negligentes a lidar com a situação.

"Hoje, se queremos salvar tantas vidas como queremos, temos de considerar que estas pessoas existem e fazer o que planeamos fazer para todos os outros cidadãos que vivem nos nossos países. Claro que os campos nas ilhas gregas ou no continente não são os únicos no mundo, há muitos outros campos em todo o mundo em que muitos refugiados estão a enfrentar estas situações, mas falando sobre a Grécia, é possível assegurar que a evacuação pode acontecer, assegurar que os serviços médicos funcionam e que medidas de proteção podem ser oferecidas a estas pessoas ao mesmo tempo que se aumentam as instalações de água e de saneamento de modo a reduzir a situação", afirma este médico em jeito de apelo às instituições europeias.

Mil refugiados a caminho de Portugal. Mas quando?

Portugal tem sido elogiado ao longo dos anos pela postura que tem mantido em relação à crise migratória que nunca parou. Ainda no ano passado, o governo assinou um acordo bilateral com a Grécia para receber mais um milhar de refugiados dos campos gregos.

Acordo assinado e em vigor, o que é que aconteceu a estas pessoas? Permanecem nos campos helénicos porque cabe ao governo grego dar o primeiro passo de identificação de quem poderá estar nas melhores condições para vir para Portugal e, posteriormente, comunicá-lo às autoridades nacionais.

Fonte do ministério da Administração Interna garantiu à TSF que, até agora, ainda não foi feito nenhum contacto da parte das autoridades gregas, mas que o acordo mantém-se em vigor para Portugal receber mais um milhar de refugiados de forma faseada.

Ainda no início do mês de março, o ministro Eduardo Cabrita reiterou publicamente a disponibilidade do país para acolher estes mil refugiados.

#eapenasumpoucotarde

"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde". Quando escreveu estes versos, Manuel António Pina estaria longe de adivinhar que serviriam de mote a uma plataforma de voluntários portugueses preocupados com a situação dos refugiados na Grécia.

Por considerarem que "é apenas um pouco tarde", mas que ainda há tempo, cerca de 300 voluntários portugueses dirigiram-se ao governo português para que não vire a cara àquilo que acontece em solo europeu.

O porta-voz deste grupo explica à TSF que já conseguiram com que o executivo marcasse uma reunião para "estruturação da resposta que o Estado português pretende organizar para o acolhimento de pessoas vindas dos campos de refugiados na Grécia".

Tiago Marques defende que é "preciso acordar para esta urgência", mesmo numa altura em que parece extemporâneo falar de refugiados porque toda a informação que nos chega é relativa a um único tema: o novo coronavírus.

Mas, precisamente por isso, este voluntário português considera que as pessoas têm de estar cientes deste outro problema. "Se é verdade que parece ser um momento pouco oportuno para falar de refugiados, acolhimento e integração, a verdade é que nunca foi tão urgente como é hoje, fazê-lo e acordar para esta problemática, para a urgência e crise humanitária que se vive em solo europeu, em países europeus, às nossas portas, aqui ao lado. Nunca foi tão urgente", vinca Tiago Marques que dá voz às preocupações de voluntários e sociedade civil que não querem ver estas pessoas abandonadas ao seu destino.

Defendendo que quem se preocupa pode associar-se a este movimento e subscrever petições, Tiago Marques confia que "o recolhimento em que hoje estamos todos em Portugal e no mundo fora, abrirá também espaço nos corações das pessoas para olhar para esta realidade como ela merece ser olhada: uma urgência que não pode ser ignorada, às nossas portas, e que é um barril de pólvora prestes a explodir".

Em sintonia com estas palavras, a mais de 3 mil quilómetros de distância, Apostolos Veizis apela às pessoas para pedirem aos seus governos para "tratarem os seres humanos como seres humanos e não como números". Também Fabiana Faria não tem dúvidas: "Toda a gente está em casa fechada, peguem no computador e escrevam aos vossos líderes locais, nacionais, europeus. Daqui a 20 anos vamos ter de pensar, não só o que é que o país fez para ajudar nesta crise humanitária, mas o que é que tu enquanto indivíduo fizeste para tentar aliviar esta situação". O tempo está a contar.

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