"Reivindicar a humanidade é um luxo"

São declarações de Emicida, o músico brasileiro que está em Portugal a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra para uma residência artística que termina na quinta-feira.

O músico brasileiro Emicida afirmou, em entrevista à agência Lusa, que numa sociedade onde nem todos têm tempo para refletir e imaginar uma sociedade melhor, "reivindicar a humanidade é um luxo".

Todas as pessoas têm 24 horas num dia, mas algumas têm "direito ao que é considerado supérfluo e outras não", e, no final do dia, há quem tenha tempo para "pensar o ser humano para além de ser uma engrenagem", para se preocupar com o coletivo, e quem não tenha, disse Emicida, que está em Portugal a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra para uma residência artística que termina na quinta-feira.

"Isso me leva a concluir que reivindicar a humanidade é um luxo, porque você precisa de ter conforto, você precisa de ter uma certa estabilidade para se munir de referências para construir essa ideia de que é possível a gente ter uma sociedade melhor", frisou.

No entanto, esse tempo "é podado, o acesso é podado", especialmente a quem mais precisaria de tempo para se organizar coletivamente.

"As pessoas vão caminhando como se dentro de um funil para um lugar cada vez mais individualista", notou Emicida, considerando que o álbum e o documentário "AmarElo", lançados em 2019 e em 2020, procuram ser uma "contracorrente" disso tudo, mostrando uma imensa experiência coletiva em torno da cultura brasileira

Na ausência de tempo e conforto, Emicida observa que proliferam a ignorância e o medo.

"Amedrontado, ninguém pensa direito. Desesperado, ninguém pensa direito. Quando faço 'AmarElo' eu quero reivindicar uma coisa que para mim também é voltar ao básico, que é dizer: A primeira que eles roubam de você é a serenidade", salienta, lançando uma pergunta: "Quantos de nós têm tempo para tomar a melhor das decisões?".

"Porque é que uma pessoa vota contra ela mesma? Porque é que ajuda a produzir uma política que ajuda a prejudicar a sua vida? Em grande parte, pelo medo. O medo gera uma sensação de que antes era melhor", referiu.

Num país onde as desigualdades são gritantes e onde a fome afeta agora 20 milhões de brasileiros (segundo um estudo recente), Emicida considera que a luta passa por fazer com que o "Brasil real", das ruas, onde as pessoas vão "aos frigoríficos ver se há ossos disponíveis", ocupe "o Brasil oficial".

"Olhando para a experiência da sociedade brasileira agora, o que eu vejo é a ignorância a respeito das conciliações e o medo do que está por vir. Medo porque a gente tem uma economia frágil e medo quando a gente fala de um personagem específico. O homem branco, heterossexual, é inseguro, super-inseguro. O bolsonarismo é o quê, se não a representação melhor dessa fragilidade?", apontou.

É essa fragilidade, sustenta, que leva pessoas a quererem acabar com conversas "que as mulheres têm trazido, com as reivindicações que os pretos têm trazido".

"Querem voltar àquele lugar onde essas vozes ficavam em silêncio. Só que a história não é o Michael Jackson - ela não anda para trás. Ela só anda para a frente e uma vez que foi picado pelo bichinho da emancipação isso não volta atrás. É por isso que as pessoas se provocam a querer refletir sobre monumentos, porque noutro momento não tiveram voz. É por isso que querem influenciar políticas de maneira a fazer com que essas políticas não reproduzam a desumanização que lhes foi imposta", afirmou.

Para eliminar a tensão entre vários lados tão entrincheirados, Emicida aponta para a necessidade de diálogo.

"Esse lugar para onde a gente foi de 'até ali eu não vou' é uma possibilidade, mas a tensão que a gente está vivendo agora é justamente porque até ali ninguém vai. Então, vai ter de chegar o momento em que a gente vai ter de dialogar, porque, se não, vai-se ficar nessas duas estratégias de desespero, até tudo explodir de um conflito que já deveria ter ficado no passado", afirmou.

Num mundo em que as pessoas "estão trancadas nos seus próprios ambientes" e em que se fala para quem já "concorda", Emicida entende que é preciso dar esse passo e falar com quem está do outro lado -- não do que "existe de pior nesse setor", mas de pessoas bem-intencionadas, "que sem as melhores condições para tomar uma decisão, acabaram por ser sequestradas por um qualquer canto da sereia que as leve a afogar-se no mar".

"Eu acredito que é possível. A experiência me prova pelos lugares onde vou, onde as pessoas não têm necessariamente os mesmos posicionamentos que o meu, mas elas demonstram respeito por mim e pelas minhas ideias, porque eu não falo com as pessoas com a necessidade de as converter. Eu falo para ouvir de volta e entender se o que eu estou falando faz sentido", explicou.

"A gente tem que olhar no micro, para ver toda a riqueza da experiência complexa que é ser humano", defendeu.

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