Reportagem na Ucrânia. Ruslan perdeu a casa há oito anos em Donetsk, Nikolai perdeu-a agora em Mariupol
Guerra na Ucrânia

Reportagem na Ucrânia. Ruslan perdeu a casa há oito anos em Donetsk, Nikolai perdeu-a agora em Mariupol

A cidade de Dnipro é atualmente o ponto natural de cruzamento na Ucrânia, em que quem foge do sul se encontra com quem foge de Donbas no leste do país. A guerra que se intensificou depois da invasão russa a 24 de Fevereiro e as cidades ocupadas pelo exército daquela nação assim o impõem.

Este é o caso de Nikolai Biryokov, 65 anos, que saiu de Mariupol após ter perdido a sua casa em março passado, e de Ruslan Syddykov, 30 anos, de Slavyanka, na região de Donetsk, que não perdeu a casa porque já tinha perdido em 2014.

"Estou com receio que a guerra no Donbas se intensifique na próxima semana. Vim para Odessa e vou ficar aqui a viver com um amigo do meu pai numa aldeia", diz.

O que une estes dois homens para além de partilharem um compartimento num comboio de evacuação durante mais 12 horas é o facto de ambos terem ficado sem nada por causa da guerra. Ambos entraram neste comboio no meio de tantos outros ucranianos que, numa massa humana, às escuras, se movia pelo túnel de acesso à plataforma, num silêncio, que foi só interrompido pelos megafones: "Dez minutos de paragem apenas, comboio para Odessa, plataforma 6", dito num repetição em ucraniano e inglês.

O comboio que devia ter chegado às 21h30, para partir meia hora depois, chegou às 23h00 vindo de Kostyantynivka na região Donetsk. Rapidamente todos se colocaram em fila à porta de cada carruagem. Mesmo quem não tinha bilhete pôde entrar.

"Ninguém fica aqui, levamos todos os quiserem ir", diz a funcionária dos comboios ucranianos num tom profissional, mas cansado. Dentro do comboio, todos se dirigem para os seus lugares, quem não tem bilhete procura um espaço e pergunta se ali pode ficar.

O comboio não vai cheio como já foi, todos conseguem lugar para se sentar. Já camas não há para todos.

A viagem segue noite dentro. Tudo às escuras por causa do medo das bombas. Até a casa de banho tem uma cortina grossa para tapar a luz. Vão entrando mais pessoas nos apeadeiros seguintes a Dnipro e durante mais de duas horas o comboio enche. Quase todos adormecem onde se sentem mais confortáveis ou no espaço que sobrou.

Uma senhora de mais de 70 anos entrou com vários sacos plásticos, sentou-se ao lado de Nikolai que já dormia. "Não é justa esta guerra, já não tenho idade para isto. A guerra já levou a minha mãe", lembra. Depois falou algumas palavras em hebraíco ininteligíveis e resignou-se ao silêncio até adormecer sentada, rodeada pelos sacos de plástico.

Pelas 7h00 da manhã a vida regressa aos compartimentos que nestes comboios mais antigos são abertos e pequenas conversas vão se aglutinando entre estranhos, a maioria vindos do sul, de Mariupol, Berdysandk ou Zaporizhzhia, ou do Donbas.

"Antes que tudo piore", ouve-se repetidamente. E começa o ritual de pedir café ou chá à encarregada pela carruagem. Cada um tira do seu saco a comida que tem, salpicão e pão, pequeno bolos, frutas. Quem não tem nada também não passa fome porque há sempre quem ofereça algo. E a conversa entre Ruslan e Nikolai começa ao poucos. Primeiro em frases curtas com pausas, depois em depoimentos de minutos, pautado apenas pela respiração cúmplice de quem escuta. Aqui todos têm uma história para contar e o denominador comum é a guerra. Nikolai diz que veio de Mariupol e que depois de vários dias em Berdyansk, em que foi ajudado por um homem que vendia alfaias agrícolas, chegou a Zaporizhzhia.

"Aquele homem é um anjo, tratou-nos tão bem. Ficámos lá cinco dias sem conseguirmos sair. Deu-nos local para dormir e comida, e tentou sair connosco várias vezes sem sucesso. Nunca aceitou o nosso dinheiro, chama-se Detyuk Andriyovich", recorda.

Nikolai fugiu com o irmão e a cunhada. O irmão decidiu ir para Crimea e daí para a Rússia onde tem um filho. "Foi uma opção dele, aliás há várias pessoas a irem de Mariupol para Rússia, em direcção a Rostov-on-Don, outros para Donetsk. É muito mais perigoso vir para Ucrânia".

Nikolai estava a viver num esconderijo subterrâneo há vários dias, "mas quando saí era só corpos queimados por todo lado, não podia ficar ali". Procurou um autocarro para sair de algum modo. "Parti de Mariupol porque perdi a casa e tudo. Só tenho esta roupa. Veja o meu casado, está tão sujo, nunca ando sujo".

O filho de Nikolai, em Odessa, e outros amigos de Mariupol, conseguiram que as esposas e filhos saíssem da cidade e algumas já estão noutros países da Europa. Ruslan diz-lhe que é do Donbas e que agora mora em Slavyanka.

"Também perdi a casa em 2014 no início da guerra em Donetsk. Agora saí porque acho que a guerra na frente leste se vai intensificar", admitindo estar farto da guerra.

"Esta guerra está-me a tirar a juventude e a vida. Estava a estudar para ser professor na universidade, e agora sou um condutor." Não está revoltado, mas tem consciência que a guerra lhe trocou as voltas à vida e agora uma vez mais, é obrigado a largar tudo, outra vez com receio de voltar a perdeu tudo.

"Mariupol era tão bonita, tinham arranjado tudo há pouco tempo. Agora já nem parece uma cidade", conta Nikolai como se quisesse confortar Ruslan, e os dois se pudessem aconchegar numa só dor, que é a dor também dum país mergulhado na destruição e na incerteza.

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