Reportagem TSF. Aqui, Kiev: uma cidade à espera
Reportagem TSF em Kiev

Reportagem TSF. Aqui, Kiev: uma cidade à espera

Kiev, Ucrânia. "Vou ficar aqui a fazer café enquanto houver. Até lá, abro a porta todos os dias, e os vizinhos são bem-vindos". Evgeni, alpinista, 47 anos, chamam-lhe tio, é um pacifista. Em 2014, quando de facto começou o primeiro capítulo desta guerra, fugiu para o Evereste e andou a meditar. Desta vez, a 24 de fevereiro, dia da invasão russa, foi para casa e ficou meia hora a pensar. Que decisão tomar desta vez, quando não era "apenas" a Crimeia que estava em causa, mas toda a Ucrânia? Decidiu ficar.

"Este é o meu país, esta é a minha cidade, resolvi ficar e fazer café. É a minha forma de contribuir. Manter o café aberto e receber as pessoas. Enquanto aqui estão, têm uns momentos de normalidade." Tem razão. No pequeno estabelecimento decorado com rádios antigos, máquinas de escrever e aparelhos de outros tempos, entram todos.

Há crianças a brincar, avós que tomam chá, um casal de namorados joga xadrez, o periquito azul na gaiola não foge do gato que chega numa mala que tem um óculo onde coloca a cabeça, há um cão minúsculo que não ladra ao gato. Há, portanto, o cão, o gato e periquito, e os três convivem em harmonia, apesar de não saberem que o país está em guerra.

Dentro do café de Evgeni não se nota a guerra. Há bolos típicos ucranianos, café, chá, ao fim da tarde há sopa quente. Do lado oriental da capital, depois do rio Dnipro, que rasga a cidade - e o país - em duas metades, no meio de centenas e centenas de prédios com 25 andares, este lugar é dos poucos de porta aberta. "Se tiver mesmo de sair de Kiev, não pego numa arma, mas vou fazer café para o exército."

Evgeni fala de forma calma e grave. "Todas as guerras são estúpidas, mas nós vamos ganhar esta. Os nossos soldados são bravos, corajosos e os russos não estavam a contar com isso."

Sabina tem 17 anos e está cansada de esperar em casa. "Não sei o que fazer", explica. Hoje desceu para um café e brincou com os vizinhos irrequietos de quatro e seis anos. "Temos de esperar, não sabemos o que vai acontecer."

Kiev é hoje uma cidade com menos de metade dos habitantes. Segundo o presidente da câmara, dos três milhões e meio de residentes, apenas um terço terá ficado. À espera. Apesar de tudo, a cidade continua a funcionar. Há comida, táxis, entregas ao domicílio, alguns transportes públicos, pequenos cafés e farmácias.

Nas ruas desertas, a exceção são soldados, polícias e os piquetes da "defesa civil". Estão nos postos de controlo, onde é preciso mostrar o passaporte para passar. São fronteiras dentro da cidade. No centro, há um destes em cada quarteirão.

"Falam francês?", pergunta uma soldado, numa destas paragens obrigatórias. "Um pouco, sim". Ela quer saber o que estamos aqui a fazer. "Viemos por causa da guerra." Não se lhe vê o sorriso, mas os olhos mudam de expressão. Manda avançar.

Em Kiev, o tempo parou na madrugada do dia 24 de fevereiro e parece suspenso desde aí. À espera. Dos aviões da NATO, antes que cheguem os da Rússia. Do fim da guerra, antes que mais cidades sejam arrasadas. De tréguas, antes que morram mais civis e militares.

Enquanto houver café, Evgeni está ocupado. À espera.

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