Reportagem TSF. "Até me esqueci que estamos em guerra"
Reportagem TSF na Ucrânia

Reportagem TSF. "Até me esqueci que estamos em guerra"

Tópicos chave

Num banco do jardim da praça principal, dois jovens jogam xadrez. No enorme passeio pedonal, famílias inteiras, descontraídas, aproveitam a tarde para caminhar na baixa da cidade. Há milhares de pessoas nas ruas, os cafés e restaurantes estão cheios. Ouvem-se risos, conversas, e gente que espreita as montras que ainda exibem os saldos de inverno.

Não neva.

Os orientais despacham Kebabs sem parar, comida de rua muito popular, que obriga a filas diante das dezenas de quiosques de dois por dois metros. O trânsito flui, aqui e ali uma buzinadela, porque alguém conduz mais devagar. O centro histórico está apinhado de gente sem pressa.

Na mesa do lado, uma família, pai, mãe, um casal de filhos, conversa animadamente sobre o possível futuro do mais novo. Tem 12 anos e quer ser «designer gráfico». A mãe, sábia, sugere que ele escolha, em vez disso, ser polícia. Um ciber polícia. Ele, curioso, pergunta o que é um ciber policia. Ela explica que é um polícia que protege a internet, a informação, que vigia os que os criminosos que se escondem atrás do computador andam a fazer. «Vais ver, vai ser uma profissão muito útil no futuro». Ele fica a pensar. Talvez a mãe tenha razão. Ser polícia dos computadores parece uma ideia interessante e, no mínimo, diferente, postas as coisas desta forma.

Acabam o café, levantam-se, estão quase a sair. O pai, deixa escapar: «Parece que não estamos em guerra. Por momentos até me esqueci".

Só quando a vida deixa de ser «normal», e quando uma crise, uma guerra ou uma tragédia se nos atravessam no caminho, é que podemos perceber como é valiosa a normalidade.

É domingo.

E parece domingo. Num país que está em estado de guerra, com a lei marcial imposta, com recolher obrigatório e a ver mais de 4 milhões de concidadãos em movimento, dentro das fronteiras e a caminho do estrangeiro, cidades inteiras bombardeadas e tomadas pelo inimigo, um exército a resistir como pode, uma sociedade a organizar-se para suportar uma nação que quer continuar livre e independente, um dia «normal» é o melhor que se pode pedir.

Nas conversas, há sempre dois temos que marcam a linha do tempo. A partir do momento em que a Federação Russa começou a atacar a Ucrânia. O «antes», que neste caso foi há dez dias, e o «agora», que é o dia de hoje, o de amanhã, a semana que vem, o mês que se segue. Todos sabem quando começou, mas ninguém adivinha nem consegue prever quanto tempo vai durar o «agora», o «por estas dias», ou esta «situação».

Entretanto.

Do outro lado da cidade, junto à estação de comboios, outra família não se lembra que é domingo. Não passeia pela avenida. Não discute o futuro dos filhos. Não se senta no café a meio da tarde.

Um casal, e um filho de quatro anos, caminham em passo apressado. Ela vê um fotógrafo que procura escolher o melhor enquadramento para explicar numa só imagem o drama de milhares de deslocados.

-Pode tirar-nos uma fotografia?, pergunta, decidida.

Ele responde que sim, claro, não é costume ser abordado para um retrato.

Os três, a família, esta, que não é a mesma que discutia o futuro do filho de 12 anos no café aquecido do centro da cidade, que não consegue não se esquecer que há guerra, posa de várias formas, para uma objetiva que tenta captar o que dizem os olhos, ler sentimentos través de uma máquina, fazer um disparo e imortalizar um momento que nunca mais se repetirá. Aquele segundo é já passado e não há, nunca, duas imagens iguais. Há apenas uma, a que ficou retida na câmara. Um instante. Um momento.

Ela explica o pedido.

-"O meu marido é militar e vai para a frente de batalha. Por isso, esta pode ser a nossa última fotografia juntos".

É domingo, em Lviv, na Ucrânia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de