Reportagem TSF. Em Luanda, vende-se água em saquinhos de plástico: "É mais barato"
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Reportagem TSF. Em Luanda, vende-se água em saquinhos de plástico: "É mais barato"

Toda a gente compra alguma coisa a alguém - é a base da economia de rua em Angola. É na rua, na beira dos passeios ou no meio do pó entre poças de água e esgoto que vendem doses minimalistas de qualquer coisa, desde sapatos sem par a pirâmides de laranjinhas. Ou saquinhos de plástico com água fresca.

O bairro de S. Paulo, em Luanda, é a meca das vendedeiras de Angola. É onde ficam muitos dos armazéns onde as mulheres compram de quase tudo para vender aos muitos que só em sonhos poderiam entrar numa loja com nome.

É ali que alimentam os filhos ao colo, que chegam a cozinhar alguma coisa para os mais crescidos ou que penteiam a "mais velha". Também é ali que começam a vender as primeiras migalhas da carga que hão de carregar à cabeça cidade fora. Mas há quem nem isso consiga - abastecer-se nos armazéns -, mas ainda assim venda na rua.

Tonete anda pesada, transporta um imenso alguidar de plástico com água e gelo onde nadam mal algumas garrafas de água e saquinhos de plástico transparente com água. "Vendo os sacos de água porque não tenho mais garrafa. É mais barato", explica como quem não percebe a pergunta.

E continua, paciente. "Por causa das dificuldades da vida que a gente está a passar, temos de vender água para ver se a gente põe qualquer coisa em casa."

Mas porquê nos sacos e não nas garrafas? "É mais barato, e já não temos dinheiro para comprar mais garrafa."

Os clientes chupam por um canto do saco de plástico e apertam o outro para fazer subir a água. A água parece tão limpa como a que enche as garrafas de plástico reutilizadas sabe-se lá quantas vezes. Tonete garante a qualidade e os fregueses parecem confiar, mas o segredo está nas contas: "Uma garrafa de água custa 1300 Kwanzas (cerca de três euros), um bidon de água do tanque custa 100 Kwanzas", ou seja, pouco mais de 20 cêntimos.

É deste bidon que se enchem os saquinhos para venda que, quando há condições para esse luxo, até podem estar congelados. Cada saco equivale mais ou menos a um gole, se não tivermos muita sede, e custa à volta de 15 cêntimos.

Na zona onde Tonete vive, a uns 15 quilómetros do centro de Luanda, há canalizações, "mas não corre água". Fraquinho, mas o negócio de Tonete dá, por isso, o único rendimento certo para toda a família.

Para esta aguadeira do século XXI, tal como outras "Tonetes" no século XX, é a água que dá de comer lá para casa. Tem marido desempregado e três filhos menores, também tem 32 anos, "mas parece ter 23". É a única frase que lhe arranca um sorriso.

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