Reportagem TSF. Estranha forma de vida
Reportagem TSF na Ucrânia

Reportagem TSF. Estranha forma de vida

Lviv, Ucrânia.

O dia nasceu solarengo e alegre, com o sol a bater com força nas ruas, geladas, da cidade. Um céu limpo e claro, luminoso, uns ares de primavera. Os habitantes da principal cidade ucraniana do lado oriental demoraram a sair à rua. A noite anterior foi de um sono calmo e tranquilo, as sirenes não tocaram e ninguém acordou em sobressalto, como na madrugada anterior, com o som de mísseis russos a seis quilómetros do centro. A manhã espreguiçava-se, pachorrenta, quando as sirenes que anunciam a possibilidade de um ataque aéreo ecoaram pelos céus. Em Lviv, o som das sirenes vem acompanhado de uma mensagem, com voz grave e séria. O silvo que sai dos altifalantes pendurados nos postes tem, digamos assim, uma legenda. Um ator gravou, há vários meses, as palavras que se transformam em avisos para que todos recolham aos abrigos, túneis, passagens inferiores. Que saiam da rua, fiquem longe de janelas e portas, que se protejam. Ainda assim, a cidade continua no passo vagaroso e displicente. Alguns procuram, em conjunto, lugares mais protegidos. Mas ninguém corre, não há pânico, a fuga não é uma opção. Continuar na rua é, de alguma forma, vencer o medo, manter a cabeça sã e não ceder à ameaça que pode vir do ar.

Dez minutos depois, os telemóveis recebem mensagens a dizer que está «suspenso o alerta, o céu está livre». E a rua continua a cheia. Menos de 40 minutos depois, novo toque das sirenes, mais um aviso, outra vez em estado de alerta. A manhã que sucedeu a uma noite silenciosa é agora um agudo e opressivo som de ameaça.

Tadei Syhlovyi, indiferente a tudo, toca guitarra. Está só ele, o instrumento e uma coluna que amplifica o som que lhe sai das cordas. E da voz. Tem 25 anos, é músico, costuma tocar na rua. Pergunta-me de onde sou. De Portugal. Abre muitos os olhos e diz-me que já esteve no Porto. Gosto muito. É, diz ele, «o meu país favorito na Europa». Os ucranianos não se consideram europeus. Nem asiáticos. Mesmo quando falam da Polónia, cuja fronteira fica a escassas dezenas de quilómetros, referem-se aos vizinhos como «europeus». Mas eles não. Não querem ser russos, por já terem sido forçados a pertencer à União Soviética, mas (ainda) não são europeus. São ucranianos e, nesta altura, a identidade de um povo que não é homogéneo, acaba por ser o cimento que cola a solidariedade, o voluntarismo, a coragem a determinação, a resiliência, o caráter e a dignidade com que resiste. Entalados entre «o fim da Europa» e o princípio da Rússia, a Ucrânia luta por algo que, nos séculos passados, nunca teve. Independência, território, língua. Eles são uma nação, mas ainda estavam a tentar ser um país. Desde 2014 que tomaram o destino nas mãos, depois de duas décadas de presidentes eleitos, sim, mas às ordens de Moscovo. Na praça Maidan, em Kiev, (já agora, Kiev é o nome russo para a cidade ucraniana de Kyiv) o povo simples da Ucrânia levou à demissão de (mais) um presidente marioneta e começou a fazer o caminho da verdadeira independência e liberdade.

Mas desde essa altura que o pais está em guerra. Com a tomada da Crimeia por Putin e os conflitos com na região de Donbass, os ucranianos ainda não conseguiram gozar a liberdade e a democracia em pleno, depois da Perestroika.

No centro de Lviv, passado o som das sirenes, o povo saiu à rua com a alegria que costumava ter. Há dezenas de pequenos concertos, ao ar livre, de improviso, músicos que espalham melodias para fazer esquecer os tempos que se vivem. Há canções nacionais, nacionalistas, o grito de «Glória à Ucrânia», uma mistura de sons diversos que obriga quem passa parar a escutar, a esquecer, por momentos, que há vida antes da morte, que a cidade está ameaçada mas ainda inteira, que fugir não é uma opção.

A meio do dia, o maestro da orquestra Filarmónica de Lugansk dá uma conferência de imprensa para agradecer aos «irmãos e colegas» músicos de Lviv o facto de terem acolhido, nas suas casas, os membros da filarmónica que conseguiram escapar de uma cidade debaixo de fogo. Em breve, as duas cidades estarão, também, unidas por um concerto de tributo a quem os acolheu. Mas, lembra o maestro, infelizmente, em Lugansk, «fomos os primeiros a sentir o que é a paz russa», porque eles estão na região desde 2014. Agora, ironiza, continuamos a sentir o «amor de irmãos que os nossos vizinhos dizem ter por nós». Há mais músicos da cidade do lado oriental do país que estão espalhados por outras cidades. «Não conseguimos vir todos juntos, mas estou muito grato ao povo de Lviv».

Ao fim da tarde, quando o sol já teima em esconder-se, na praça diante do edifício da Ópera de Lviv ainda há vários «palcos», com diferentes artistas e gente que escuta, dança e aplaude.

As sirenes voltam a tocar, a voz que acompanha os silvos regressa, no esmo tom de aviso sério, muitos recolhem a lugares protegidos, os músicos calam-se, a noite está quase a chegar e, de repente, o som que fica a ecoar dentro da cabeça é o dos silvos dos altifalantes que anunciam que o momento é de alerta.

Estranha forma de vida, esta.

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