Reportagem TSF: "Já não é seguro estar aqui." Mykolaiv bombardeada três vezes num dia
Reportagem TSF na Ucrânia

Reportagem TSF: "Já não é seguro estar aqui." Mykolaiv bombardeada três vezes num dia

É o presidente da câmara, Oleksandr Syenkevych, quem o reconhece: a cidade deixou de ser um abrigo aceitável para quem ainda não saiu dela. O conselho é o de que o façam.

Mykolaiv foi bombardeada três vezes durante este sábado. Os alvos foram um bairro residencial junto à zona portuária, uma oficina da manutenção militar ucraniana e um jardim de infância. O cerco russo à cidade está a apertar e as autoridades temem a entrada do exército de Putin na cidade. A 38.ª Brigada Mecanizada do Exército ucraniano já trocou Odessa por Mykolaiv. As barreiras antitanque que estavam no centro da cidade também seguiram o mesmo caminho.

O primeiro rocket destruiu dois apartamentos e feriu uma mulher. Outros dois atingiram uma oficina militar a poucas centenas de metros. As explosões aconteceram pouco depois das 7h30 e fizeram o bairro de Slobodskaya-Chkalov acordar em sobressalto.

Horas depois, o fumo e o rasto de destruição do míssil russo ainda eram bem visíveis. Um carro ficou completamente destruído, as janelas de várias casas partiram-se. O telhado de um velho prédio desapareceu. Igor, um dos moradores, mostra aos jornalistas um pedaço de metal que assegura ser um resto de um dos rockets que varreram o bairro. "Foram três explosões", conta. "Bem, aqui está todo o resultado. O que mais poderia ser. As pessoas foram imediatamente para o abrigo. Quando aconteceu a primeira explosão eu estava aqui. Parece que não há mortos, mas o que vai acontecer a seguir, não sei", resume o homem.

Ao final da manhã, o presidente da câmara de Mykolaiv surgiu no local. De Kalashnikov ao ombro, Oleksandr Syenkevych fez questão de mostrar aos jornalistas o parque infantil do bairro. "Como podem ver, aqui não há qualquer instalação militar", atirou o autarca. O ataque não provocou mortos, poucos moradores ficaram no bairro. "Quarenta por cento das pessoas já deixaram a cidade. Muitos apartamentos estavam vazios", explica Syenkevych. "Mais um ataque, mais uma zona civil atingida", concluiu, antes de assumir: "Há pessoas que ainda vivem aqui porque não sabem para onde ir. Mas, tal como os outros que já partiram, estas pessoas num par de dias têm de deixar as casas porque aqui já não é seguro."

De facto, em Slobodskaya-Chkalov não havia instalações militares. Elas estavam a algumas centenas de metros. Era uma oficina de reparação dos tanques ucranianos. Na estrada que lhe dava acesso, os soldados barravam o passo a quem tentava chegar. A oficina em Mykolaiv foi uma das 16 instalações militares ucranianas que o Kremlin assegura ter destruído "com mísseis de alta precisão, na noite de sexta-feira", lê-se no relatório diário emitido pelo ministério russo da Defesa.

Pouco depois da visita, o autarca revelou, no Twitter, o alvo de um terceiro ataque russo: um jardim de infância. "Não havia soldados. Não havia bases militares. Felizmente, havia apenas um segurança e está tudo bem com ele", assegurou Syenkevych.

Entretanto, Mykolaiv continua sem abastecimento de água pelo quinto dia consecutivo. As condutas que abastecem a cidade foram bombardeadas em Kyselivka, uma aldeia próxima de Kherson. A região é controlada pelo exército de Moscovo. As autoridades ucranianas reconhecem que não solucionarão o problema enquanto os combates não terminarem. Para já, Mykolaiv passou a ser abastecida com recurso a camiões cisterna. Por toda a cidade são visíveis longas filas junto aos pontos de abastecimento.

Enquanto espera, Lyudmila conta que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial: "Pensei que já tinha visto tudo na minha vida. Mas agora nem água tenho para ferver o chá." E nem quando os bombardeamentos estão a decorrer as filas encurtam. Para não fechar os hospitais, as autoridades ucranianas decidiram abrir furos de água junto às instalações. Nos hospitais de Mykolaiv há, neste momento, mais de 300 feridos civis vítimas dos ataques russos. Mas nenhum deles foi causado pelos ataques de sábado, asseguram as autoridades.

A comissária de Direitos Humanos do Parlamento ucraniano denunciou que a Rússia está a organizar um referendo em Kherson. A votação deve decorrer entre os dias 1 e 10 de maio, período durante o qual, denuncia Lyudmila Denisova, as autoridades russas preparam o fecho das entradas e saídas da cidade. A comissária assegura ainda que várias testemunhas afirmam ter visto os boletins de voto serem impressos.

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