Reportagem TSF. "Não foram convidados, ficarão cá"
Reportagem TSF na Ucrânia

Reportagem TSF. "Não foram convidados, ficarão cá"

Lviv, Ucrânia.

A guerra também se faz de palavras. As que são ditas e as que ficam por dizer. As palavras que se gastam nas diversas interpretações e leituras do verdadeiro significado das palavras ditas. E das não ditas. As leituras das entrelinhas, a adivinhação do que ficou por dizer e o que será que queriam dizer determinadas palavras que foram realmente ditas.

A diplomacia é uma arte complexa e intrincada, que utiliza as palavras com precisão e mestria. Acordo, entendimento, memorando, declaração. Parecem todos sinónimos, na linguagem do dia a dia, mas na verdade são diferentes formas de olhar para um documento e tentar aproximar as partes, evitando que qualquer delas perca a face. Depois das assinaturas, cada qual reclamará a sua própria história, com a narrativa que decidir traduzir em palavras para os seus concidadãos.

Na Rússia, não se utilizam expressões como "guerra", "invasão" ou "conflito". Trata-se, na versão oficial e única permitida, até nos média, de uma "operação especial". Do lado ucraniano, o que para os russos é uma "operação especial", é descrito como uma "invasão", uma "guerra", uma "agressão", uma "ofensiva", um "ataque". Como se vê, as palavras nem sempre refletem a exata realidade que tentar descrever.

Em Lviv, a cidade-resistência, a propaganda ucraniana funciona depressa e bem. Desde o princípio da invasão russa, as mensagens - seja através de cartazes, difusão nas redes sociais ou nos meios de comunicação "tradicionais" - são claras e fazem a apologia da coragem do povo da Ucrânia, num conflito desigual. A Rússia é tratada como um gigante, ampliada nos cartoons; e a Ucrânia como um pequeno país, se comparado com o vizinho agressor. Ou o contrário, uma Ucrânia que se agigante diante de um inimigo reduzido a uma caricatura.

Um dos desenhos, impresso em massa e espalhado por todo o lado, mostra um soldado russo que parece pequeno ao lado de um gigantesco girassol, cultura intensiva no país. Do céu, são largadas sementes, e não balas, que atingem o militar inimigo. Este há de morrer com o ataque das sementes e o cadáver ficará nos solos da Ucrânia para ser utilizado como adubo. A frase que remata o desenho não deixa dúvidas quanto à narrativa. "Nós não vos convidámos, portanto ficarão cá. A servir de adubo."

Noutro cartaz, um imenso urso russo tenta destruir um pequeno roedor ucraniano. Na luta desproporcional entre ambos, o urso está ferido, porque já amputado de uma pata; e o roedor prepara-se para o ataque final ao seu opositor. Ambos travam luta sobre o mapa da Ucrânia. Na legenda, a frase: "Quem vem com espadas para matar, com espadas morrerá."

Há mais. Muitos mais. Com recurso à caricatura, ao desenho grotesco e hiperbolizado, e à repetição. Truques de comunicação que ajudam a manter a nação coesa, a moral em alta e criar uma crença coletiva de que a vitória não só é possível, como vai acontecer.

Na avenida principal de Lviv, a capara da revista Time tem o maior destaque. está replicada a cada dez metros. A edição dedicada ao pais, de há já duas semanas, mostra as cores da Ucrânia, e a frase sublinha: "O presidente Zelensky e os heróis da Ucrânia."

O mais recente cartoon regressa ao mito do pequeno transformado em grande e do agressor diminuído no traço. Uma mulher, em pé, vestida de azul e com as cores da bandeira do país na fita que lhe segura o cabelo, segura, firme, com a mão esquerda, uma pistola cujo cano está enfiado na boca de um Putin de joelhos. A frase diz, apenas: "Não sou uma querida."

Mas o humor em tempo de guerra não é de agora. O conflito entre russos e ucranianos começou em 2014, com a anexação da Crimeia e os combates entre separatistas russos, na região de Donbass. Milhares de soldados já morreram em combate. Ninguém falou deles, mas desde esse tempo que se encontra à venda em qualquer mercado de rua um objeto prático, muito útil e indispensável ao dia a dia. Trata-se de um rolo de papel higiénico que, em cada folha, tem impressa a cara de Putin. Haverá melhor forma de passar a mensagem?

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