Reportagem TSF. O dia em que Cristo desceu ao abrigo
Reportagem TSF na Ucrânia

Reportagem TSF. O dia em que Cristo desceu ao abrigo

No momento em que a estátua, em tamanho real, de um Cristo do século XV, com feições pouco judaicas, que repousa num altar exterior na igreja Cristã Ortodoxa Arménia de Lviv, abrigada dos elementos por um cenáculo de madeira, deixou o seu pouso de há vários séculos, os operários, que passaram mais de uma hora a tentar libertá-la, pousaram delicadamente o corpo esculpido em madeira maciça na tábua que o esperava, no solo.

E fez-se um silêncio reverencial e estranho.

Talvez, depois de uma hora com cordas, serras, martelo e outras ferramentas, e usando a força de braços, o improviso e o equilíbrio, talvez apenas esperassem o fim da tarefa. Mas cerca de 20 pessoas que estavam no pátio da Igreja Ortodoxa Arménia entre olharam-se, sem dizer palavra. Como se se tratasse de um momento solene, como se aquela imagem em madeira tivesse quase vida. Ou como se os que ali estavam, por um momento, tivessem recuado 2022 anos e estivessem a assistir à mais improvável recriação bíblica. Tal como nas escrituras, os homens retiraram Cristo da cruz e, julgando-o morto, depositaram-no num túmulo. O Cristo de madeira também vai ser colocado debaixo do chão, numa cave que lhe servirá de abrigo enquanto a guerra não acabar. Um dia, tal como está escrito nas escrituras, há de deixar o 'bunker' e regressar. À «vida normal», repousando dentro do seu cenáculo de madeira no pátio onde rezam os ortodoxos arménios do oeste da Ucrânia.

Os deuses não são eternos

A praça onde fica a Câmara Municipal de Lviv está guardada por quatro estátuas. Para o lado esquerdo, Afrodite, deusa do Amor e Neptuno, rei dos mares; do lado direito, Diana, deusa da caça. E Adonis, um mortal comum, mas filho de deuses e, depois, endeusado pela sua beleza. Os quatro, impossíveis de mover, estão, hoje, cobertos por várias camadas de elementos do século XXI - fibra de vidro, lã de rocha e plástico. Tudo preso com uma vulgar fita-cola, que não fará jus ao tratamento devido a divindades, mas é o melhor que os ucranianos podem, nesta altura, fazer por eles. Estas representações dos míticos Deuses romanos podem não ser eternas, se for essa a vontade dos Russos.

O município está a fazer uma operação gigantesca e em contrarrelógio para proteger o maior número possível de estátuas, vitrais de igrejas, pequenos monumentos, arquivos e obras de arte em geral. Tudo o que pode ser removido do seu lugar, é guardado.

Lilia Onishchenko, Chefe do Departamento de Património Histórico, dá a cara pela retirada e proteção dos monumentos. Começa por agradecer aos colegas arquitetos e especialistas em restauro de imagens que vieram da Polónia para ajudar. «Infelizmente», diz, «não vamos conseguir retirar todas as estátuas, porque muitas são demasiado pesadas ou demasiado grandes e não podem ser removidas para outro lugar». A essas, esclarece, "estamos a tentar protege-las da melhor forma, como podem ver na praça do município". Fala dos deuses. E dos vitrais das igrejas, cuidadosamente protegidos por madeira aparafusada nas janelas. A cidade prepara-se para o pior, mas espera o melhor.

Na igreja de Boim, em Lviv, a dois passos da Câmara Municipal, está outra das mais raras e belas imagens de Cristo. Está sentado, e não pregado na cruz. Há vários dias que os andaimes começaram a ser colocados e, ontem, a cúpula onde habitualmente se senta ficou vazia. A cidade continua em pé, a resistir, ainda que Cristo tenha descido ao abrigo.

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